CONSCIÊNCIA COLETIVA

Incrítica Live – Milton Nascimento : Semente da Terra

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Que Milton Nascimento é um dos artistas mais consagrados da música popular brasileira não é novidade para ninguém. Autor de uma série de hits que embalaram (e embalam) até hoje as nossas vidas, ele foge do lugar comum que muitos artistas do seu calibre, os quais tenho a ética de não citar nomes, insistem em repetir. Não que as velhas fórmulas não tenham eficácia alguma e que devam ser de todo descartadas; mas o que se percebe é uma reiteração de arranjos, ritmos, identidade visual e até mesmo de maneirismos no palco que não surpreendem nada o público e que colocam em produção industrial a arte, que em sua essência, é eivada de singularidade.

É certo que o público desses artistas de “velha guarda” vão aos seus espetáculos esperando  ver aquela canção de 10, 20 ou até mesmo 50 anos atrás da forma que a conhecem, além de irem a estes shows na expectativa de prestigiarem o artista com a imagem, comportamento e presença que correspondam aos seus ideários. No entanto, o que critico aqui não é a repetição dos velhos paradigmas musicais desses cantores, pois isso os fez consolidarem suas carreiras, mas sim a sensação de interpretarem o mesmo show há anos, sem ter a mínima preocupação em produzir arte de verdade, reduzindo-o seus espetáculos a uma linha de produção.

Milton não fugiria de fato a essa regra, pois do alto dos seus 50 anos de carreira seria totalmente improvável que ele não interpretasse grandes sucessos, como “Maria Maria”, “Caçador de Mim” e “Clube da Esquina”, pois é isto que o público, no geral, espera ver em um show dele. Todavia, ele acerta em não cair no lugar comum: ele interpreta os velhos sucessos em uma nova roupagem, em um espetáculo que apresenta de uma forma inovadora sem se desligar da sua essência de artista e dos hits que construíram a sua grandiosa carreira.

Neste ínterim, é surpreendente a forma como o cantor explora visualmente e ritmicamente as músicas apresentadas no show “Semente da Terra” que, em essência, é um espetáculo de cunho autobiográfico e com conotações sociais e políticas. Iniciando com a majestosa “Travessia”, o artista abre mão do protagonismo esperado para dar destaque aos outros artistas componentes de sua banda, inserindo o público no contexto artístico apresentado, possuindo um cenário repleto de recursos visuais que são revelados em momentos acertados no decorrer do concerto. No final da música, o artista entra no palco, exercendo o protagonismo junto com os outros músicos. É bastante incrível a sua postura pois apesar de ser o artista principal e um grande mestre da música popular brasileira, ele se insere como um elemento que compõe o todo, não assumindo pra si como o único componente ali digno de atenções.

O espetáculo segue com as canções “Credo”, “A Terceira Margem do Rio” e “O Cio da Terra” em que cada música há uma foto em destaque no cenário, e iluminação destacando a atmosfera de cada uma. “Milagre dos Peixes”, “Coração de Estudante”, “San Vicente” e “Sal da terra” são outras canções interpretadas de forma espetacular e em especial “Nos Bailes da Vida” em que o cantor dedica as amizades que fez durante a sua vida, como Chico Buarque, Fernando Brant e Elis Regina. Destaca também em uma das falas durante o show, seu carinho pelo mestre Naná Vasconcelos, um dos que ele dedica o seu show. Em “A Lua Girou”, Milton convida o público a formar um coral e cantar juntamente com ele, fato que se repetiu em “Maria Maria”, ocasião em que todos se levantaram e formaram uma só voz.

A visceralidade de Milton no alto dos seus quase 75 anos é incrível e é fascinante assistir o show e presenciar um gênio da música em ação, produzindo sua arte de forma tão singular e impecável de sempre, revelando, a cada instante do espetáculo, a técnica, presença de palco e talento que o fazem ser a sumidade musical viva que representa para a música brasileira.

Desta feita, depois de tantos anos, Milton Nascimento surpreende e produz arte da forma que sempre a concebeu, como algo vivo, que se transforma o tempo inteiro, permeada de singularidade. Ele transcende os velhos padrões e demonstra  o artista consciente e satisfeito com o seu papel , ultrapassando a concepção de arte como fruto da cadeia de produção, sem repetir a mesma fórmula com o único objetivo de ganhar dinheiro. Em tempo, destaco que é perfeitamente normal que o artista produza sua arte e objetive o lucro, mas é bastante desconfortável para o público quando há a padronização da obra artística, reduzindo-a a um mero produto sem nenhum elemento de subjetividade e visceralidade. Nesse aspecto, Milton continua demonstrando o grande mestre da música que ele é, exercendo a sua arte de forma ímpar, agraciando o seu público de forma primorosa com seus grandes sucessos.

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