CONSCIÊNCIA COLETIVA

Você também tem a famosa dificuldade de dizer não?

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Não costumo temer e nem negar as minhas invejas, e aqui vai uma delas: tenho profunda inveja daquelas pessoas que conseguem dizer não, de cara, de primeira. Aquela gente que expressa um não como única e verdadeira resposta ao que lhe foi solicitado. Não é exatamente aquele não à demanda do trabalho que vai tomar tempo do final de semana, nem o não à esmola pro pedinte de rua.

É o não que (não) se dá à vendedora de suvenir que te para só pra apresentar o seu produto, mesmo sabendo que não vai te convencer a comprá-lo. Você escuta, faz cara de interesse e no final responde num risinho de constrangimento: Volto aqui outro dia… ou… Me passa o teu cartão… Qual teu nome mesmo?

Há pessoas que, diferente de nós aqui, responderiam satisfeitos à moça: “Não tenho interesse” e não perderiam tempo atrasando seus compromissos.

Por que esse não é tão caro?

Medo de parecer deselegante e mal educado?

E é aí que entra o talvez. Com medo da deselegância e da indiscrição, costumamos soltar um talvez para maquiar a nossa negativa.

O talvez se usa geralmente para negar o convite a um segundo encontro. “Talvez – você diz – a gente se encontre no próximo final de semana”. Um talvez aqui e acolá e, sem nos darmos conta, soamos ainda mais deselegantes e indiscretos.

O talvez é o não-cagão do pau mole… Sonso, mentiroso, dissimulado, que tem medo de dizer não.

Por que não dizer não?

Clarice inicia ‘A Hora da Estrela’ com a frase: “Tudo na vida começou com um sim, um partícula disse sim à outra e começou a vida.”

Gosto da frase mas não a subscrevo. Na vida em geral, resultamos muito mais das frustrações de sucessivos nãos do que dos frutos de generosos sins. É o não, que se dá e que se recebe, que alimenta o natural caminhar da vida.

Se você não tivesse levado um pé na bunda daquele primeiro amorzinho juvenil, jamais teria, anos mais tarde, encontrado o grande amor da sua vida. Se você tivesse dito inúmeros sins ao seu antigo chefe e se submetido a propostas de emprego promíscuas, hoje provavelmente não estaria ocupando o cargo dos sonhos.

Um mundo repleto de sins seria alegre e de faz de conta. Já imaginou você dizendo sim ao segundo encontro e se submetendo mais uma vez àquela cênica de casalzinho interessado no que o outro tem a dizer?

O não nos põe em movimento, nos fornece escolhas e, por isso, por vezes, é bem mais democrático que o sim.

Donas de casa, por exemplo, para agradar seus filhos e maridos pedem pizza na janta de todos os domingos. Elas se nutrem da vontade da sua família embora reprimam a sua fome por frutos do mar.

A abnegação é uma virtude – é verdade – no entanto a liberdade é um direito. E o não às vezes pode ser libertador. Como toda liberdade, ele exige um certo tipo de exercício.

Aquele não tantas vezes ensaiado, mais ainda reprimido e escravizado pode, com certa dose de autoafirmação,
alforriar o mais sincero e profundo dos nossos desejos: de hoje em diante eu não quero mais jantar pizza.

Arte do post: Ben

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