CONSCIÊNCIA COLETIVA

Apropriação cultural nossa de cada dia: Mallu Magalhães e o clipe de “Você Não Presta”

em Comportamento/Música/Nossa Avaliação/Opinião por

Fato 1.

Em 4 de fevereiro de 2017, a jovem branca Thauane Cordeiro relatou, no seu perfil do Facebook, que havia sido repreendida por um grupo de jovens negras por estar usando turbante. Segundo as garotas negras, Thauane não deveria usar turbante por ser branca, configurando isso como apropriação cultural, mas a jovem branca retrucou dizendo que poderia usar o que ela quisesse e o motivo de usar o adereço era devido a um câncer que a deixou careca – causado pelo quimioterapia. O relato é encerrado com a hashtag #VaiTerBrancaDeTurbanteSim, revelando uma imposição sem caminho para o diálogo.

A postagem de Thauana viralizou e ganhou empatia e solidariedade das pessoas, foi compartilhada por milhares de usuários do Facebook gerando uma calorosa discussão acerca da apropriação cultural. Surgiram questionamentos do tipo: brancos não podem mais usar turbante?, levando o já minimizado debate para uma dimensão exclusivamente individual.

Fato 2.

Em 24 de abril de 2017, a jovem negra Dandara Tonantzin Castro, representante do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial e diretora da União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais (UEE-MG), foi agredida fisicamente e verbalmente por um grupo de homens brancos durante uma festa de formatura do curso de Engenharia Civil da Universidade Federal de Uberlândia – UFU por estar usando um turbante. Dandara teve seu turbante arrancado da cabeça por um estudante branco, que após pisotear o adereço, chamou mais colegas para fazer o mesmo e assim quando a agredida foi recuperar o seu turbante do chão, jogaram cerveja em sua cabeça.

O relato de Dandara foi postado no Facebook, mas não recebeu a empatia e viralização tal qual o da jovem branca Thauane. O racismo sofrido por Dandara não parece ser importante para a sociedade, assim como o debate sobre o tema. Quando brancos são “ofendidos” por apropriação cultural o assunto parece ser mais urgente e relevante.

Mallu Magalhães e a apropriação cultural

No período de debates acerca da apropriação cultural, referente ao caso ocorrido com Thauane Cordeiro, nas redes sociais todos emitiam opiniões referente à questão, opiniões pessoais sem nenhum embasamento e/ou estudo a respeito do conceito. Dentre muitas opiniões vazias e reducionistas sobre apropriação cultural, Djamila Ribeiro, pesquisadora na área de Filosofia Política e feminista e  ex-secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, publicou em seu perfil no Facebook um texto sobre os debates a respeito da apropriação cultural, o qual eu destaco um trecho:

“O debate sobre a apropriação cultural não pode ser feito de modo individual, ao meu ver. Estou mais interessada em discutir porque empresas lucram com a cultura negra enquanto a população negra morre. Porque cantoras brancas medíocres enriquecem cantando samba enquanto compositores e cantores negros geniais morrem ou morrerão na pobreza.”

Mas o que isso tem a ver com Mallu Magalhães? Tudo!

Mallu Magalhães surgiu em 2007 no falecido MySpace e logo começou a fazer sucesso na web. A menina começou tocando folk, tocava violão e compunha suas próprias músicas água com pouca açúcar, mas depois de iniciar um relacionamento com Marcelo Camelo, começou a flertar com ritmos musicais mais brasileiros. Assim foi com “Sambinha Bom”, single lançado em 2011, do disco Pitanga.

Depois de um tempo sem lançar disco solo, Mallu Magalhães ressurge essa semana com o single “Você Não Presta”, um samba-pop – não sei se essa nomenclatura existe – bem gostosinho que faz todo mundo querer dançar. A letra da música, bem… sempre deixa a desejar. Mas o que nos interessa aqui é o clipe do single.

Se não bastasse ser uma cantora de samba bem limitada, Mallu Magalhães resolveu fazer um clipe com uma estética cheia de referências da cultura negra do hip-hop e do funk carioca. O clipe é bem dirigido e tem uma bela fotografia –  parece um comercial da Nike, seria um lindo clipe se fosse por exemplo do Dream Team do Passinho, mas não é. No clipe, Mallu mostra toda a sua falta ginga em meio ao monte de dançarinos e dançarinas negras com seus corpos suados dançantes, enquanto a garota branca hipster está lá vestida/comportada e fazendo cara de marrenta. Mallu parece ser a líder daquela gang de negros dançarinos sem camisa besuntados no óleo, a sinhá “amiga” dos escravos, mas todo mundo sabe quem manda.

Não há representatividade da cultura negra quando os negros são figurante e seus corpos estão a serviço da estética branca, há apenas exploração e apelação. Mallu Magalhães nos mostrou o que é apropriação cultural e racismo, espero que tenhamos aprendido e paremos de usá-lo na música pop.

