CONSCIÊNCIA COLETIVA

Daddy Issues e a Necessária Desmistificação do Ídolo

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Quem não lembra do velho clichê tão presente em histórias de mulheres na mídia ocidental das últimas décadas: garota que não consegue ficar com ninguém por muito tempo apresenta daddy issues – aqueles velhos problemas de relacionamento com o pai. E essa cultura bem característica traz junto com ela uma misoginia que não tem tamanho, visto que, por essa percepção, apenas as mulheres possuem esses percalços no relacionamento com aquele que é sua primeira referência masculina no mundo – mas será que isso é mesmo verdade?

Bem, não acredito que seja – e especialistas da psicologia também não. Todos nós tivemos nossa família como base inicial de relacionamentos no mundo; então, muito do que concebemos como maneiras de se relacionar com outrxs é bastante ligado a como esse primeiro momento de interação humana se deu. Temos dois pilares, o masculino (pai) e o feminino (mãe), e cada um deles foi/é responsável por uma parte da nossa maneira de levar nossas relações interpessoais em qualquer esfera da nossa vida.

Então, voltando aos daddy issues, todos nós temos eles, e é importante parar pra refletir um pouco: será que nos damos conta de que levamos pela vida toda esses modelos de interação social? Será que conseguimos compreender que, na realidade, endeusamos e idealizamos nossos pais, fazendo deles um modelo a ser seguido, e a partir daí tentamos assumir uma identidade parecida, buscando sempre a sua aprovação?

É importante perceber como a gente lida com essas imagens que temos dos nossos pais, e como nos relacionamos com elas.

Toda imagem que temos de alguém é apenas aquilo que “queremos” ver, e não necessariamente toda a verdade daquela pessoa. Por isso, a partir do momento que endeusamos nossos pais, colocamos apenas as imagens que fizemos deles num pedestal. E, caso não sejam aquilo que nossas expectativas esperavam que fossem, deixamos de considera-los dignos desse endeusamento, e isso pode ser extremamente danoso.

Se pararmos pra refletir um pouco, percebemos que às vezes repetimos esse processo em uma série de relações que temos por toda a nossa vida: artistas, parentes, amigos(as), irmã(o)s, namorados(as) são todos idealizados, a depender de como realizamos esses convívios. E aí, quando alguém faz algo que não esperávamos – geralmente de forma negativa aos nossos olhos -, nos decepcionamos. Acabamos vendo que a imagem que criamos não era a única verdade – e esquecemos que são, todos, humanos.


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A idealização de quem quer que seja torna bastante difícil a nossa convivência nesse planeta. Talvez seja hora de começarmos a nos perguntar se vale realmente a pena colocar alguém num patamar mais alto que nós mesmos; a partir do momento que endeusamos os outros também idealizamos a nós mesmos, e por isso acabamos também nos julgando como tal – consequentemente, conflitos internos e externos acontecem, já que a vida em perfeição não existe.

Tentemos, portanto, nos humanizar – humanizar também os artistas que gostamos, os nossos amigos, o nosso trabalho, e tudo aquilo que achamos ser intocável. Mas, pra que isso aconteça, acho que o primeiro passo é humanizar aquelas pessoas que foram o primeiro referencial de “como viver” nesse mundo, os pais. Lembrar que essas pessoas são nada mais além de seres que possuem características boas e ruins, retirando-os de um local de perfeição onde nós os colocamos, ajuda a nossa percepção de que temos também qualidades e “defeitos”. O conceito de empatia precisa, definitivamente, sair do centro teórico e passar pra prática – e acredito que, começando pelo nosso início, esse processo possa ser mais eficaz. Resolvendo nossos daddy issues, começamos uma jornada longa pelo auto entendimento, acima de tudo.

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Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears – hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

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