CONSCIÊNCIA COLETIVA

Marvel Legacy e representatividade: o que está por trás da iniciativa?

em HQ/LGBTQI/Nerd por

Nos últimos anos, uma série de mercados passou a  abraçar, de alguma forma, as bandeiras defendidas por minorias. Esse abraço, contraditório por natureza, vem sendo debatido em diversas frentes e até hoje é alvo de críticas por uma grande parte do público consumidor. No cinema, na música, na televisão e nos quadrinhos, a predominância de determinados modelos sempre foi uma constante. Era raro, para não dizer impossível, encontrar homens negros, mulheres negras, gays, lésbicas, travestis e transexuais protagonizando narrativas.

Na última década, o fortalecimento da luta feminista ao redor do mundo conseguiu fissurar grandes conglomerados, criando um movimento sólido que não só denunciava o apagamento desses grupos, como buscava criar bases sólidas para sua inserção e naturalização no imaginário da sociedade. Há alguns dias a Marvel anunciou que iria iniciar uma nova fase na sua linha editorial, a Marvel Legacy, deixando claro que não faria propriamente um reboot, mas iria reformular as Hqs na intenção de atrair novos leitores, levando os personagens de “volta às origens”.

Capa onde Sam Wilson ainda era o Capitão América

Para quem não acompanha de perto as notícias sobre o mundo dos quadrinhos ou apenas acompanha os desdobramentos desse gênero nos cinemas, a Marvel tomou uma iniciativa, há poucos anos, para uns arriscada, para outros indispensável, colocando personagens de diferente etnia, raça e gênero por trás das identidades de seus personagens mais clássicos”, como Thor, Homem-Aranha e Capitão América. Nunca saberemos de fato quais as reais intenções da editora, nem discutiremos especificamente de que forma algumas dessas mudanças foram orquestradas, mas iremos debater como essa decisão foi lida pelo público consumidor de quadrinhos, principalmente depois que a imprensa divulgou amplamente o baixo número de vendas que a Marvel vem enfrentando, o que culminou na divulgação da Marvel Legacy.

Jane Foster é Thor

Para falar sobre isso, mesmo que brevemente, é preciso reforçar que, se escolhermos o surgimento do Super-Homen, em 1938, criado por Jerry Siegel e Joe Shuster como ponto de partida, iremos contar nos dedos, entre os inúmeros personagens criados a partir desse marco, quais são explicitamente LGBTQs. Até mesmo as personagens femininas, criadas para atender a uma demanda crescente, quase nunca foram escritas e desenhadas por mulheres. Essa é uma indústria que parece ter escolhido desde sempre um modelo representativo, modelo este que, nem precisamos dizer, foi pensado por homens para homens e quando digo isso, fazer a matemática dicotômica dos quadrinhos é fácil:

Não é negro – é branco
Não é mulher – é homem
Não é gay – é hétero
Não é trans – é cis

Claro que, antes de iniciarmos mentalmente os cálculos, sempre acaba aparecendo aquele que vai apontar um ou outro personagem que era LGBTQ ou negra/negro, que foi parte de uma equipe ou ganhou alguma popularidade no passado. É preciso ressaltar aqui que não é nossa intenção negar suas existências, na verdade estamos apontando para a frequência, permanência e intensidade com que isso aconteceu, pensando de fato nos que ocuparam lado a lado as famosas capas que hoje idolatramos;  e, sejamos justos/as, todo mundo sabe que a gente nem precisa dos cinco dedos de uma mão para contabilizar.

Logo que a Marvel anunciou o reboot que não é reboot, a primeira justificativa, depois do preconceito naturalizado que boa parte desse público cuspiu pelo dedos, foi a de que agora estava bem claro que as minorias não consomem quadrinhos e que não existe público para esse tipo de “abordagem”. Meus caros nerds, vocês acham mesmo que uma indústria que nunca procurou priorizar existências como as nossas vai ganhar adeptos fiéis em apenas 5 anos? Que iremos aderir facilmente a mudanças como essas sem questionar as reais motivações por trás disso? Quem entra em uma ambiente repleto de gente que sempre o excluiu sem demonstrar o mínimo de desconfiança? Quanto tempo é necessário para que possamos nos enxergar enquanto partes essenciais desse universo?

Riri Williams assume a armadura do Homem de Ferro

Talvez seja fácil para quem sempre conseguiu se espelhar nessas narrativas, apontar para uma negra ou um gay e dizer: – talvez a culpa seja sua, olha só, criamos histórias sobre vocês e vocês não foram capazes de comprar. É bem comum esse movimento de culpar LGBTs, negros/negras e mulheres pelo seu próprio apagamento, mas é bom que fique claro o quanto atitudes assim são violentas e injustas. Desconsiderar todo o percurso histórico e a opressão sofrida por essas pessoas é uma atitude nada digna, principalmente vinda de quem provavelmente passou a vida se espelhando em super-heróis.

