CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que achamos: Annabelle 2

em Cinema/O que achamos por

Review

Nota de Henrique
8.5/10
Média
8.5/10

Não posso dizer que fiquei imediatamente instigado ao saber da notícia de um segundo filme sobre Annabelle, haja vista a decepção que tive com o primeiro, o qual dirigido, produzido e escrito respectivamente por John R. Leonetti, James Wan e Gary Dauberman, veio a nós em 2014 como um spin-off de Invocação do Mal (2013). Todavia, ao assistir os trailers que a Warner Bros. Pictures Brasil liberou em seu canal do YouTube, o jogo virou e a curiosidade para assistir Annabelle 2: A Criação do Mal (2017) foi inevitável. Também porque quem assina a direção dele é David F. Sandberg, o mesmo diretor de Quando as luzes se apagam (2016), que conseguiu me agradar.

Do mesmo universo de Invocação do Mal, Annabelle 2: A Criação do Mal (2017) não tem como proposta dar continuidade à história do primeiro, mas sim, como sugere o subtítulo, retornar ao passado para explicar o surgimento da boneca e como ela se tornou um objeto possuído por uma entidade maligna. Criação do Sr. Mullins (Anthony LaPaglia), que é artesão de bonecas, Annabelle permaneceu muito bem guardada até o dia em que o senhor e a senhora Mullins (Miranta Otto) abriram as portas de sua casa para abrigar uma freira, a Irmã Charlotte (Stephanie Sigman), e seis meninas desalojadas de um orfanato. Mais especificamente quando Janice (Talitha Bateman), uma dessas órfãs, encontra a boneca, o que dá início a uma série de eventos sobrenaturais orquestrados por uma presença estranha que habita a casa.

A existência de uma casa como ambiente central da trama é um dos grandes clichés em filmes de terror sobrenatural, e, como se deve ter notado, Annabelle 2: A Criação do Mal não escapa disso. No entanto, o filme, a meu ver, consegue preencher essa fôrma cliché com algo novo ao inserir dentro de uma grande casa uma freira e seis meninas desalojadas de um orfanato para conviver com um casal que, inclusive, está órfão de filha (Bee – Samara Lee) há doze anos por causa de um trágico acidente de carro.

O tão famoso jogo entre a religião, o catolicismo, e alguns de seus símbolos e costumes (a Bíblia, o padre, a freira, a ida à igreja, as cruzes, as orações antes de comer e de dormir, a confissão dos pecados, o pagamento de penitências) e as forças sobrenaturais também é algo que faz parte de Annabelle 2, o que é bastante coerente. Afinal, as órfãs são educadas à base de valores religiosos pela Irmã Charlotte, sem contar a presença do mesmo recurso no primeiro Annabelle e em Invocação do Mal 1 e 2.

Em relação à atuação, todo o elenco está de parabéns. Mas, em se tratando do mesmo assunto, o ponto alto do filme se concentra nas seis meninas – duas adolescentes, duas pré-adolescentes e duas crianças -, que dentro e fora da casa são feitas de gato e sapato pela entidade maligna, conquistando muito rapidamente a empatia e o envolvimento dos telespectadores, principalmente pela forma como o longa-metragem é filmado, que nos deixa aparentemente mais próximos das personagens. Das atuações, as que não podem passar despercebidas de jeito nenhum são a de Janice (Talitha Bateman), que lida com problemas de locomoção por causa de uma poliomielite, e a de Linda (Lulu Wilson), que, inclusive, são inseparáveis e nutrem uma amizade/irmandade muito linda de se ver.

Não há nada de muito inovador no medo que Annabelle 2 objetiva causar no espectador, os sustos são bastante previsíveis, principalmente para alguém como eu, que tem o costume de ver filmes de terror há um bom tempo. Mas isso não quer dizer que estamos imunes aos momentos de tensão e de arrepios nos pelos da pele. Se houver envolvimento com a trama, é possível a experimentação de um misto disso e daquilo a partir da metade do filme em diante, quando uma sequência de cenas assustadoras toma conta da tela.

Também deve ser reconhecido o bom trabalho da equipe de design de produção. Há muita qualidade na maquiagem, nos figurinos e, principalmente, nos cenários, que são muito bem desenvolvidos. É notória a grande preocupação com a casa dos Mullins, sobretudo com o antigo quarto da Bee (que pode ser visitado nesse vídeo de realidade virtual:

O abrir e fechar de portas, as luzes piscando, as bonecas de porcelana e os bonecos de marionete, um espantalho e até um poço são alguns dos elementos, já conhecidos pelo público, presente no filme. Tudo isso remetendo muito mais aos filmes de Invocação do Mal do que ao Annabelle anterior. Nesse sentido, há também uma rápida referência ao próximo spin-off da franquia, o filme A Freira (2018), com a clara intenção de aguçar a curiosidade do público.

Em suma, Annabelle 2: A Criação do Mal está longe de ser um filme inovador e criativo. Mais um produto da franquia de filmes de terror sobrenatural iniciada com Invocação do Mal (2013), o filme consiste em uma série de lugares-comuns que fazem referência tanto a produções anteriores quanto a produções futuras, como se a ele também fosse incumbido o dever de manter viva a chama que foi acesa em 2013. Após o lançamento, certamente haverá quem ache e quem não ache isso um problema. Eu, por exemplo, me situo na fronteira entre esses dois grupos e pendendo mais para o segundo. Não posso negar que faria muito gosto se o longa tivesse conseguido planejar e executar algumas pitadas de criatividade e inovação. Mas ao mesmo tempo não posso deixar de reconhecer que houve êxito no que os idealizadores do filme se propuseram a fazer.

É tudo muito convencional e aparentemente pertencente a algo que parece uma marca, um selo, mas não se pode negar que funciona muito bem. Importante por sim frisar que nenhuma ponta fica solta, até a conexão com o primeiro Annabelle, esquecido por conta da sua inerente inferioridade em relação ao segundo, é feita exatamente nas cenas finais, plantando na cabeça de todos a ideia de dever cumprido.

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Henrique é graduado em Letras, professor de Português e futuro jornalista que faz pesquisa sobre metáfora. Escreve sobre e é apaixonado por cinema, literatura, música e afins. Publica reviews de filme mensalmente | Para segui-lo no Instagram: @henrickcarlos

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