CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que achamos: Ao Cair da Noite

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Review

Nota de Luíza Martins
8/10
Média
8.0/10

Ao Cair da Noite, novo filme da produtora A24, a mesma do vencedor do Oscar, Moonlight, estreia no próximo dia 22 no Brasil e nós do Anallógicxs fomos conferir e trazer alguns comentários pra você!

O filme começa nos apresentando o cenário no qual a narrativa irá se desenvolver. No meio da mata vemos uma casa na qual vive uma família com quatro membros. Pai, mãe, avô e filho adolescente compartilham naquele momento uma espécie de ritual de despedida no qual vemos a partida de um deles. Bastante fragilizados caminham até a mata e encerram o ritual queimando o corpo. Tudo faz parte da tentativa de fazer com que a misteriosa doença que tomou conta de cidades próximas dali não se propague faça mais vítimas.

Nas cenas seguintes nos é apresentada a rotina daquela família. Seus hábitos, na maioria diurnos, as atividades domésticas e pequenos diálogos nos quais fica clara a hierarquia e ordem existente ali. O pai, líder da família, é auxiliado pela mãe, a qual traz em si as características clássicas e esteriotipadas da maternidade: submissa, companheira, silenciosa e complacente. Ela é a assistente do pai que busca prover para sua família e manter a ordem garantindo a sobrevivência da sua família a qualquer custo. Seriam a chamada “classe média branca” não fosse o fato de que são um casal mestiço, ele branco e ela negra – o que, a meu ver, agrega mais valor simbólico à ideia de submissão da personagem feminina em cena. Mas isto é um outro ponto, são muitas leituras possíveis das representações propostas. E esta foi a minha. O filho ocupa seu lugar de jovem frágil e instável emocionalmente que é preparado para substituir a liderança da família em momento oportuno.

Pôster Oficial

A casa é  grande, tem janelas e entradas fechadas por tapumes de madeira exceto pela porta vermelha, única entrada e saída dali. Todas as atividades são realizadas durante o dia, antes do cair da noite. Dentro da casa as atividades estão distribuídas de maneira que todos se ocupem e sejam mantidos pelo maior tempo possível. A epidemia que tomou conta das cidades próximas fez muitas vítimas (ao que nos parece) e todos vivem com poucos mantimentos. Esta ordem familiar só é interrompida com o surgimento de um outro Pai que invade a casa. Com a chegada de outra família ao contexto de Paul (Joel Edgerton), as regras são apresentadas e os novos participantes passam a compor a dinâmica e ordem social já posta.

Com o decorrer do filme somos capazes de ver os personagens e suas características individuais e de grupo sendo apresentadas. Ambos tentam se readaptar a nova realidade. Por um lado Paul busca manter seu lugar de liderança, por outro Will (Christopher Abbott) busca se mostrar apto a ser aceito ali. Os demais personagens, esposas e filhos, interagem de maneira orgânica sem muita tensão entre eles. Em ambos os casos, a tensão e suspeitas são sempre postas pelas figuras masculinas. A máxima que os guia é a de que “Você faria o mesmo pela sua família”, assim sendo, todas as atitudes e escolhas são legitimadas quando feitas em prol dos seus. Neste sentido instaura-se a desconfiança e, além do medo da doença e dos doentes, surge o medo do outro, da desconfiança. A nova família é quem diz ser? Eles estão mesmo livres da doença ou carregam consigo o mal que pode matá-los?

Em diversos momentos não somos capazes de distinguir o que é real, o que é sonho ou paranoia dos personagens.  O elenco atua com bastante equilíbrio e sintonia, não vemos em cena ninguém que se sobressaia aos demais. Não existem sequências de ação, mas pequenos momentos nos quais somos tomados pelas desconfianças dos personagens. Os efeitos sonoros e visuais contribuem bastante para a narrativa e agregam mais valor à proposta de suspense em cena. A palavra que define o filme, para mim, é equilíbrio. O filme cumpre bem com aquilo a que se propôs.

Trailer Oficial

Luíza é graduada em Letras pela UFPE, estudante de Direito na UNINASSAU. Escreve sobre a vida cotidiana e as relações interpessoais, e de vez em quando sobre cinema. É curiosa e adora observar as pessoas, seus discursos e suas práticas. Publica mensalmente no dia 12, save the date | Para segui-la no Instagram: @madluiza

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