Facebook Comments

João Gusmão é formado em Letras pela UFPE, é professor, corretor e freelancer. Escreve sobre música e comportamento, apreciador de música brasileira e literatura contemporânea. Publica mensalmente no dia 8, save the date | Para segui-lo no Facebook: /joaoagusmao

11 Comments

  1. João estou triste que você tem que ler esses comentários horríveis.

    Enfim é claro que ela pode cantar samba (muito embora cante muito mal) ou fazer o que ela quiser. A questão é que ela só contratou bailarinos negros conectando-os só com a favela e com a dança “afro” enquanto ela celebra a burguesisse dela própria com camisetinha do oscar e roupa de marca. Vamos lá pessoal, claro que ela nunca esteve na favela, jura que vocês tem dúvida disso? E vai lucrar muito fazendo a “favelada”. Enquanto os artistas da favela nunca vão ganhar nada de sua arte. Acho triste vocês não verem que exotização é um preconceito de consequências seríssimas e que permite muito lucro e exclusão social.

    Honestamente sinto que os brancos estão com medo de perder privilégios ou direitos de expressão quando os militantes dos movimentos negros pedem apoio e reflexão. Você branco pobre não vai perder nada reconhecendo que os irmãos tem razão, ao contrário, apenas vai ganhar. Se essas ricas famosas não estivessem sendo racistas e lucrando com isso, estaria todo mundo sambando junto.

    Agora, se você é branco elite, rico dos jardins, aí é bom estudar mesmo, porque luta de classe e tomada de poder acontece na porrada, com você dividindo sua herança quatrocentona do tempo colonial e entendendo que o seu privilégio foi criado com pelo menos 100 anos de escravidão inconstitucional durante o Século XIX, e que infelizmente existem dois lados muito claros difíceis de esquecer.

  2. Para quem vê a Mallu Magalhães como uma pessoa alienada da música e da cultura brasileira, assistam esse curta dela no CANAL BRASIL, cantando Elizeth Cardoso. http://canalbrasil.globo.com/…/canto…/videos/2253964.htm
    Uma surra de interpretação, de apropriação, de voz, de melodia, de conhecimento de arranjos, e de comprometimento com o seu trabalho.
    Julgar uma artista com um texto desses é nocivo ao debate saudável, pois mostra que o autor não leu/viu o suficiente sobre o que se está falando, e mostra uma ótica míope na qual existe uma verdade única sobre as coisas.

  3. Mallu surge na internet cantando folk: Mallu é desafinada.
    Mallu surge em redes nacionais apresentando-se em entrevista: Mallu e retardada.
    Mallu casa-se com um homem mais velho: Mallu é vítima de pedofilia. Como que um cara pedófilo pode se apaixonar por uma idiota como essa?
    Mallu some e ressurge com o album Pitanga: Só pode ser composições de Camelo!!!
    Mallu engorda: Mallu tá gorda!
    Mallu emagrece: tá anorexa!
    Mallu quer reconstruir sua imagem com um clipe: Mallu é racista!
    Mallu é incapaz!
    Mallu poderia ter feito melhor, muito melhor!
    Alguns justificam que todo produto de cultura está submetido a críticas.
    Eu justifico que Mallu há muitos anos é vítima de machismo!
    Mallu incomoda com seu talento!

    • Olá! 🙂 Achei interessante o ponto de vista, mas creio que com muitos julgamentos.

      Eu canto e componho e quando li…

      “Se não bastasse ser uma cantora de samba bem limitada, Mallu Magalhães resolveu fazer um clipe com uma estética cheia de referências da cultura negra do hip-hop e do funk carioca.”

      …vou comentar sobre a parte (uma cantora de samba bem limitada), aprendi que no mundo da música não existe limitações.
      Quem se defini se limita, “eu canto SÓ MÚSICA NEGRA”, “eu CANTO SÓ MÚSICA CLÁSSICA”, eu canto “só”… Uma branca cantar um samba não é apropriação cultural, isso me lembra o fato do preconceito que ocorreu sobre negros cantarem música clássica, oxi eles não podem?! Tipo isso.

      Não faça isso, não crie divisores.
      Uma coisa que é fato, a música tradicional é patrimônio cultural imaterial, uma música que é da sua cultura será expressada bem melhor e com sentimento do que alguém que canta por cantar, mas uma coisa sabemos, estamos nessa vida para aprender, se envolver, adquirir conhecimento … Se acham que a menina é ruim, ok, mas não julguem o tipo de música, pois a música é algo universal e qualquer um pode cantar!

      Falar que alguém é limitado de forma negativa é um julgamento triste, pois a partir dai “você também está criando um preconceito”!

  4. Mas gente? Tem claramente uma dançarina branca entre eles! Ou pra vocês eles são todos negros mesmo? Olha a cor da guria, o cabelo e os traços, é da mesma cor da Mallu! Parem de ser otários.

  5. Na moral, não vi motivos para tantas criticas à musica e à artista. A não ser pela roupagem pop do samba mesmo. Mas dizer que branco não pode fazer samba é negar Noel Rosa, Adoniran entre outros bambas de tez clareada.

    Entendo a diferença de receptividade entre branca com turbante/ preta com turbante, brancos fazendo samba / pretos fazendo samba. Penso que o campo das artes não deve haver determinismo etânico. Mas, é claro que não se pode desrespeitar as ancestralidades e desprezar os verdadeiros herdeiros de manifestações culturais.

  6. Vai ser necessário que o brancos percam o Jazz e Blues para esses “politicamente corretos” perceberem que miscigenação e apropriação cultural são não só consequentes, mas também desejáveis.

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