CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que achamos: Mãe! (Sem Spoilers)

em Cinema/Novidades/O que achamos por

Review

Nota de Henrique
10/10
Média
10.0/10

Por mais que avaliemos positivamente esse ou aquele filme de terror e/ou suspense da atualidade, não podemos deixar de reconhecer que de um tempo para cá eles têm sido cada vez mais óbvios, previsíveis e autoexplicativos. Nesse contexto, um público que almeja ser surpreendido pode encontrar verdadeiros colírios para os olhos no terror psicológico, subgênero que incita o temor ao trabalhar com a vulnerabilidade da mente humana sujeita a situações e sensações psicologicamente desconfortáveis.

Neste ano, a mais recente produção cinematográfica a flertar com o terror psicológico é Mãe! Dirigido por Darren Aronofsky (Cisne Negro, 2010), o filme conta a história de um casal que tem o relacionamento testado quando estranhos surgem em sua casa acabando com a tranquilidade reinante. Ou seja, nada de tão novo sobre o Sol até agora, pois é imensa a lista de filmes de terror e suspense que se dispõem a explorar essa mesma temática. Todavia, depois de assistir ao filme e dar de cara com a sua grandiosidade, verificamos que essa sinopse diz tudo e nada ao mesmo tempo, além de trazer à tona a impressão de que estamos diante de mais um filme convencional quando, na verdade, ele está bem longe disso. Nesse sentido, o trailer do longa não fica para trás, porque nos entrega em imagens o que diz a sinopse.

De toda forma, perguntas que precisam de respostas vem à nossa mente depois de lermos à sinopse e assistirmos ao trailer. Afinal, por que um homem abriria a porta da sua casa para um casal de estranhos e ainda os garantiria hospedagem como se fossem conhecidos de longa data, tudo isso sem consultar a mulher e/ou levar em consideração a sua opinião em relação a essa novidade?

As primeiras cenas do filme já trazem a mulher, interpretada pela maravilhosa Jeniffer Lawrence (Jogos Vorazes), acordando e indo à procura de seu marido (Javier Bardem), que mal aparece e já adiciona à trama um ar de estranheza e desconfiança. O tempo vai passando e descobrimos que ela é nada mais nada menos que uma dona-de-casa cuja ocupação principal é reconstruir cada cômodo da casa que divide com seu marido a fim de transformá-la num paraíso, já que o casal passa todo o tempo nela; e ele, um poeta que está enfrentando uma espécie de bloqueio criativo.

O ar de estranheza e desconfiança que o marido traz consigo ao aparecer pela primeira vez começa a crescer gradualmente quando ele abre a porta de sua casa para um estranho, permitindo, inclusive, que este passe a noite lá. A coisa toda parece começar a degringolar depois desse acontecimento, e quando ninguém mais ninguém menos que a esposa do estranho chega à casa como nova hospede quase nada mais faz muito sentido, principalmente para a mulher, que, confusa e agoniada, transmite essa confusão e agonia ao expectador, afinal, vemos tudo do ponto de vista dela.

Nesse sentido, deve ser parabenizado o trabalho com as câmeras, que são basicamente três: uma posicionada na cara da protagonista, outra olhando por trás dos ombros e uma terceira que pode ser representada pelos próprios olhos dela. Aproveitando o ensejo das avaliações técnicas, também merece elogio o trabalho sonoro do filme. Sem uma grandiosa trilha sonora, podemos ouvir com clareza os sons da casa: portas que abrem e fecham, passos no piso e nas escadas de madeira, etc.

Câmera posicionada por sobre o ombro da protagonista.

E a atuação do elenco, por sua vez, não fica para trás. O filme é carregado nas costas pela Jeniffer Lawrence, que, com sua linguagem facial, corporal e o tom da voz, consegue nos passar a imagem de uma mulher um tanto inocente, um tanto pura e extremamente desconfortável e irritada com tudo o que está acontecendo dentro da casa com a qual ela parece ter uma forte conexão. Javier Bardem, por sua vez, cumpre com o seu objetivo de interpretar linearmente um homem misterioso e frio, e o mesmo pode ser dito de Ed Harris, que incorpora o primeiro homem estranho a chegar à casa. Outra atriz que merece muitos elogios pela atuação no filme é a Michelle Pfeiffer, que interpreta a esposa do estranho. O incômodo que o seu esposo causa na personagem de JLaw não é nada perto do que essa mulher provocadora e enxerida faz em seus diálogos com a protagonista.

Perturbador e desconfortante ao extremo, o filme consegue a proeza de despertar no expectador o desejo de que ele acabe logo e com tudo muito bem resolvido e esclarecido, de preferência.

Mas, em vez disso, ele vai sendo desenvolvido e plantando em nós dúvidas e mais dúvidas. Até certo ponto, a nossa interação com o filme se resume a acompanhar o que está sendo exposto na tela sabendo que há muitos caroços de baixo desse angu, mas sem saber a proporção desse caroço. Só começamos a ter noção disso nas cenas finais, quando algumas pistas vão sendo dadas de forma um pouco mais explícita, mas mesmo assim mergulhadas em simbolismos, metáforas e alegorias.

Mesmo assim, parar e pensar com calma sobre Mãe! é mais do que necessário. Nada fácil de digerir, ele é o tipo de filme que te impulsiona a conversar com outras pessoas que o assistiram para que os mais diversos sentidos sejam produzidos. Não há dúvidas de que Aronofsky colocou na tela algumas situações micro para tratar de algo macro, e isso fica mais evidente ainda quando observamos que os nomes das personagens são: homem, mãe, ele, mulher. Há, certamente, algo por trás disso.

No pôster do filme, a Jeniffer Lawrence está entregando o coração a algo ou alguém. E na vida real, quem está entregando o coração ao Aronofsky a partir de hoje sou eu, que até então só o conhecia por Cisne Negro, outra obra prima.

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Henrique é graduado em Letras, professor de Português e futuro jornalista que faz pesquisa sobre metáfora. Escreve sobre e é apaixonado por cinema, literatura, música e afins. Publica reviews de filme mensalmente | Para segui-lo no Instagram: @henrickcarlos

3 Comments

  1. Tô muito ansioso pra ver esse filme mas já começo a achar que o diretor se preocupou mais em criar polêmica do que em contar uma história sensacional, como ele fez em Cisne Negro. Tô meio duvidoso, mas adorei a crítica de vcs.

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