CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que achamos de Rei Arthur: A Lenda da Espada

em Cinema/O que achamos por

Review

Nota de Luíza Martins
6/10
Média
6.0/10

No próximo dia 18 de maio acontecerá a estreia de Rei Arthur: A Lenda da Espada. Este é mais um empreendimento do diretor Guy Ritchie (Sherlock Holmes, 2009) e da Warner, produtora que, nos últimos anos, investiu largamente na produção de filmes de aventura e fantasia. Prova disto são as releituras dos contos de fadas e seus desmembramentos, as já conhecidas “sequências” (Branca de Neve e o Caçador, O Caçador e a Rainha do Gelo, Malévola,  Animais Fantásticos e Onde Habitam, etc.).

Rei Arthur: A Lenda da Espada não foge nem ao que tem se proposto a Warner e muito menos ao que Guy Ritchie costuma fazer em seus filmes. O Rei Arthur de 2017 é uma bricolagem pop. O  filme reúne tudo, e mais um pouco, do que o público atual gosta de consumir. Este é claramente um filme planejado para vender. Ou seja, é uma releitura contemporânea de uma aventura medieval clássica.

Para a realização da sua versão do Rei Arthur, e para digerir o que é posto é tela, é essencial compreendermos que se trata de uma versão, uma releitura e Ritchie usa todos os recursos audiovisuais que estão a seu dispor. Estes claramente para atrair  o público mais jovem e fazer com que este se identifique e se veja em cena. Como toda fantasia, esta ficção se propõe a nos levar para outro universo, um lugar no qual é possível ter outras experiências e, sendo assim, alguns poderão dizer que há em cena a execução de “coisas impossíveis”… mas nem todos nós cremos em magos, seres mágicos e espadas com super poderes, não é?

Esteticamente o filme traz recursos amplamente usados por Ritchie em alguns dos seus filmes anteriores, fica clara sua assinatura. O diretor faz uso de momentos em slow motion e fast motion, nestes momentos resgatamos a franquia Matrix. A passagem de tempo é frenética, sobretudo na transição do Arthur criança para o Arthur já adulto. Existem também momentos de flash back, feitos com auxílio dos fast motion e uma trilha sonora que dá o tom e tempo da narrativa. É tudo muito veloz. A trilha sonora também é uma releitura e tema medieval, claramente nórdico, é remixado e totalmente contemporâneo.

A narrativa é bem simples e se baseia no espírito de coletividade, união e “bons valores” de um homem que, retirado de sua família, cresce em um contexto underground junto a prostitutas, justiceiros, contrabandistas e etc. O prólogo faz esboço da relação do Rei Uther com a espada, o misticismo e a hereditariedade do poder da Excalibur. Isto é explorado tão superficialmente que não fica claro, para os que desconhecem as origens do Rei Arthur, que se trata do pai dele e dos conflitos que antecedem seu reino.

O conflito inicial é o velho mito do irmão bom versus o irmão mau. Vortigern (Jude Law), irmão de Uther (Eric Bana) quer tomar o reino (parece que golpe de estado está mesmo em alta, não é?). Diante deste desejo, Vortigern recorre à magia com direito até a realização de sacrifícios humanos. O vilão é apresentado com todos as características clássicas de um vilão, mas traz também nuances que o humanizam (observar os episódios dos sacrifícios).

Daí então desenvolvem-se as catástrofes. A morte do rei Uther Pendragon, a fuga de Arthur e retorno dos tempos sombrios e de guerra ao reino. O herói Arthur cresce como um gangster, digno de temas do rap americano. Administra o universo underground da cidade (prostitutas, postos, justiceiros, vikings) mas se mantém fiel aos seus e, após a retirada da Excalibur da pedra, uma relação de conflito com o poder e responsabilidades legados pela espada.

Diferentemente dos outros filmes relacionados ao Rei Arthur, esta versão pop contemporânea, apresenta traços do misticismo em torno da família do rei. Bruxas, magos, seres extraordinários são postos como parte da trama e suas participações são bastante ilustrativas e contribuem para que a narrativa mantenha-se centrada no domínio do poder da Excalibur e na reconquista do reino.

Os diálogos nem sempre são coerentes com a lenda, e mais uma vez vale lembrar que se trata de uma versão da lenda, não uma transposição desta para as telas. O texto é bastante ágil, com uma linguagem contemporânea e centrado na personagem do Rei Arthur e os conflitos vividos por ele. Existe humor, este humor é tipicamente britânico, ou seja, sarcástico, ácido e até com autocríticas ao próprio filme. O desfecho já serve como uma introdução para uma possível continuação, para o nascimento de uma saga. O filme encerra com a apresentação távola redonda e seus primeiros cavaleiros.

O elenco é um deleite para os olhos. Todos são muito bonitos e a produção do filme tomou cuidado para que não parecessem extremamente limpos e polidos, mas há beleza no conjunto selecionado. Composto por atores como Jude Law (Vortigern), Charlie Hunnam (Arthur), Eric Bana (Rei Uther Pendragon), Djmon Housou (Bedivere), Aidan Gillen, o Little Finger – Game Of Thrones(Goosefat Bill) os personagens masculinos atuam com bastante equilíbrio, não existe em cena nenhuma atuação excepcional. Isto favorece atores como Jude Law, que por interpretar o vilão (Rei Vortigern) corria o risco de transformar-se em uma caricatura, o que não acontece. Sua atuação, bem como a dos demais, é plana e suficiente para a apresentação dos conflitos da narrativa.

Guy Ritchie em ação.

O filme tem, claro, pontos positivos e pontos negativos. Positivamente a narrativa, como em filmes anteriores, não é centrada na romantização da relação entre Arthur e a Maga Morgana (Astrid Berges-Frisbey). A personagem da maga surge e se mantem exclusivamente para servir como mentora de Arthur. Existem menções à uma possível tensão entre os personagens, mas não há nenhuma sobrecarga na abordagem deste aspecto. A meu ver isto é feito estrategicamente para o provável lançamento de uma continuação deste primeiro filme.

Por outro lado, negativamente, todos os personagens, inclusive Arthur, são acessórios, são auxiliares do personagem principal: os efeitos especiais. Os efeitos são usados em quase todos os momentos, o que nos faz crer que o objetivo principal da produção é criar algo dinâmico e de fácil consumo. Entretanto, a narrativa não fica exaustiva. O ritmo que é posto, apesar de frenético, é facilmente absorvido por quem assiste. Outro ponto negativo se dá na construção do texto. Alguns pontos da narrativa ficam pouco claros, a exemplo da relação do povo mágico com o reino de Uther Pedragon, sobretudo no prólogo do filme que já traz consigo uma abertura explosiva e bastante tensa. O telespectador leva alguns minutos para compreender do que se trata todas aquelas explosões. Outro momento fraco da narrativa é o desenvolvimento de cenas que levam ao grande momento de retirada da Excalibur da pedra, estes não são bem conduzidos narrativamente e parecem desconexos.

Luíza é graduada em Letras pela UFPE, estudante de Direito na UNINASSAU. Escreve sobre a vida cotidiana e as relações interpessoais, e de vez em quando sobre cinema. É curiosa e adora observar as pessoas, seus discursos e suas práticas. Publica mensalmente no dia 12, save the date | Para segui-la no Instagram: @madluiza

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