CONSCIÊNCIA COLETIVA

“Flutua” de Johnny Hooker e o grito pelo desejo de amar sem amarras

em Música/Nossa Avaliação por

Review

Nota de Ítalo
10/10
Média
10.0/10

Na última terça-feira, no Programa do Bial exibido na Rede Globo, o cantor Johnny Hooker lançou sua mais nova música: “Flutua”. Com uma pegada de blues rasgada na irreverência da voz do artista recifense, Hooker emociona o público ao traduzir nos seus versos questões existenciais humanas.

A música inicia com um pouco da insegurança da qual vivem os gays ao expressarem suas subjetividades perante a opinião de terceiros e vai lentamente caminhando para um viés de empoderamento, de ruptura com o armário e o mergulho no mundo da liberdade. Os sentimentos presentes da primeira estrofe são substituídos por um grito ávido pelo desejo de amar sem amarras, cortes ou limitações. É uma transação sonora emocionante e inspiradora.

Em tempos em que nosso país vivencia retrocessos diários na seara dos Direitos Humanos e, especialmente com ataques aos direitos da população LGBT, Johnny entoa nos seus versos que nenhuma luta será em vão e que a vitória há de vir. Remete até à icônica frase de Eduardo Galeano quando afirma que a utopia serve para “que eu não deixe de caminhar.” Contextualizando, a vitória iminente jamais nos fará interromper nossas lutas.

É com o amor e com a liberdade que iremos colher nossas flores e poder flutuar numa sociedade com respeito entre as pessoas. O refrão transpassa a plenitude de quem vive uma grande história de amor. Literalmente, o refrão faz flutuar e remeter ao que há de melhor dentro de nós.

Flutua é um marco. Apresenta um artista amadurecido, crava na melodia o sentimento militante dos que lutam por igualdade e amacia os corações que comportam todas as formas de amor – sem distinção. Poucos artistas se mostraram tão antenados à efervescência política identitária e social do nosso país. Afirmar que “somos dois homens e nada mais” demonstra coragem, ousadia e traz à tona o papel do artista como representante das vozes muitas vezes silenciadas ante ao preconceito e à opressão.

É com o amor e com a liberdade que iremos colher nossas flores e poder flutuar numa sociedade com respeito entre as pessoas.

Contudo, o melhor da canção é a universalidade dos seus versos. Hooker consegue transgredir e traduzir não apenas existencialismo dos homens gays, mas hasteia a bandeira da resistência, da liberdade e do amor de uma geração que nada tem a temer na busca da sua felicidade e da garantia dos seus direitos. Flutuem!

A versão estúdio possivelmente será um dueto com Liniker.

Flutua – Johnny Hooker (Letra)

O que vão dizer de nós

Seu pais, Deus e coisas tais

Quando virem rumores

Do nosso amor

Baby eu já cansei de me esconder

De olhares, sussurros com você

Somos dois homens

E nada mais

Eles não vão vencer

Nada a dizer em vão

Antes dessa noite acabar

Dance comigo a nossa canção

E flutua

Flutua

Ninguém vai poder  querer nos dizer como amar

E conversas soltas pelo chão

Teu corpo teso, duro, são

E o teu cheiro que ainda ficou na minha mão

O novo tempo há de vencer

Pra que a gente possa florescer

E baby amar, amar sem temer

Eles não vão vencer

Nada a dizer em vão

Antes dessa noite acabar

Baby escute, é a nossa canção

E flutua Flutua

Ninguém vai poder

Querer nos dizer como amar

Como amar

Como amar…

Ítalo é advogado, especialista em Direito do Trabalho e Agente Legislativo. Escreve sobre política e sobre problematizações de cunho social. É apaixonado por debates políticos e enxerga a arte como mecanismo de expressão social de segmentos sociais vulnerabilizados. Publica mensalmente dia 3, save the date | Para segui-lo no Twitter: @Italo_Lopes

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