CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que achamos : Entre Irmãs

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Review

Nota de Djalma
6/10
Média
6.0/10

A mulher, ao longo dos últimos anos, tem sido retratada na mídia através de vários personagens – reais ou ficcionais – que demonstram características de força e de coragem, algo que há pelo menos duas décadas ainda era razoavelmente um tabu. Assim, é possível perceber que o feminismo, apesar de toda a onda de ódio proveniente de fundamentalistas e fascistas, é crescente em obras ficcionais tanto da televisão quanto do cinema – vemos, portanto, jornadas de personagens femininas repletas de garra e de independência, e essa é a principal temática do longa “Entre Irmãs”, que estreia dia 12 de outubro nos cinemas.

Emília e Luzia são duas irmãs do interior de Taquaritinga do Norte que moram com sua tia na década de 1910, e, apesar de serem bastante diferentes uma da outra – tanto fisicamente quanto em relação a seus princípios e planos para o futuro -, percebem que só têm uma à outra no mundo. Eventos de uma vida sofrida no interior de Pernambuco nas décadas de 20 as fazem partir em caminhos diferentes, mas é perceptível que elas levam suas raízes junto a elas o tempo inteiro, o que também as faz reconhecer que estarão unidas para sempre.

Dentro dos cenários pintados pelo longa de Breno Silveira, com roteiro de Patrícia Andrade baseado na obra “A Costureira e o Cangaceiro”, de Frances de Pontes Peebles, a temática da força feminina talvez seja a mais constante – no entanto, ela acaba perdida em meio a tantas outras temáticas abordadas, e é aí onde se encontra o primeiro problema da obra. Passamos por temas como a pobreza do interior do estado, política, cangaço, interesses financeiros, homossexualidade, casamentos infelizes/de fachada e traições (para citar alguns), sem que nenhum destes temas seja realmente tratado – é como se tudo fosse apenas pincelado pelo roteiro.

E este pincelar acaba trazendo um tratamento extremamente superficial a temáticas tão complexas (que, dentro do filme, não parecem ser tão complexas assim – já que apresentam soluções “fáceis”) acaba dando à obra um tom novelístico. No entanto, não estamos falando de uma novela que prenda o telespectador, mas sim uma obra mais rasa e sem um propósito específico a não ser o de tentar trazer momentos “chocantes” – que na verdade não o são, já que todos eles são muito previsíveis. Essa previsibilidade é, em grande parte, culpa do roteiro, mas o diretor também não ajuda – algumas escolhas de edição de cenas e de utilização da câmera são extremamente clichês, e me remontaram a algumas novelas dos anos 90.

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E já que estamos falando sobre as novelas, precisamos falar sobre as atuações – porque, sim, elas também são dignas de atuações novelísticas. Um ponto principal que me incomodou durante grande parte do filme foram os sotaques e os diálogos; em sua grande maioria, o elenco é composto por atores de um eixo onde falar qualquer outro sotaque (mas principalmente o nordestino) significa exagerar. O que acontece aqui, além do exagero, é o completo esquecimento de onde e como aquelas personagens viviam, então os sotaques entravam e saiam na mesma cena, e os diálogos possuem características de conversas faladas colocadas em papel, ou seja, não havia naturalidade na fala, principalmente em cenas do interior de Taquaritinga do Norte no início do século XX.

No que se refere aos atores e atrizes em questão, acredito que o melhor trabalho venha mesmo da Nanda Costa, que traz à Luzia uma dor que transcende apenas o seu principal problema físico; ela consegue passar através dos olhos da personagem o sentimento de falta de pertencimento, e isso fica claro em vários momentos da trama – eu diria que ela consegue fazer as melhores cenas no filme. Marjorie Estiano, como Emília, justamente pelos problemas com sotaques e a forma como falava, teve seus piores momentos no primeiro ato do filme, mas acaba se tornando, nos dois atos restantes, uma presença razoável – apenas não boa o suficiente para ser a protagonista. Os demais atores fizeram trabalhos satisfatórios para seus personagens, ainda que infelizmente o roteiro os fizesse extremamente unilaterais – o que eu espero ter sido proposital, para fazer as irmãs saltarem aos olhos do público (apesar de, ao meu ver, não terem sido bem-sucedidos).

Por fim, acredito que a grande vilã do filme – apesar de termos alguns personagens caricatos como vilões novelísticos – é realmente a duração. O filme traz a jornada de Emília e Luzia em praticamente 3 horas – algo extremamente desnecessário. Vemos cenas que não deveriam existir, ou ainda escapadas de roteiro que poderiam ter sido descartadas, o que acaba tornando a experiência extremamente tediosa.  Ao que parece, os realizadores tentaram colocar todos aqueles temas já falados num filme só, mas como não havia um propósito para tanto, muito do que foi abordado acabou ficando perdido.

É importante salientar que um filme que traz a história de vida de duas mulheres do interior do estado de Pernambuco e as coloca como heroínas de suas próprias jornadas deve ser, sim, exaltado; é sempre importante perceber o feminismo nas vidas daquelas pessoas que jamais pensariam serem feministas. Mas talvez a maior mensagem que o filme deixe seja realmente ao público telespectador: será que precisamos que histórias difíceis precisem realmente ser contadas com a plasticidade de um roteiro novelístico? Quando poderemos entrar de cabeça numa história difícil, conhecendo um pouco mais a fundo suas nuances, para que possamos dali, sim, tirar conclusões para nossas vidas? Espero que tenhamos essas respostas o mais rápido possível, porque o cinema nacional está repleto de histórias pra contar – elas só precisam ser bem contadas.

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Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears – hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

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