CONSCIÊNCIA COLETIVA

A provação: um relato sobre imposições e liberdade

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Ser aprovado sempre foi um objetivo importante na minha vida. Acho que foi devido à minha infância – eu era muito mimado pela minha família, por ser filho/neto/sobrinho único. Então, quando ainda era uma criança, eu era aprovado em tudo: era bonitinho, fofinho, inteligente, bem-comportado, e esses atributos me faziam ser muito bem quisto por todas as pessoas mais velhas que estavam ao meu redor. Era impressionante como os adultos gostavam de mim, porque eu fazia tudo que eles diziam. No entanto, em meio àqueles de mesma idade que eu, eu não fazia lá tanto sucesso: era sempre deixado de lado e não me via fazendo parte de nenhum grupo.

Essa cultura de aprovação na infância me fez crescer para desejar sempre ser aprovado. Mas, à medida que eu fui crescendo, eu fui deixando de ser aprovado – a fofura pueril só dura até certo ponto, mas naquela época essa era uma conclusão que eu não conseguia chegar. Assim passei a não conseguir ser tudo aquilo que as pessoas esperavam que eu fosse, e, assim, me aprovassem. Deixei de ser bonitinho, deixei de ser fofinho, não era mais tão inteligente ou bem-comportado e isso se tornou uma provação.

Sempre fui tão aficionado por aprovação que, apesar de reconhecer em mim uma sexualidade que não era aprovada pela sociedade onde eu cresci, eu me recusei a vivê-la. Cheguei ao cúmulo de falar para mim mesmo que eu viveria uma “vida dupla” – tipo um “super-herói”. Na época isso fazia muito sentido, justamente porque eu precisava da aprovação alheia – era uma necessidade de tentar voltar àquela infância lotada de mimos. Mais uma vez, para ter uma aprovação (ainda que fictícia), eu precisava passar por duras provações.

Então, 15 anos depois de me reconhecer gay, decidi me colocar para o mundo como homossexual. Mas, ao me colocar, fui muito cauteloso; decidi fazer isso apenas para aquele mundo que me aceitasse como gay. Então, apesar de parecer ter deixado de lado a ideia da “vida dupla”, eu continuava com ela; eu agia de uma forma com pessoas que, teoricamente, aceitavam a minha sexualidade, e de outro com as pessoas que não aceitavam aquela outra realidade, o micróbio em mutação foi duplicado. A provação de viver uma vida dupla, ainda que ela seja ~parcialmente~ aceita, não é boa forma de viver.

Decidi, então, me fixar melhor na sociedade que mais me aceitava: a comunidade LGBTQ. Fiquei então muito ligado ao mundo gay, mais do que àquela sociedade que me oprimiu e me tolheu durante toda a minha vida. Mas, apesar de ter tantas características em comum com grande parte dos meus iguais, eu nunca achei que estivesse sendo realmente aprovado por elxs. Me vi, portanto, no mesmo lugar que eu me via quando comecei a não ser aprovado, lá no final da infância. E comecei a entrar em desespero, porque se eu não era aprovado ali, ONDE eu seria?

Nos últimos dois anos, eu percebi que não vale a pena. Não existe aprovação no mundo que vá me fazer sentir bem, se ela não vier de mim mesmo. Por isso, deixei de tentar concordar com os padrões, de qualquer grupo que seja. Os padrões da sociedade patriarcal me tolheram muito, mas os padrões do mundo gay também. É necessário que você faça isso, aquilo ou aquilo outro para ser aceito completamente; e se você não o é, você não faz parte daquele conjunto, e eles fazem questão de deixar isso bem claro.

Esses padrões todos, pelo que eu pude perceber, bebem de uma única fonte: a criação. Ou seja, se você foi criado patriarcalmente (o que acontece na grande maioria das famílias), você vai obedecer aos padrões impostos sim, e vai fazer sempre o que esperam de você, seja em meio aos heterossexuais ou aos homossexuais. Decidi, então, deixar de segui-los e comecei a questionar a tudo e a todos.

Incrivelmente, minha vida ficou mais difícil – não esperava isso. Perdi amigos dentro da comunidade na qual me inseri (que nunca imaginei perder), iniciei discussões acaloradas sobre assuntos considerados “tabu” em inúmeros ambientes (inclusive de trabalho) que me levaram a ser julgado erroneamente, dentre outros. Ao mesmo tempo, minha vida também começou a fazer mais sentido. A partir do momento que questionei o que era imposto como regra, por quem quer que seja, me percebi colocando minha opinião em primeiro lugar. Isso não significa que eu não concorde com muita coisa; só significa que eu pondero primeiro sobre concordar ou não.

A provação de buscar aprovação diminuiu consideravelmente – mas ainda existe tanto sofrimento no meio disso tudo.

Então, descobri: a provação da qual tenho falado é apenas viver – e conviver. E aí, a decisão que tomei foi simplesmente deixar para lá. Não importa se os outros aprovam ou não, pois isso não depende de mim – depende exclusivamente deles e de suas próprias provações, porque percebi que são elas que ditam essas aprovações. Por isso, acho importante que, antes de julgar outros para que passem pela nossa aprovação, pelos nossos valores, pensemos sobre o que está nos levando a fazer esse julgamento. Talvez seja somente uma provação nossa, mal resolvida.

Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears - hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

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