CONSCIÊNCIA COLETIVA

Dica de Leitura: Solaris, um retrato da imperfeição humana por Stanislaw Lem

em Estrangeira/Leitura por

O polonês Stanislaw Lem é um daqueles autores que transformaram a ficção científica num dos gêneros mais complexos e instigantes da literatura. Sua temática sempre recorreu ao desconhecido como forma de potencializar a imperfeição humana. Criou linguagens dificílimas de traduzir para outros idiomas, desenvolvendo teorias fictícias ricas em detalhes e dignas de prêmios acadêmicos pela coerência. Grande crítico da ficção científica norte americana, de onde salvava apenas Philip K. Dick, com grande justiça, Stanislaw tinha autoridade através de sua obra para defender esse ponto de vista. Segundo o autor, os escritores americanos usavam o gênero como meio de criar aventuras rasas, forma pela qual ainda acredito que muitos potenciais leitores enxergam essa vertente.

Assim como grandes autores a exemplo do próprio Philip Dick e Ursula Leguim, Stanislaw Lem construiu suas realidades futuristas e distópicas para tratar de temas importantes da existência humana. Em Solaris, solidão, consciência e natureza do ser são temas presentes em uma história com elementos de suspense e romance misturados a um ambiente ficcional muito convincente.

Solaris é o nome do planeta que há décadas vem movimentando a comunidade científica. Sua superfície é coberta por um vasto oceano que, aos poucos os estudiosos identificam como uma forma de vida. Kris Kelvin, o protagonista da história, chega a Solaris com a finalidade de realizar seus estudos em campo. Ao chegar na estação ele encontra seus colegas apresentando comportamentos estranhos e aos poucos o próprio Kris sofrerá do mesmo mal.

Uma característica importante do livro, comum à muitos do gênero, é a construção detalhada e cuidadosa da história de Solaris contada pelo ponto de vista dos terráqueos através da bibliografia produzida ao longo da história desde sua descoberta. Lem cria em alguns capítulos uma descrição minuciosa de todo o histórico de teorias, tratados e estudiosos que em diversas áreas do conhecimento desenvolveram o que se sabe até o momento da narrativa a repeito de Solaris. Ele cria, assim, algo muito próximo, através da voz do protagonista, de uma espécie de revisão bibliográfica sobre Solaris. Isso nos aproxima, como leitores, dos fatos e especulações sobre o estranho habitante do planeta distante, transformando-nos em estudantes do tema e nos deixando mais à vontade com o ambiente da história.

Durante toda a leitura tive uma enorme sensação de solidão, devido principalmente aos poucos personagens e aos dilemas vividos por Kelvin.

Os primeiros capítulos passam uma sensação mais aterrorizante, são exatamente aqueles que descrevem a chegada do personagem ao centro de pesquisas. Além da estranheza do novo lugar percebi também o medo e a solidão do personagem. Aos poucos a história caminha para uma situação mais intrigante, e ao meu ver deixando de lado esse clima inicial de suspense.

É importante lembrar que Kris é psicólogo, e diferentemente do que se costuma esperar do sci-fi tradicional, física e robótica darão lugar aqui a um drama psicológico bastante surpreendente. É interessante notar como o autor consegue transmitir a sequência de falhas humanas em entender o oceano vivo como uma forma limitadora de nossa espécie nos colocando como seres impotentes e que diante dessa impotência acabamos perdendo, em casos extremos, a razão.

Os cientistas como pessoas acostumadas a exercer um controle sobre a natureza, vivendo confortavelmente dentro de seus modelos, que lhes permitem desenvolver e superar suas teorias, aqui são colocados em xeque diante de um ser que desafia todo esse sistema. A partir de Solaris esses estudiosos passam exibir um comportamento desesperado, fruto de sua incapacidade de aceitar a própria limitação. Solaris representa uma barreira que impõe aos humanos o limite de sua superioridade tão frágil.

Um dos grandes mistérios desse planeta é sua capacidade de recriar memórias e materializar lembranças daqueles que o habitam na estação. Kelvin terá que lidar com a lembrança de alguém do passado que de repente aparecerá em sua vida novamente, fruto dos poderes desse misterioso oceano vivo. Nessa parte do livro chegamos ao recorrente questionamento do que nos torna quem nós somos: o corpo é necessário para nos definir, ou a consciência é suficiente? Não é à toa que o protagonista é um psicólogo e terá que enfrentar um dos maiores desafios de sua vida ao se deparar com uma difícil questão ligada à consciência humana.

Facebook Comments

Professor, editor e fundador do Nerd Subversivo. Escreve sobre quadrinhos. É apaixonado por leitura, animações, design gráfico e hqs. Publica mensalmente no dia 15, save the date| Para segui-lo no Twitter: @lourinaldojr

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Último post de Estrangeira

Ir para o Topo
Pular para a barra de ferramentas