CONSCIÊNCIA COLETIVA

Questões do tempo e esse agosto que não passa

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Chega Agosto e não sobram reclamações o para o mês que, como os outros, só estar disposto a transcorrer seu tempo neste tempo de ligeirezas e efemeridades. É verdade que ele chega no fimzinho das férias e nos pega desprevenidos de saia e shorts curtos obrigando a vida à sua labuta diária, nós que só estávamos buscando um pouco de sol e calor em meio ao inverno e à chuva.

“O tempo não para”. Estão lembrados da música de Cazuza? (E olha que naquela época nem havia internet e mensagens instantâneas). No entanto agosto passa tão devagar que às vezes temos a impressão de que o relógio está tirando com a cara da gente e anda fazendo vista grossa pro ponteiro dos segundos que se decidiu escorregadio e preguiçoso. Mas o tempo está passando, em seu ritmo natural de sempre.

O fato é que não aceitamos outro ritmo para nossas vidas que não seja o frenético e o vertiginoso, e quando achamos que o tempo atrasou uma ou duas filigranas do seu compasso, nos descobrimos demorados e ociosos tendo de descer alguns degraus da euforia comum do nosso dia a dia.

E agora?
O que fazer quando o tempo anda devagar?

Se o tempo anda devagar certamente sobrará mais tempo para simplesmente gastar o tempo.

Experimente então se imaginar numa ilha deserta, diante da imensidão do mar, algo difícil para você essencialmente urbano e habituado à agitação das grandes cidades, não custa tentar. Lá, o tempo passa da mesma forma que costuma passar por aqui: o Sol nasce, se põe e morre no ciclo das 24 horas como em qualquer outro lugar. Acontece que lá, sem neuras e ansiedades, você arranjará tempo para simplesmente reparar as sutilezas do tempo.

É engraçado como, antes mesmo dos 30, achamos que estamos satisfeitos de tanto já ter comido o tempo: vivemos o amor e outras drogas, aliás, nos drogamos de muitas drogas. Sofremos fins de relacionamentos, fugimos de responsabilidades, cometemos ciladas, erramos, acertamos, fazemos escolhas (algumas certas e outras erradas), nos arrependemos e, quando o tempo nos obriga a ir com calma, nos queixamos que estamos sem tempo.

Que tal, ao invés disso, comermos o tempo permitindo-se degustar o seu sabor? Você vai começar a reparar nas olheiras cavando-se fundas nos olhos, suas dívidas acumulando, os prazos se esgotando, a idade chegando… Mas também vai perceber seus projetos dando certo e, mais do que isso, o porquê de eles estarem dando certo. Vai notar que o melhor a ter sido feito foi realmente ter se livrado daquele relacionamento abusivo e começar a retribuir os gestos daquela pessoa que te sorri diferente nos corredores da faculdade. Vai perceber que a balança está do seu lado quando se começa uma dieta regrada. E aquela imagem que você vê no espelho não será mais o reflexo de um ser distante e desconhecido.

Rapidez e celeridade tornaram-se os predicativos de uma vida produtiva e eficiente na qual vencemos quem chega primeiro. No entanto a maturidade é um troféu dado não necessariamente aos que cruzam a linha de chegada. E a verdade é que o tempo passa bem devagar. Nós, famintos e ansiosos, é que o devoramos numa só garfada. E acabamos por envelhecer em pouco tempo: ranzinzas, imaturos, vencedores sem troféus.

Agosto, no entanto, nos pede pra ir devagarinho, fazendo hora, dando um tempo… E aí dirão que você vem até remoçando.

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