CONSCIÊNCIA COLETIVA

Johnny Hooker lança “Coração” no melhor do estilo de quem canta e sofre o amor

em Música/Nossa Avaliação por

Review

Nota de Gabriel
10/10
Média
10.0/10

Difícil querer classificar Johnny Hooker numa categoria musical. Desde que deu início à sua carreira, ele tem transitado por diversos gêneros: cumbia, frevo, brega, pop… O rock do Candeias Rock City, sua primeira banda como vocalista, ou do Geleia Do Rock, reality show do qual foi participante em 2010 no Multishow, era pouco para um artista essencialmente movido pela emoção da sua entrega ao amor, livre de estilos e escolas.

É o amor que mobiliza a produção artística de Johnny, como já declarou em uma de suas entrevistas: “Eu acredito na arte que vem do incômodo, das profundezas do sofrimento”. Dessa vez, não poderia ser diferente. Em “Coração”, seu mais novo álbum produzido pela Natura Musical, é o sentimento que dá o tom e costura uma narrativa de 11 faixas que passeiam pelo samba, axé, soul, black, rock e tecnobrega.

No “Coração” de Hooker tudo é intenso. A começar pelos versos da primeira faixa que introduz o disco. Um aboio embalado pela ressaca da maré diz a que o artista veio: “Na vida um grande amor perdi/ Um grande amor fui confiado/Sete vezes eu morri/ Sete vezes eu renasço”. E ele vem “Firme e forte feito um touro”, em “Touro”, faixa subsequente, em ritmo frenético de batida forte.

Esse é o mote da trajetória do amante que se propõe a cantar e sofrer o amor.

“Página virada” chama atenção pelo o arranjo sofisticado de violinos e letra de alta densidade dramática “Meu bandido de orgulho ferido”/ “Violou o mais sagrado em mim”. E embora a melodia seja um tanto desencontrada com a força de versos tão fortes, talvez seja essa a faixa de maior voltagem sentimental, além de “Poeira de estrelas”, uma homenagem a David Bowie, uma das fontes de inspiração do artista.

O Recife, outra fonte de inspiração, não aparece com tanta intensidade como no seu último disco, o “Macumba”, a não ser pela verve de “Escandalizar”, marchinha de carnaval que encerra o albúm. Dessa vez o Recife dos bares da Rua da Aurora e dos boysinhos que cortam cabelo dá lugar à geografia dos morros bahianos, seja pela sonoridade de “Coração de manteiga de garrafa” ou “Caetano Veloso”, em ritmo de axé e atabaques do Ijexá. O refrão é um daqueles chicletinhos que grudam na cabeça. “Eu nunca fui à Bahia/ Eu nunca fui a Salvador”. Assim como Hooker, alguns de nós também não fomos à Bahia e, apesar disso, através da poesia de Caetano nos seja possível tocar na imensidão da terra sagrada.

Mas o “Coração de Manteiga de Garrafa” de Johnny também é divertido e explosivo. Em “Corpo fechado”, parceria com Gaby Amaranthus, mais assistimos a uma conversa entre dois amigos que se dizem vacinados contra o maldizer de ex-amores. “Se depender do seu ódio /Eu não morro mais”. O verso aparentemente grave assume tons alegres com a sonoridade do tecnobrega, e a voz bem paraense de Gabi com seus ritmos de influências afrocaribenhas parece combinar com a de Hooker. E eles debocham: “Chora, chora, chora não/ Diz que vai embora não”.

Capa oficial do single

No entanto a parceira mais aguardada pelo público era com a cantora Liniker. “Flutua” foi lançada em single uma semana antes do álbum completo e apresentada estrategicamente em número musical no horário nobre da Rede Globo no Programa “Conversa Com Bial”. Foi um verdadeiro viral nas redes sociais. E a parceira é realmente de arrepiar: a voz negra de Liniker imprime à canção um black R&B bem Roberta Flack, enquanto os falsetes de Hooker no refrão exploram outras nuances da sua voz tão marcada pelos gritos rasgados de outros sucessos.

O amor, aqui, já não é mais “um caso imoral” – não para o casal -, embora continue marginalizado. “O que vão dizer de nós/ Seus pais, Deus e coisas tais”. A faixa, que já é um hit, ganha contornos políticos ao dar voz àqueles que lutam pelo direito de “Amar sem temer”, como se diz em um dos versos.

Em “Crise de Carência”, apresentada ao grande público no finzinho da turnê do “Macumba”, há mais pegada negra, agora sob certa influência de Tim Maia, sob o arranjo de sopros e versos bem dor de cotovelo. “Meu amor não vá embora por favor/Que a vida já me ensinou que vale mais a resistência”.

Johnny também passeia pelo samba. Em “Eu não sou um lixo”, o artista brinca com os versos do adágio popular “De que adianta ser lindo por fora/ E vazio por dentro”, embalado pelo arranjo mais brasileiro do samba-canção. O coração aqui sofre pelo amor que o deixa para brincar o carnaval e, afinal, tudo parece acabar em carnaval mesmo. “Escandalizar” encerra o álbum com mais uma homenagem ao mestre Caetano, o da coletânea “Muitos carnavais”.

O sofrimento é exorcizado num sábado de Zé Pereira sem deixar de “Colocar o dedo na ferida” (verso da canção) só para lembrar que amor, assim, a gente não esquece.

“Olha eu aqui de novo”, anuncia Johnny no primeiro verso de “Touro”. Nós sabemos que você está aqui de novo, novo e sempre, Johnny. Mais uma vez entregue ao amor, despido de rótulos, bem acompanhado, experimentando ritmos através de uma emissão mais versátil.

A arte da capa, assinada pelo cantor Felipe Catto, traz o artista de peito nu em mar aberto com um coração de lata. Que ironia. “Coração” pulsa em carne viva, a sangue quente de veias por dentro: melancólico, explosivo, popular, divertido, político, carente e debochado. E em menos de uma semana do seu lançamento já é um sucesso.

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