CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que achamos: Corra! (2017)

em Cinema/O que achamos por

Review

Nota de Djalma
10/10
Média
10.0/10

Como partes de uma sociedade repleta de diversas nuances, somos um produto extremamente complexo. Trabalhando com o conceito de identidade, não podemos jamais dizer que temos uma identidade apenas, pois somos plurais; sendo assim, é muito natural que nos sintamos bem em determinados lugares, e não tão bem em outros. Por vezes, até o mesmo lugar pode nos fazer sentirmos diferentes em momentos diferentes de nossas vidas. Por exemplo, estar numa sala de cinema geralmente me traz ótimos sentimentos; no entanto, assistir Corra! me fez sentir exatamente o oposto. E, ao contrário do que muitos possam achar, isso é excelente.

Chris (Daniel Kaluuya, Sicario e Black Mirror) é um jovem e promissor fotógrafo de 26 anos que, sabemos logo no início do filme, irá conhecer os pais de sua namorada Rose (Allison Williams, Girls) que moram numa localidade mais afastada da cidade grande. E uma grande preocupação de Chris é saber se a família de sua namorada sabe de sua cor; ela, um tanto chocada com a pergunta, afirma que isso não é importante para eles, e que irão acolhê-lo excelentemente, apesar dele ser o primeiro namorado negro dela. Rod (Lil Rel Howery), amigo de Chris, afirma que ele está sendo muito idiota de estar indo passar o fim-de-semana na casa da família branca de sua namorada, mas Chris parece perceber isso apenas como uma pontinha de inveja. E talvez, realmente, fosse. Ou não.

O resto do filme não vale a pena contar (e sim, esses são apenas os 15 primeiros minutos – se não contarmos uma cena inicial que eu também não quero explicitar tanto), porque perderá a graça. E não, não é uma graça engraçada (apesar do diretor e roteirista Jordan Peele ser conhecido por alguns programas de humor); a graça é a surpresa, é o horror e o desespero que sentimos assistindo ao filme – porque não existem outras palavras para expressar os sentimentos.

Mas não se engane: não são as cenas de terror ou os sustos que nos fazem desesperar-nos ou ficarmos horrorizados. Ao contrário, é saber exatamente que tudo que está colocado ali é extremamente verdadeiro; muito além disso, é perceber que fazemos parte de um mundo exatamente igual ao que o filme nos traz.

A premissa principal é o discurso sobre o recorte de raça em relação à população negra, e isso fica claro nos pôsteres, nos trailers e nas chamadas para assistirmos, e dentro do filme esse discurso foi colocado de maneira muito explícita, e de todas as formas possíveis; formas essas que eu apenas havia lido sobre, mas nunca havia visto em um filme sem um enfoque mais cômico. Fora da comicidade, ver pessoas vivenciando aquelas experiências se torna extremamente preocupante, porque sabemos que pessoas negras vivem muitas daquelas experiências 24 horas por dia na vida real, e nada disso é cômico.

Isso se dá em grande parte graças à trilha sonora (que é clichê, mas que funciona bastante), e, principalmente, aos momentos de silêncio. Corra! é um filme que transmite muito do que quer apenas pelo olhar de muitos de seus personagens, e acredito que isso é um feito pra poucos. É possível perceber uma miríade de sentimentos que acometem as pessoas, sobretudo através de seus olhares e suas linguagens corporais, e isso talvez seja o principal motivo pelo qual eu tenha achado o roteiro razoavelmente previsível. Mas, sinceramente, isso não afeta em nada a experiência do filme.

Ao ver o filme, é interessante que o telespectador coloque-se no lugar de todos os personagens negros, e fazer isso que é extremamente amedrontador. Foi horripilante perceber que eu (privilegiado que sou) faço muito daquilo que foi feito com os personagens negros do filme. O racismo sobre o qual o filme discursa está bastante institucionalizado, tanto que não parece mais racismo, mas na verdade é. E dos piores.

Corra! é um filme que transmite muito do que quer apenas pelo olhar de muitos de seus personagens, e acredito que isso é um feito pra poucos.

A terceira (e última) parte do filme é onde tudo fica bastante claro. É também o momento mais “horror pastelão”, porque sabemos que aquela situação precisa acabar; na verdade, como filme de suspense/horror, seus ganchos de sustos e sua trilha sonora são bastante comuns e clichês, mas eu acredito que isso tenha sido proposital; o horror se mantém na realidade que todo momento do filme traz, ainda que carregada de metáforas.

Cartaz Oficial no Brasil

Em relação às atuações, o Daniel dá um banho, e em uma cena específica ele me surpreendeu pois consegue passar de alguém aparentemente relaxado a um ser completamente transtornado e às lágrimas em segundos. Ele carrega o filme de forma excelente, e consegue expressar toda uma gama de sentimentos que provavelmente estavam internalizados por toda a sua vida. Marcus Handerson (Walter) e Betty Gabriel (Georgina) também conseguem trazer nuances diversas aos seus personagens, que nos fazem ficar confusos até a parte final do filme, finalmente fazendo-nos entender toda a problemática.

Como disse, é um filme pesado, sim. Tem também momentos cômicos, que eu achei um tanto desnecessários – mas que, pensando friamente, talvez nem sejam cômicos mesmo. Sejam somente diferentes da minha realidade – realidade essa repleta de nuances a partir das experiências que eu vivi nesta sociedade tão plural. E essa foi uma lição que Corra! me ensinou: talvez tudo que eu ache estranho, engraçado, triste ou horrível seja apenas a minha percepção; assim, alguma outra pessoa pode achar que aquilo seja extremamente normal. Mas, assim como o filme mantém em seu discurso, essa pluralidade deve ter limites, e é importante que saibamos onde e quando parar. O privilégio é algo que ainda está muito arraigado em nossa vivência, e é preciso pensar com mais clareza sobre ele. Corra! consegue fazer isso de forma excelente. Vá ver.

Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears - hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

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