CONSCIÊNCIA COLETIVA

Fãs de “RuPaul’s Drag Race” e a heteronormatividade compulsória

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Como parte da comunidade LGBTQ, estamos sempre em desvantagem quando se fala de aceitação perante a sociedade. Existe sempre um estigma que somos errados perante uma grande parcela das pessoas com quem convivemos diariamente, afinal, deus criou adão e eva, não adão e ivo. E assim vamos vivendo, tentando lutar contra uma heteronormatividade homofóbica que nos persegue a cada passo que damos, e a cada opinião que expressamos.

Essa luta é contínua e ininterrupta; apesar de termos um espaço maior do que anteriormente dentro da mídia e até mesmo no que tange as nossas opiniões, ainda damos de cara com pessoas contra a homoafetividade tomando conta de alguns lugares públicos e expressando-se totalmente contra aquilo que somos e que queremos ser, inclusive com violência – por isso é ainda um tanto difícil expressar nossas opiniões e vontades em ambientes públicos, e acabamos nos sentindo mais confortáveis e seguros em grupos com pessoas que possuem opiniões parecidas com as nossas.

Esse conforto dado por um ambiente sadio e livre de julgamentos perante nossa sexualidade acaba dando vazão a uma liberdade de opiniões e falas não somente em relação ao nossos amigos, colegas, conhecidos, mas também no que se trata do que gostamos: nossas diferentes formas de entretenimento. Dentro do mundo gay, mais especificamente, temos gostos peculiares sobre programas de TV, filmes e música – e esses gostos são sempre muito protegidos por nós, como se fizessem parte da nossa personalidade. Sendo assim, argumentos e discussões sobre eles acabam sendo argumentos e discussões pessoais, como se, ao falar de meu cantor favorito ou uma drag queen que eu gosto, você estivesse falando sobre mim.

Então, quando isso acontece, acabamos trazendo um lado nosso que nos deixa muito próximos daquilo contra o que tentamos lutar o tempo inteiro: a heteronormatividade. Recentemente, pudemos observar um exemplo claro disso quando uma drag queen muito querida pelos fãs do programa RuPaul’s Drag Race foi eliminada da competição por ter falhado em realizar um dos requisitos que a RuPaul coloca em seu programa: dublar uma música. Então, Valentina, uma promissora drag queen que tinha muitas chances de chegar à final, acabou tendo sua participação no programa finalizada. E isso fez com que a comunidade de fãs da drag queen se voltasse contra a dona do programa, postando mensagens de ódio inclusive em sua conta pessoal do Instagram.

Esse é um exemplo recente, mas não único. Em fóruns sobre música pop, cinema ou televisão, o que mais se percebe é uma extrema falta de respeito para com a opinião alheia, seguida por uma lista de xingamentos contra o/a artista e/ou contra o/a fã. Isso acontece quando, por exemplo, uma determinada cantora lança uma música que não faz sucesso; pessoas contra aquela cantora vão falar mal dela e dos seus fãs porque seus fãs falaram mal da(s) cantora(s) favorita(s) deles. E isso se torna uma bola de neve que não parece ter fim, e realmente não tem.

Ora, precisamos mesmo de um referencial heteronormativo padrão para que possamos pautar a maneira com a qual torcemos ou gostamos de algo?

Estes dois exemplos são pequenas demonstrações do quão influenciados pela heteronormatividade nós, da comunidade LGBTQ, somos. Afinal, fomos criados nela e por ela. Somos frutos e sofremos por causa dela; nada mais comum. O que não pode ser comum é que ela se torne corriqueira, porque se lutamos contra ela perante pessoas heteronormativas, não deveríamos praticar essa heteronormatividade entre nós.

Valentina no dia da eliminação

A ideia de que devemos ser melhores que os outros, seja em relação a gosto musical, gosto por filmes, gosto por drag queens e outras coisas pode ser comparada ao tipo detorcida que existe em relação a times de futebol, especialmente entre homens heterossexuais. Num post de um portal famoso, isso inclusive foi colocado – de maneira orgulhosa; “RuPaul’s Drag Race é o nosso futebol”. A pergunta que fica é: deveria ser? Por que?

Ora, precisamos mesmo de um referencial heteronormativo padrão para que possamos pautar a maneira com a qual torcemos ou gostamos de algo? É realmente necessário trazer uma competição a tudo relacionado ao entretenimento? Temos mesmo que considerar gostos e preferências relacionadas a música, filmes ou TV algo tão pessoal que chega a nos ferir? É importante pararmos pra pensar em que tipo de mensagem se quer passar com isso, porque usar o argumento paixão para denegrir ou ferir alguém, seja esta pessoa famosa ou não, já não cola mais.

Taylor e Katy, uma rivalidade midiática apoiada por parte do público sem muita criticidade.

Antes de ser passionais, somos racionais e precisamos viver em sociedade. Na sociedade onde vivemos, já existem inúmeras formas de sermos rechaçados – no nosso caso, mais especificamente, a sexualidade torna-se um tabu e um rótulo que carregamos o tempo inteiro. Não há necessidade de imitar pessoas e comportamentos tão prejudiciais e pejorativos; sabemos como eles podem ferir e magoar, porque convivemos com isso no nosso dia a dia. Ao invés de levar isso adiante, principalmente no que se refere a diversão, que tal parar pra ouvir e respeitar x outrx? O exercício vale a pena.

Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears - hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

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