Voltando à Marvel, o que nos resta é acompanhar os desdobramentos da novela. Parece que ela não defende a ideia de que os personagens “clássicos” que sofreram mudanças são responsáveis pelas baixas vendas (principalmente nos EUA), mas ao mesmo tempo parece não deixar claro a possível decisão de não mantê-los. Certamente estão tentando ser cautelosos, já que estão no centro de um grande embate: num extremo estão, lado a lado, alguns fiéis fãs de quadrinhos, que  defendem uma volta ao passado que sempre os acolheu e aqueles que com muita desonestidade estão usando o discurso do “tradicional” para camuflar a face preconceituosa e misógina que possuem; no outro extremo estão as/os que acreditam no poder desse tipo de representatividade, que defendem um olhar mais realista e diverso dentro desse segmento.

Talvez a Marvel tenha escolhido a estratégia mais arriscada, acreditando que o seu  público fosse capaz de compreender rapidamente o valor desse tipo de mudança, que tivessem entendido que o poder sempre esteve (e ainda está) nas mãos de um único arquétipo e que talvez a luta que precisamos reconhecer e apoiar seja aquela vivida por quem sempre caminhou na constante e ainda naturalizada fábrica de exclusão. Ela parece já ter escolhido uma saída, o Joe Quesada, CCO da Casa das Ideias, disse recentemente ao comentar sobre a Marvel Legacy que ela “é um vislumbre no coração da editora e um abraço em nossas raízes, com os personagens que você conhece e ama estrelando as maiores, melhores e mais ousadas histórias”.

Canário Negro, que antes tinha seu próprio título, hoje é coadjuvante do Arqueiro Verde.

Em um mundo nada paralelo, tem quem defenda a abordagem mais cautelosa adotada pela DC nesse sentido. A editora, que hoje é líder em vendas, até o ano passado também tinha na sua linha um bom número de protagonistas fora do antigo padrão, como a Canário Negro, o Meia-Noite e a série PREZ (de uma garota que se torna presidenta dos EUA), mas devido as baixas vendas, anunciou mudanças nas revistas mensais, que ficaram conhecidas como Rebirth, onde também optou por resgatar os “antigos valores” da editora. Hoje a editora prefere  inserir as pautas e os discursos dessas minorias colocando não mais esses personagens como protagonistas das suas próprias revistas, ou seja,  eles/as estão apenas circunscritos/as na sua mitologia (com exceção da  Batwoman, que ganhou de volta a sua própria revista mensal).

Capa de PREZ, uma das séries canceladas pela DC

Enxergo benefícios e problemas nas duas trajetórias, sabendo que ambas, Marvel e DC, estão sempre a serviço do lucro. A primeira acerta ao desafiar os leitores, promovendo o contato com novas identidades, tendo inclusive volumes de sucesso entre o público feminino mais jovem, como a Miss Marvel e a Garota Esquilo, mas errou duplamente; não prevendo que o fato de criar um público consumidor dentro de uma indústria que por quase 80 anos nunca retratou com honestidade essas comunidades seria não só desafiador, como levaria tempo e quando agora decide retornar “às origens”, abrindo margem para que os racistas, machistas e LGBTfóbicos, sempre de plantão, fortaleçam os seus discursos contra as minorias. Já a segunda, acerta ao perceber que esses personagens precisam de espaço, mas erra quando não se mostra disposta a correr riscos, visto que essa é uma atitude emergente.

Agora, como a voz do povo não é a voz de Deus, vejamos o que estão dizendo alguns internautas nas redes sociais sobre o assunto:

Aqui temos os 110 que chamaram os heróis atuais da Marvel de justiceiros sociais, quando eu sempre pensei que essa fosse uma motivação presente na maioria dos heróis “clássicos”.

Já aqui vem o rapaz que diz: “mas a Marvel diz que esses personagens são os que mais vende, o que está acontecendo?”

O outro vem com aquela: “tem que ir devagar, são 80 anos sem dar a mínima atenção a vocês, é preciso ter cautela rs”

Agora chegamos ao meu preferido: o moço critica os IRRELEVANTES e intimidantes (tô rindo) comentários pop culturais e sociais presentes nas novas histórias, afirmando que não, isso não é machismo e racismo, que, na verdade, o que escrevem é uma porcaria mesmo. Depois ele diz que as pessoas estão lendo histórias em quadrinhos para escapar desse mundo real aqui (do mundo real que ele esquece ser influenciado pela cultura (inclusive a dos quadrinhos)), e, fazendo os olhos pularem da nossa cara,  solta essa afirmação: “OS LEITORES ESTÃO FARTOS DE SEREM CHAMADOS DE HOMENS PRIVILEGIADOS CIS BRANCOS OU MISÓGINOS NO MUNDO REAL, ainda mais em um lugar o qual querem usar como escape. Depois ele ameaça: “Marvel, os leitores vão parar de comprar”.

Acho que esse comentário, que representa a opinião de uma parte do público nerd consumidor de quadrinhos, sintetiza o que estamos o tempo todo apontando e defendendo. Chegará o dia em que esses homens todos irão tirar essas máscaras e assumir que são muito preconceituosos e que não estão dispostos a abrir mão do lugar de privilégio que sempre esteve à disposição deles?

Como a esperança ainda existe, vamos finalizar com esse breve comentário, vindo de alguém que percebe onde as raízes do preconceito estão morando e que uniforme estão vestindo.

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Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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