CONSCIÊNCIA COLETIVA

A violenta saída do armário em “Virgil”

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Escrita por Steve Orlando, Virgil é uma graphic novel que conta a história de um policial Jamaicano gay vivendo no armário em uma sociedade bastante preconceituosa.  Virgil mantém seu namorado e amigos afastados de todos, principalmente pelo fato de ser policial e conviver com homens extremamente homofóbicos e machistas. Até que um dia ele dá um vacilo e seu parceiro de trabalho descobre que ele tem um namorado. Seus colegas de trabalho invadem sua casa, matam seus amigos e sequestram o seu namorado. A partir de então se inicia uma jornada sangrenta por vingança, Virgil certamente não perdoará ninguém.

Atualmente a hq é distribuída por uma das principais editoras norte-americanas, a Image Comics, famosa por publicar muitos trabalhos autorais e ir na contra-mão do mainstrean, ainda dominado pelos super-heróis. Originalmente Virgil foi um projeto lançado por Orlando no Kikstarter em 2013. Na descrição do projeto o autor explica as inspirações e motivações para sua nova empreitada, e vale lembrar que tudo isso ocorreu antes de seu atual sucesso na DC comics, onde trabalha com Supergirl e Liga da Justiça da América.

Então eu vi Django Livre, que me deixou impressionado com seu ataque direto contra o racismo, mas com fome para enfrentar crimes contra a comunidade LGBTQ. Como o Django era uma revolta contra a exploração dos negros, este [Virgil] seria contra a exploração da comunidade LGBTQ. Com a violência anti-gay na Jamaica em grande parte desconhecida, eu sabia onde estabelecer meu livro – um lugar comumente considerado como um paraíso de férias, com uma ferida inexplorada.

Steve Orlando tem uma forma ousada e corajosa de abordar a homossexualidiade nos quadrinhos. Também escritor de Midnighter, entre 2015 e 2016 (que não chegou ao Brasil apesar do anúncio da Panini), ele consegue retratar com honestidade, e sem medo, cenas de amor e sexo entre homens. Um tema difícil e mal abordado nas comics americanas, que geralmente estão nas mãos de escritores heterossexuais.

Steve Orlando, por sinal, conseguiu um espaço importante no universo dos super-heróis ao entrar para a DC comics, com um personagem popular que foi criado para mimetizar o Batman num relacionamento homoafetivo com Apolo, a versão do Superman na extinta série Authorithy, criada por Warren Ellis.

Uma crítica que tenho sobre o trabalho de Steve Orlando é que ele normalmente recorre ao estereótipo do gay mais masculinizado. Isso torna fácil a adesão dos leitores mais resistentes à diversidade sexual e também deixa a leitura mais confortável para esses leitores. A verdade é que tanto em Midnighter, como aqui em Virgil, o autor consegue marcar pontos por trazer a temática gay, atingindo um público ainda tão recalcitrante e conservador. Um passo importante, mas ainda curto, dados alguns problemas com os estereótipos que acabam limitando a representatividade.

As motivações de um gay vivendo no armário, deixando em segundo plano suas relações mais importantes, são muito bem retratadas. É complicado acusar o homem que, por viver em um ambiente tão ameaçador, decide levar uma vida falsa, de aparências tão danosas para ele e para os que vivem ao seu redor. Virgil está cercado por homens violentos, dentro de uma sociedade que agride gays. Ele frequenta bordéis e se sente na necessidade de mostrar o tempo todo o quanto é “homem” se submetendo aos rituais e aos comportamentos impostos pelo seu ambiente cotidiano.

Mas esse armário é seguro? Por acaso Virgil, seus amigos e namorado estão salvos dentro desse sufocante disfarce ? No final das contas ele é exposto, perseguido, espancando e perde todos aqueles que verdadeiramente amou. Depois desse golpe não resta outra opções a não ser assumir quem realmente é. Triste perceber que a saída do armário acontece em função de uma violência tão brutal. Fico com a impressão que, talvez, parece muito mais difícil para Virgil se assumir agora do que teria sido em outra ocasião.

Essa coragem por sinal não pode ser excluída dos planos do personagem, que pretendia fugir para o Canadá com seu namorado, e finalmente levar uma vida livre, ser quem realmente gostaria de ser. Virgil foi expelido de sua zona de conforto para uma situação tão violenta quanto era viver dentro dela.  A verdade é que Orlando recorre aos clichês e a violência para apresentar uma história palpável, ele consegue deixar novas camadas que podem ser exploradas por quem realmente consegue desenvolver alguma empatia pelos personagens centrais.

Talvez por ter sido um trabalho em sua concepção independente e livre de intervenções editorias, observamos sequências de sexo do casal gay, desenhados por J. D. Faith com bastante sensibilidade e realismo, sem medo de incomodar os leitores mais puritanos, trazendo mais naturalidade ao ambiente retratado. Os leitores gays vão se sentir – de alguma forma- confortáveis com a abordagem.

Em Virgil é muito bacana ver o homem negro gay dando uma lição nos agressores que acabaram com a sua vida. É um roteiro simples que evoca uma violência superficial para criar uma discussão cuidadosa sobre preconceito e respeito. Lembra de fato um filme como Django Livre.  E assim como nos filmes de Tarantino, a violência banal e exagerada representa uma fina camada que, quando rompida, nos permite mergulhar dentro de uma discussão rica, que pode ser experimentada também a partir das nossas próprias vivências.

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Professor, editor e fundador do Nerd Subversivo. Escreve sobre quadrinhos. É apaixonado por leitura, animações, design gráfico e hqs. Publica mensalmente no dia 15, save the date| Para segui-lo no Twitter: @lourinaldojr

1 Comment

  1. Tanta coisa bacana sendo publicada e se não fossem sites como esse a gente nem saberia. Parabéns.

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