CONSCIÊNCIA COLETIVA

Por que só damos valor às coisas na possibilidade da perda?

em Comportamento/Opinião por

Era uma vez um casal nem tão mais apaixonado assim. Até que chega o dia em que uma das pessoas decide ir embora sem mais nem menos, ou coberta de razões. Não importa.

Ela partiu.

Ela partiu e com ela vazia ficou a cama. É bom ter uma cama só sua, esparramar pra um lado e pro outro, o ar condicionado na temperatura que lhe é mais agradável, sem aquele barulho do ronco que te acordava na madrugada e os travesseiros todos à disposição.

No segundo dia se vai a dieta regrada de zero carboidrato, folhas e laticínios no almoço, sopinha pro jantar. É hora daquela cerveja gelada no meio da semana pra compensar o stress e poder assistir à série sem ter que barganhar à qual se assiste primeiro.

No final de semana, farrinha boa com amigos, sem hora pra chegar, sem ter que dar satisfações, dormir sem ter de tomar banho. Na segunda semana se foi o primeiro bom dia – com gosto de café, seguido de um: “Tenha um bom trabalho!”. À noite, “como foi o seu dia?”.

Na terceira semana vem o primeiro silêncio. O barulhinho do silêncio gritando ensurdecedor no seu ouvido e a toalha jogada no sofá continua lá, mofando o estofado.

No primeiro mês se foram as primeiras discussões que acabavam na cama, as palavras trocadas antes de ir dormir, a disputa pelo controle remoto, a mão sobre as suas mãos ou coxas entre coxas, apaziguadas.

Ao final do primeiro mês se vão as risadas e ficam as lágrimas. Ao final do primeiro mês você acha que já se passou muito mais tempo. E passou mesmo. No calendário dos sentimentos em que as datam não datam você sabe que não vai conseguir reagir aos medicamentos do tempo.

E o que fica é a falta, que é diferente de saudade. Saudade é invencionice de poeta brasileiro que não teve o que fazer e criou a danada da palavra. Falta é a tradução literal de “I miss you”. Saudade dá e passa, tem gente que diz ter saudade até daquilo que não viveu, já a falta vai consumindo a gente por dentro.

Por que costumamos dar valor às pessoas só quando sentimos a sua falta? Talvez porque fomos educados para um conceito de pra sempre em que tudo ao nosso redor parece-nos não ter prazo de validade. É difícil a constatação e mais dolorosa é a sua obviedade: mãe e pai têm prazo de validade. Amores também.

O pra sempre nós dá a falsa ilusão de posse. Nos apoiamos na razão de que tudo que é nosso não tem prazo de validade justamente por ser nosso. O que é meu não se tira. E por ser meu eu não preciso preservar, dar atenção, zelar, salvaguardar, essas coisas que a gente faz com as coisas que são dos outros.

Saudade dá e passa, tem gente que diz ter saudade até daquilo que não viveu.

E daí, mais uma vez, compensamos a nossa intransigência com o álibi do pra sempre. O pra sempre sempre foi a nossa desculpa, pois sempre houve a certeza de que aquele ente jamais, jamais desaparecia das nossas vidas.

Mas às vezes ele desaparece. Por contingência do destino, por acaso da sorte, por “morte ou coisa parecida”, ele desaparece. E vem a constatação: nada é pra sempre.

Não tem mais desculpa, não tem mais álibi. Não tem mais nada. Aliás, temos a falta, esta ingrata, esta mal agradecida que nos atormenta o juízo passando na cara o tamanho da nossa intransigência, da nossa má vontade, nos lembrando das vezes em que nos omitimos, em que não comparecemos, quando fugimos da responsabilidade de amar, o quanto somos mesquinhos e vacilões, o quanto, afinal, não damos valor a quem a gente ama.

O ideal seria que pudéssemos amar quem amamos sem prazo de validade. Isto é, sem o alerta do sinalzinho vermelho piscando internamente para lembrar que devemos dar valor às pessoas que amamos porque todas elas têm prazo de validade. Pois o alerta do sinalizador nos faz amar com pressa e medo e amor com pressa e medo não é amor, é paixão.

O amor, no fundo, no fundo, sabe, com calma, que as pessoas têm prazo de validade, sabe bem que o material do qual fomos feitos é bem diferente da eternidade. Sabe também que a vida é breve e inconstante e que somos todos seres solitários no mundo e nem por isso aquilo que verdadeiramente nos une deve ser encarado como sinônimo de posse.

Que possamos dar valor a quem a gente ama sem precisar sentir os sintomas da falta, porque amor na ausência não é amor, é culpa. Que o pra sempre não seja nossa desculpa, que o medo não nos impeça de amar e que a pressa não cegue a nossa visão para as sutilezas do amor, que hora ou outra, mais cedo ou mais tarde, sem mais nem menos, ou coberto de razão, sempre, sempre acaba.

Arte do post faz parte do projeto We Lost The Sea, do artista Matt Harvey.

Último post de Comportamento

Ir para o Topo
Pular para a barra de ferramentas