CONSCIÊNCIA COLETIVA

A arte do bom gosto e a constante rejeição ao diferente

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Essa semana um amigo me enviou uma lista com os seus 10 filmes preferidos. A ideia era transformá-la em um grande post e publicar aqui mesmo em seguida. Pedi que ele escrevesse rapidamente uma pequena sinopse ou um comentário breve sobre a relevância de cada filme, na intenção de que os futuros leitores pudessem captar qual a relação que ele tem com a lista e como ela foi pensada.

Foi nesse momento que tudo começou a desandar.

O rapaz disse que não queria falar sobre os filmes, que a lista tinha qualidade e que aqueles não eram apenas filmes, mas obras de arte. Tentando manter a minha já escassa paciência, perguntei como ele passou a gostar daquele tipo de cinema, ou seja, quais os fatores que contribuíram para ele assistir um filme como A Noite, de Michelangelo Antonioni e gostar tanto a ponto de colocá-lo na posição 5 desse top 10.

A resposta não poderia ser mais soberba. Transcrevo aqui :

Essa é uma pergunta que não precisa de resposta, como você não viu o filme, terá dificuldade e possivelmente não entenderá. Por isso que essa lista é importante, fará você e muitos outros irem atrás dessas pérolas cinematográficas. 

Falo soberba primeiro pela falta de disposição e segundo pelo fato dele presumir equivocadamente que eu não tivesse visto o filme.

Perguntei se aqui era a don’t touch it’s art ball tour…

…mentira,

Questionei essa pressuposição buscando compreender o que o levou a acreditar que eu não conhecia esse filme, já que não tínhamos debatido sobre ele especificamente.  A resposta foi no mínimo curiosa, disse em bom tom que acompanhava os meus posts no Facebook e que esse não parecia o tipo de filme que eu assistiria.

Todo esse caso me levou a pensar ainda mais sobre como as redes sociais contribuem para a pré definição dos sujeitos. Parece que elas são capazes de revelar todas as nossas camadas, tudo aquilo que somos e valorizamos. A construção das identidades virtuais, um fenômeno importantíssimo, revela muitas das nossas peculiaridades, mas ainda assim ela é incompleta e está bastante contaminada por uma infinidade de mascaramentos.

Nem preciso dizer que essa ditadura do bom gosto vem se manifestando de muitas formas e isso é um reflexo total da nossa incapacidade crônica de aceitar o que é diferente. Claro que preservar os nossos próprios muros, as rejeições que no decorrer da vida vamos fazendo é um direito,  mas temos que pensar sobre os contextos que permitiram a adesão dessa proposta estética e não daquela. Quando você pensar nisso (com a mente aberta) vai perceber que existiram inúmeros gatilhos e influências que hoje justificam os valores e as escolhas que inevitavelmente vamos reproduzir, incluindo o Michelangelo Antonioni.

Todo o conceito que você adota para definir aquilo que gosta está permeado por lutas, sejam elas de classe, ideológicas ou geográficas, e nem é preciso teorizar muito para perceber. O melhor a fazer é evitar esse viéis egocêntrico e nunca categorizar ou nutrir uma visão condicionada sobre as pessoas. Somos muito mais do que uma lista de bons filmes, acredito.

Repito sem medo: ninguém é obrigado a viver o estilo de vida e as escolhas do outro, mesmo que de alguma forma a gente acabe fazendo isso.

Interessante seria se começássemos a rever os canais de troca e contaminação cultural ainda tão permeados por grandes instituições e influenciados pelo nosso preconceito.

Para isso é preciso ter paciência, estabelecer um contato mais horizontalizado com as pessoas, entendendo as limitações dos nossos processos e os avanços do outro.

Por fim, é importante lembrar que alguns anos atrás, quando o governo tentou firmar o programa Vale-Cultura, foram essas mesmas pessoas, todas imersas na sua “cultura de qualidade”, que publicaram trechos como : temos que levar Nina Simone e Chico Buarque para o povo, com esses 50 reais eles vão consumir apenas blockbusters, livros de auto-ajuda e shows de funk. A pergunta é:  será que essas pessoas desejam mesmo levar (de forma não impositiva) Nina Simone e Chico Buarque para a periferia? Afinal, essa é a face da moeda que as diferenciam, a face que cria o abismo entre o que eles consideram ou não arte e que reafirma o elevado patamar cultural que elas fingem ter vergonha de ocupar, mas que adoram reforçar na primeira oportunidade.

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Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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