CONSCIÊNCIA COLETIVA

Uma escolha, várias renúncias

em Comportamento/Opinião por

 “Todo mundo precisa de um aquário”. Assim conclui o psicólogo Barry Schwartz no TEDGlobal 2005, em que tratava sobre o que ele mesmo definiu como “O Paradoxo da Escolha”. Schwartz, que estuda as relações entre psicologia e economia, explica que, ao contrário do que pensamos, ter uma infinidade de opções não é necessariamente uma coisa boa. De acordo com o professor da Swarthmore College, esse excesso de liberdade nas escolhas traz duas consequências: paralisia e menos satisfação. Como solução, a ideia de um “aquário metafórico” que nos restringe, limita as nossas possibilidades, levaria a uma redução da ansiedade, do tempo, do esforço e da probabilidade de um futuro arrependimento. Consequentemente acarretaria em uma diminuição das nossas expectativas e o aumento da satisfação.

 Essa teoria apresentada por Barry Schwartz rendeu, além de muitas palestras, um livro intitulado “The Paradoxo of Choice – Why More is Less” (O Paradoxo da Escolha – Por que mais é menos). Durante muitos anos a teoria foi bem aceita entre acadêmicos até ser bastante questionada pelo seu conceito generalizante que busca abarcar o âmbito social e comercial e por não impor limites à abrangência da tese em determinados contextos. Alguns experimentos que foram usados para comprovar essa teoria não tiveram os mesmos resultados quando reproduzidos nos anos seguintes, trazendo à tona uma nova discussão acerca do tema.

Com a febre das redes sociais as relações se tornaram mais complexas e muito do que ocorre na web interfere não apenas nas nossas escolhas como também no resultado das nossas decisões.

É bem verdade que somos obrigados a apontar nossas preferências a todo o momento. Desde que acordamos temos que tomar decisões. Seja o que vestir, o que comer no café da manhã, que tarefas cumprir primeiro, bem como decisões mais intricadas como uma mudança de emprego, um relacionamento, etc. E apesar dos argumentos de Schwarz não serem aplicados a todas as situações como se propunha, podemos identificar certas características apontadas por ele no nosso processo de tomada de decisões cotidianas como a paralisia, a insatisfação com a decisão, a insegurança, etc. 

No entanto, hodiernamente há muito mais para analisar do que à época dos estudos propostos. Com a febre das redes sociais as relações se tornaram mais complexas e muito do que ocorre na web interfere não apenas nas nossas escolhas como também no resultado das nossas decisões. A verdade é que somos totalmente influenciados por esse fluxo imenso de informações e esse “estilo de vida” que nos são apresentados online.

Um fenômeno que acomete a sociedade atual é aquela vontade de fazer tudo ao mesmo tempo, aproveitar ao máximo e viver todas as opções possíveis. Um problema grave que ganha força, e que também pode ser relacionado às ideias de Schwartz, é o chamado FoMO (Fear of Missing Out). Dan Herman, especializado em comportamento do consumidor e marketing, foi o primeiro a observar detalhadamente esse fenômeno sociocultural que, basicamente, se define pelo medo de estar perdendo algo, deixando de fazer algo mais importante, “interessante”.

Imagine que você, após um dia exaustivo no trabalho, decide que voltando pra casa vai pedir uma pizza, terminar de ler aquele livro maravilhoso que está louco pra saber o desfecho e assistir aquela série que você acompanha. Em meio a todas as escolhas possíveis de bares, festas e eventos de um final de semana você optou pela alternativa que parecia mais gostosa e relaxante naquele momento. Porém, durante aquela pausa na leitura daquele livro super empolgante, você verifica as redes sociais e se depara com dezenas de fotos de amigos se divertindo. Alguns estavam em uma festa, outro em uma exposição, um terceiro na Europa. Diante deste cenário, a maioria das pessoas estabelecem uma relação que os economistas chamam de custo de oportunidade, onde o valor da sua escolha é determinado pela comparação com as outras alternativas. Resultado: a sua noite foi arruinada porque naquele segundo você percebeu que ao invés de estar em casa de pijama poderia estar tomando uns drinks com amigos ou até mesmo ter viajado para algum lugar. Aquela decisão que parecia tão acertada já não se mostrou tão prazerosa.

E é assim que as redes sociais vêm interferindo cada vez mais no nosso comportamento e levando a uma constante insatisfação com as nossas escolhas.  Principalmente quando temos como base para comparação a vida perfeita que as pessoas mostram ter nas redes, o que pode gerar ansiedade e aquele sentimento de inadequação.

Essa complexidade da sociedade moderna engloba, inclusive, os temas amorosos. Os aplicativos de relacionamentos trouxeram uma pluralidade nas escolhas e uma consequente superficialidade nas relações. Quantos aplicativos de relacionamentos você conhece? Suponho que vários. E todos eles fazem o maior sucesso, contando com milhares de perfis cadastrados. São várias as opções e mesmo quem está disposto a encarar uma relação estável em longo prazo não tem tamanha facilidade como se espera do aplicativo.

Deste modo, as nossas escolhas e principalmente as nossas renúncias nos afetam psicologicamente. A uns mais do que outros, certamente. É como alertou o escritor Fernando Sabino: “O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove”. E assim seguimos… 

Everly é formada em Letras, estudante de Direito e atua em área relacionada ao Direito do Consumidor. Escreve, principalmente, textos de opinião sobre os mais variados temas e é apaixonada por viagens. Publica mensalmente dia 30, save the date Para segui-la no instagram: @everlynascimento.

Último post de Comportamento

Ir para o Topo
Pular para a barra de ferramentas