Hoje eu vi um vídeo do Belchior no caixão: na parede da memória, essa lembrança é o quadro que dói mais

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Eu nunca tive referências musicais na minha casa. Não foi ninguém mais velho que me mostrou Belchior. Sabe quando foi que eu ouvi falar a primeira vez sobre ele? Eu tinha uns 14 anos e vi uma matéria antiga no jornal onde tinham umas letras bem grandes perguntando “Onde está Belchior?” Fiquei super instigada com aquela matéria. Com essa cabeça de ventos e luas que tenho, comecei a criar um tanto de histórias para o “desaparecimento” daquele cantor que eu ainda nem conhecia.

Nesse mesmo dia, lembrei que para além do homem que os jornais falavam, que os programas sensacionalistas faziam piadas, ali era um artista da minha terra e eu, nessa idade de descobertas musicais e infinitas curiosidades, fui ouvir suas músicas como quem procura pistas. E eu achei. Vi mais sobre mim, sobre ele e sobre uma sociedade que já me incomodava. Foi quando eu vi, que do Belchior eu sentia mesmo era inveja. Eu sentia mesmo era vontade de ter um coração tão selvagem a ponto de quebrar com essas ideias de subserviência que nos enfiam na garganta desde cedo. Uma vontade de viver como o diabo gosta tem me acompanhado desde então.

Até que, um pouco mais velha, descobri outra face dele. O Belchior apaixonado, ou de quando eu estava apaixonada.  De quando eu entendi que meus braços, meus lábios e minha voz eram para abraçar meu irmão e beijar minha menina na rua. O amor-revolução que ele faz parte, tal qual escrito na capa de um dos meus cd’s: “A obra desse gênio-louco que tanto embala nosso amor”

Belchior viveu como quis.

E, com sorte, um dia alguém vai poder dizer isso de mim. Quero ser sempre a que enlouqueceu, a que foi embora, a que mora na filosofia com a camisa toda suja de batom. E se não der certo? Eu quero tudo, TUDO, outra vez.

Hoje, quando eu acordei e lembrei que ele não estava mais em algum lugar do mundo, balançando em sua rede branca, digitei seu nome e a primeira resposta era: Belchior morreu.

Não. Não sumiu, não enlouqueceu, não morreu. Poucos de nós conseguiremos manter essa sanidade e essa presença.

Belchior é eternidade.

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Estudante de jornalismo que sonha universos infinitos e gosta de palavrear umas imagens poéticas.

3 Comments

  1. A Imagética da poesia de Belchior consegue transpor os quadros da vida humana sempre necessitada de toque, de abraço de paixão (desejo e sofrimento, porque não?). Agradecido, Ana Carolina, por nos continuar recordando que Belchior nunca desapareceu, que ele não pode morrer, pois tem em seu texto um tecido chamado Vida.

  2. Certo poeta romano menciona numa de suas obras que a única coisa que sobra de nós é a nossa própria obra. Belchior, assim, está mais do que eternizado por sua vasta, riquíssima, insuperável obra. Dele podemos dizer que ano passado, quiçá, morreu, mas esse ano não morre mais. E viverá, para sempre, do jeitinho que o Diabo gosta, nos ensinando a desobedecer, a suportar o dia-a-dia, a olhar para o céu, tirar o chapéu, a não cantar vitória muito cedo nem levar flores para a cova do inimigo.
    Parabéns pelo texto e que, independente da morte de ninguém, logo publique outro.

  3. Conheci o som desse gênio bem tarde, já na casa dos meus 19/20 anos de idade. Estava na faculdade e para minha infelicidade estava comprovando todos os pontos de vista que cultivei durante a minha adolescência errante, romântica e intensa: de que lá era um lugar onde as pessoas buscavam para construir, edificar seus castelos de arrogância e de desdém, e se manter distante dos “meros mortais”. Estava eu cursando Engenharia, fomentando através da minha mão-de-obra um sistema que corrompe, segrega e enlouquece as pessoas mais sensíveis. Foi esse o laço que de imediato me fez querer conhecer a fundo esse compositor ímpar, artista inigualável e um ser humano distinto(suponho- por tudo o que teve coragem de abrir mão). Aprendi que é normal sentir dor, querer chorar se dá o direito de fugir. Mas foi indo cada vez mais em direção a minha dor, buscando conhecer o que me atormentava que passei a me respeitar, conhecer e buscar preencher o vazio que existia em mim, sabe o lance de ver o copo meio cheio ?
    Todo mundo tem um pouco de Chris McCandless, aquela vontade de fugir, de correr do que nos atormenta e buscar abrigo na nossa solidão, mas a lição que fica disso tudo qual é ? Precisamos enfrentar, impregnar o mundo com a nossa essência a todo o momento, sem ceder espaço. Espero que o mestre tenha partido em paz, que o reconhecimento que é o alimento de todo artista tenha preenchido qualquer vazio que um dia possa ter assolado sua alma, prefiro que acreditar que sua arte o fez vencer. Acredito que esse é o espírito. Não podemos mais recuar, precisamos de todo Belchior que esteja escondido por aí, nosso amor é muito mais poderoso do que esse mal que assola nossa sociedade. Esse é um recado de um cara mais afeito aos números, rs, mas espero que a essência esteja nítida. Obrigado por me fazer tentar expressar um pouco o que senti quando li seu texto e que a obra desse gênio jamais deixe apagar essa chama dentro desse nosso “Coração Selvagem” já que sem dúvidas como o poeta imortal acredito que para mim e para você “Amar e mudar as coisas é o que interessa”.
    Paz e Amor.

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