CONSCIÊNCIA COLETIVA

Entre o individual e o coletivo, caminhos para a autocrítica

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Estávamos conversando, eu e uma amiga, sobre essa coisa difícil que está sendo o período político pelo qual passamos. Eu, cá, relatava uma ida diária à universidade quando fui surpreendido por um palanque, em pleno campus, em que uma moça esbravejava com ajuda de um microfone: “A Ciência é branca! A Ciência é machista! A ciência é patriarcal!”.

Ao que minha amiga retrucou estar convivendo, também em sua universidade, com jovens que pregam o extremo oposto: para eles, racismo, machismo e patriarcalismo não passam de leviandades ideológicas (sic). Sabe-se lá o que esses meninos entendem por leviano e ideologia.

A vida não está fácil pra ninguém. Desde que o país tornou-se este eterno fla-flu, o que importa não é exatamente estar na arquibanda do time campeão, mas ter os melhores argumentos para reclamar ao juiz os lances do time adversário, xingando sua mãe se possível. O importante é estar com a razão. Ainda que o campeonato termine no zero a zero.

Corta.

É lição da História que a Direita conservadora, seja no mundo, seja mais especificamente no Brasil, excluiu pobres, negros e mulheres. Na esteira do processo civilizatório do país, suas vozes, silenciadas, sofreram os mais de quinhentos anos de História e suas suas vidas são marcadas até hoje pelo estigma que as desumaniza. Qualquer livro didático fornece subsídio para esse tipo de constatação ululante.

O que a Esquerda progressista fez para tentar reverter esse quadro? Transformou o país num imenso sindicatão. Supondo que, ao garantir direitos à coletividade, estaria atendendo a necessidade e – mais do que isso – os desejos de todos.

Me lembro de uma conversa com uma professora especial em que ela dizia ter aprendido o que é ser mulher lendo Anna Karenina, do russo Liev Tolstói. Essa aprendizagem pareceria absurda aos olhos de quem defende o princípio do “lugar de fala”.

Como pode uma mulher afirmar que aprendeu a ser mulher lendo um livro escrito por um homem? É. Mas a Literatura tem dessas coisas.

Foi com a Literatura, por exemplo, que aprendi a distinguir a palavra necessidade da outra, desejo. De relance, elas parecem sinônimas, mas não são.

Há coisas na vida que são necessárias. Como moradia, alimentação e liberdade. Há outras que, para além de necessárias, tornam-se desejáveis – como sucesso profissional, estabilidade econômica, realização amorosa e felicidade, sem as quais a vida permaneceria estanque e ordinária.

O desejo é algo pessoal e intransferível, fruto do que há de mais profundo na nossa natureza. São os nossos desejos que nos mobilizam. Por esta razão é que não se brinca com o desejo alheio e muito menos se decide o que o outro vai desejar.

Enquanto homossexual, eu necessito da garantia de direitos civis como a união estável entre pessoas do mesmo sexo e no entanto posso desejar viver solteiro a minha vida toda. Será que também terei este direito?

Sou de formação familiar, social e intelectual de esquerda e por isso mesmo me sinto confortável para fazer uma autocrítica: na tentativa de fazer do Brasil um país menos desigual e injusto, acabamos por distinguir os seres em grupos, ou melhor, em classes – relativizando suas diferenças – e aquelas minorias passaram a ter o direito de existir neste sociedade excludente enquanto classe, e não enquanto indivíduo.

O que nos distingue um dos outros não é propriamente a necessidade da garantia de direitos. Afinal, nem todos desejamos um casamento para nossas vidas (e com isso não quero dizer que nossos direitos não devam ser garantidos). No entanto, aquilo que verdadeiramente nos distingue são as escolhas que fazemos da ordem do desejo.

Somos seres únicos, frutos de experiências coletivas mas sobretudo de aspirações individuais e, por isso, desejamos coisas distintas.

Hoje, graças à Esquerda, poucos são aqueles que no Brasil desejam para suas vidas um pacote de feijão ou um litro de água. Por outro lado, insistir na suplantação de interesses particulares (isto é, negar a existência dos indivíduos dentro de uma coletividade) para simplesmente garantir a subsistência de direitos universais nos obrigará permanentemente à letargia do mesmo estado de indigência.

E mais uma vez recorro à Literatura: nela, descobri o homem que é capaz de amar, sofrer, titubear, encorajar-se e desmoronar, lutar, sonhar, acertar, errar… O homem despido de qualquer rótulo e generalização, fruto dos seus desejos e utopias, ou aquilo que chamamos de idiossincrasia. E esse homem é, antes de tudo, humano. Há nele algo infinitamente superior ao estigma que marginaliza e mais profundo do que a massificação que nos limita.

Se continuarmos a reeditar cinco séculos de escravismo e exclusão perdendo de vista a grandeza da nossa humanidade, perpetuaremos à exaustão a lógica pela qual sofremos por quinhentos anos, numa partida (ou melhor) numa luta infindável em que não haverá vencedores.

Ao contrário, se, no largo da História, compreendermos que somos seres únicos e, por isso, distintos, garantiremos as necessidades coletivas e, sobretudo, respeitaremos os desejos individuais. E aí, despidos de rótulos e preconceitos, passaremos finalmente a nos reconhecer uns nos outros, diante da grandeza de tudo que é belo e diferente.

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2 Comments

  1. Gabriel concordo em partes, acho que na tentativa de não ser reducionista, vc acaba sendo. Apesar das questões individuais serem tão importantes quanto os da coletividade, acho que essas coisas devem ser vistas por prismas diferentes, temos que ter cuidado e não cair num relativismo total onde tudo pode e tudo é aceito, é uma linha de raciocínio perigosa essa que você propõe.

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