CONSCIÊNCIA COLETIVA

A mágica do tempo em Chico Bento – Arvorada

em HQ/Nerd por

Review

Nota de Raphael
10/10
Média
10.0/10

As histórias protagonizadas pelo Chico Bento sempre estiveram entre as minhas preferidas. Não só porque ele é um personagem carismático, mas principalmente porque a atmosfera e, principalmente, os dilemas que ele enfrentava, mesmo com boa dose de humor, sempre me proporcionavam um contato especial com um mundo rodeado de poesia.  Quando vi a capa de Chico Bento Arvorada, lançada recentemente pelo selo Graphic MSP, não me deixei enganar pelo amarelo vibrante e suspeitei de cara que faria uma viagem inesquecível.

Capa Oficial

Chico é um personagem inspirado nas lembranças de Mauricio sobre o homem do campo. O nome foi um empréstimo do tio-avô do criador e sua estreia ocorreu em 1963. Outros personagens que já conhecemos, como Zé Lelé e Rosinha, marcam presença na história. Orlandeli, quadrinista que escreveu e desenhou o volume, escolheu a Vó Dita como elemento central da narrativa, e eu nem preciso dizer o quanto essa decisão foi acertada. Primeiro porque essa é uma personagem que está ligada fortemente ao nosso imaginário. Quem não lembra das histórias da Vó Dita e de como era legal imaginar que estávamos ali, sentados em frente a sua cadeira, ouvindo as melhores histórias?

A presença constante do amarelo (e que tom bonito), uma cor que geralmente é utilizada para significar otimismo e alegria, aqui atua como um recurso criativo muito importante, visto que essa é uma história sobre enxergar além da superfície, enxergar o que pode estar escondido nas cores da manhã ou em um ipê florido. A partir da relação entre Chico e Vó Dita, a grande contadora de histórias do universo de Mauricio, conseguimos entender que a mágica desse enredo está na sua capacidade de potencializar o que é simples, o que geralmente deixamos de lado quando somos jovens.

Vó Dita, com aquela energia que parece de um outro tempo, tem os dois pés fincados no presente, no agora. Ela consegue fazer do passado uma grande mágica e essa é a mensagem que Chico mais do que nunca precisará entender. Temos aqui a relação entre avó e neto sendo trabalhada com muita delicadeza, olhando para aquilo que o tempo até tenta, mas não consegue apagar.

Alguns momentos estão entre os meus preferidos. Para quem ainda não leu, é bom prestar atenção, por exemplo, no diálogo entre Chico e Zé Lelé quando estão pescando; na passagem em que a Rosinha aparece e principalmente na grande participação dos personagens do nosso folclore que, vamos combinar, é de fazer qualquer um chorar. Por falar em emoção, é impossível não ficar com o coração apertado quando surge uma referência sutil e mesmo assim muito importante à Mariana, a irmã de Chico, que faleceu ainda bebê; a história foi publicada na edição de Chico Bento 87, em 1990.

Por fim, é preciso parabenizar a MSP e principalmente o Orlandeli, que conseguiu em um único volume reunir com uma enorme sensibilidade tantos elementos do universo de Chico. Essa é uma história sobre o poder da memória, sobre o afeto e principalmente sobre permanência. Em tempo de abandono, em uma época em que o ageísmo e o culto à juventude estão fortemente presentes, Vó Dita é essencialmente um símbolo de resistência. Que Arvorada fique por muito tempo no cantinho da estante, sempre pronta para nos acolher quando a danada da saudade resolver bater na porta.

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Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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