CONSCIÊNCIA COLETIVA

De Cláudia Wonder até os dias atuais, uma breve conversa sobre resistência

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Recentemente vi o documentário Meu amigo Cláudia (2009),  que resume a história de Cláudia Wonder, travesti que marcou a cena cultural paulistana dos anos 1980, e fiquei em êxtase com aquela cena cultural tão cheia de força, com aquela vontade transgressora de mudar, um tal de rasgar o mundo sem pedir licença. Fico pensando onde foi que erramos, por que as coisas estão como estão, como fomos capazes de enjaular aquele espírito feroz que se alimentava exclusivamente de liberdade.

Sempre que vejo filmes que retratam a década de 80 tenho a impressão de que as pessoas pareciam ter acordado de um pesadelo e, para chegar no sonho possível, era preciso ser, estar,  antes de tudo colorir. Para além da aquarela, era preciso iluminar, criar uma chuva de glitter, vestir o mundo todo de punk e neon. Qualquer arte era uma arte possível, até os intelectuais estavam curvados ao poder da noite, vivendo paixões platônicas pelas botas cano alto de Cláudia. As pessoas famosas nas pracinhas, um rolê em cada esquina. A única regra era ultrapassar barreiras, criadas e impostas.

A imunidade que conquistamos é como uma vacina de uma única dose, daquelas que não podem ser expurgadas.

Então veio a AIDS e com ela o medo, a dúvida, as inúmeras despedidas indesejadas e uma nova onda de ódio. Não demorou para que  novos mecanismos de aprisionamento entrassem em ação, muralhas estavam novamente postas e o grito de repente virou um grande nó, daqueles que atravessam a garganta e silenciam.  Foi preciso tempo, amadurecimento e muita luta para que pudéssemos fortalecer os espíritos abatidos, conhecendo e controlando o vírus, triturando a saudade inevitável.

Agora, quando finalmente o mundo tenta criar novas pinturas, quando o fôlego se faz possível e  as nossas cores começam a ganhar espaço, na mídia, nas telas e nas vidas, o ódio ganha nova roupagem. Crescem os discursos dos machos, as vozes da verdade ninadas em berço em forma de pedestal. Agora eles até parecem organizados, propagam as piores manchetes, elegem seus próprios mitos e continuam no poder  vitimando todos os dias as pessoas que amamos.

O plano maléfico está em ação, mas dessa vez as justificativas não cabem, não são possíveis. A imunidade que conquistamos é como uma vacina de uma única dose, daquelas que não podem ser expurgadas. Continuem de pé, esbravejem, mas estejam prontos para enfrentar a enorme caravana, o trator guiado por gente capaz de reverter preconceito em amor, por gente que não desiste. É tempo de permanência e fortalecimento, não existe escuridão para quem sempre desejou os reflexos multifacetados da luz. O mundo só é mundo quando se veste de tudo e de todos, é tempo de se montar, de ser e respirar livremente. E se a voz de Cláudia Wonder parece esquecida, largada no tempo, aqui estamos para aumentar o volume:

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Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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