CONSCIÊNCIA COLETIVA

Escola, gêneros e sexualidades periféricas: quando o sistema buscar segregar o indissociável.

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As questões de identidade de gênero e orientação sexual são tabus em nossa sociedade, e isso é um fato que definitivamente não é recente. Ao pensar em diversidade sexual, o membro normativo dessa sociedade conecta qualquer sexualidade periférica ao escárnio, luxúria e aberração; já em relação à identidade de gênero, esse mesmo membro normativo parece não entender exatamente o que é, e em geral acaba pautando-se em discursos estritamente tendenciosos para tecer comentários maldosos que reproduzem um preconceito entranhado em nós.

Assim, quando o governo Lula lançou o projeto Brasil Sem Homofobia, em 2004, visando combater essa violência e esse preconceito contra a população LGBT a partir da educação, se iniciava um processo de conscientização de professores e de alunos, com o intuito de formar uma sociedade mais inclusiva – pelo menos a longo prazo. No entanto, em 2011, o projeto foi vetado. Chamado de “kit gay” por políticos fundamentalistas da época, que afirmavam que o material serviria para “doutrinar” alunos que teoricamente ainda não possuíam idade e maturidade suficiente para entender os conteúdos trabalhados nele. Caso haja curiosidade, é possível ver o material criado para os alunos clicando aqui.

Pulamos então para 2017. No entretenimento diário, todos nós temos acesso a inúmeros materiais que falam sobre diversidade sexual e identidade de gênero, mesmo que essas palavras não estejam presentes nos mesmos; convivemos com indivíduos LGBTQ e assistimos filmes, séries, ouvimos músicas que tocam no quesito das sexualidades denominadas periféricas. É importante denotar que, apesar de toda essa exposição, as fontes destes materiais não são sempre tão confiáveis assim; portanto, uma novela que coloque um personagem gay para apenas trazer uma comicidade ao enredo da trama, apesar de expor seus telespectadores a um estilo de vida diferente, o faz através de um estereótipo que pode não condizer com todos os gays do cotidiano destes telespectadores.

Muito além disso, estas pessoas não possuem um local onde isso possa ser debatido; afinal, como dito no início do texto, tais assuntos são considerados tabu. É muito raro encontrar alguém que esteja disposto a falar sobre sexualidades alternativas ou identidade de gênero sem transformar a conversa numa série de impropérios com o intuito de “fazer rir”. Isso, obviamente, se estende às crianças e adolescentes que, ainda na escola, poderiam ter a chance de falar sobre o assunto com pessoas TEORICAMENTE mais preparadas para tal, como educadores, psicólogos e professores – o que, no entanto, não se faz possível: a escola, ao invés de um local de elucidação de questões, prefere deixar estes assuntos em um local invisível, como se estes não fizessem parte da vida de seus alunos tanto dentro quanto fora da sala de aula.

É muito raro encontrar alguém que esteja disposto a falar sobre sexualidades alternativas ou identidade de gênero sem transformar a conversa numa série de impropérios.

Sendo assim, apesar da revolta, não foi chocante ver a notícia de que o Ministério da Educação retirou todas as menções sobre orientação sexual e identidade de gênero do texto da Base Curricular Nacional; este é apenas mais um passo na jornada fundamentalista do governo presente, e que ainda pode ficar pior. Mas o que realmente me preocupa é a forma como a população acata tais mudanças: com um alívio de quem estava carregando um peso gigantesco. Comentários nos sites de notícias exemplificam uma felicidade por não aguentar mais esses assuntos; e a vida escolar também traz exemplos categóricos – e catastróficos. Infelizmente, o que se pode perceber é que alguns desses comentários – que não se restringem apenas ao mundo virtual, mas são também partilhados em conversas e trocas de ideias diariamente – são feitos por pessoas que deveriam, TEORICAMENTE, ser canais para a discussão sobre o assunto, tais como professores, educadores, psicólogos e etc.

No projeto criado dentro do governo petista, com o apoio do então ministro Fernando Haddad, existia uma parcela que se dirigia essencialmente aos professores; como eles poderiam lidar com essas questões em sala de aula, já que isso saía do enfoque de conteúdo para a vivência. Como o projeto não foi levado adiante, professores não tiveram muitas opções de receber tais informações, e fora algumas formações realizadas em lugares específicos do país, nada mais aconteceu em relação aos profissionais da educação no nosso país – e nessa categoria, é preciso incluir além dos professores, coordenadores, diretores e supervisores escolares. A quantidade de informação que estes profissionais precisam é gigantesca, pois será também a partir deles que alunos e pais de alunos poderão sanar dúvidas em relação a estes assuntos.

Assim, quando existir uma situação onde, por exemplo, numa discussão sobre famílias dentro de sala de aula (que com certeza deve compreender aquelas homo afetivas), caso os pais entrem em pânico ao saberem da discussão, e acabem desejando que os professores sejam repreendidos ou até mesmo demitidos, munida de informações, argumentação e empatia, a escola como um todo possa lidar com o ocorrido da melhor maneira possível. É necessário haver uma conscientização de que, como centros educacionais, as escolas são (também) responsáveis pela criação de um espaço onde debates sobre assuntos relacionados à sexualidade e ao gênero possam acontecer livremente, mediante o respeito mútuo e coletivo; não há como dissociar os papéis do educador, do psicólogo educacional, da coordenação e da direção destes objetivos. A importância de um centro educacional poder trazer essa discussão também para estes pais “em pânico” é imensa, uma vez que dentro do processo educacional também deveria existir uma ideologia de solução de problemas encontrados na sociedade.

No entanto, o que se vê é um movimento contrário: a escola tem medo dos pais e de sua resposta, e assim, ao invés de tomar para si a responsabilidade de ser um local de debate, acaba sendo apenas mais um veículo do preconceito que preenche a vida social fora do ambiente escolar. Isso provem da história da formação da escola, onde a instituição sempre foi pautada em obedecer aquilo que a população demandava – ou melhor, uma parcela mínima da população que sempre visou continuar no poder. Assim, ao invés de formar pessoas e seres íntegros, as escolas se contentam em formar apenas seres que possam atingir um lugar mais alto dentro de um ranking – ou seja, temos uma formação unicamente científica em detrimento de uma formação humana.

Indo um pouco mais a fundo, a formação científica que a escola realiza é, também, uma formação humana – e aí está um grande problema. Quando a instituição se silencia em relação a certas performances de sexualidade e identidades de gênero, enquanto mantém ( e encoraja) aquelas que são consideradas normais perante a sociedade, ela está também desenvolvendo o lado humano destes alunos – formando-os como peças que fazem parte desta tal sociedade, e que não serão levadas a questionar quaisquer preceitos.

A discussão sobre o papel da escola e do educador em relação ao lado humano (ou vida “pessoal”) do aluno é ainda muito obscura e tendenciosa; afinal, existem pessoas que acreditam que a família é a instituição que deve ensinar crianças e adolescentes a conviver em sociedade – então, falar sobre gênero e sexualidade é um pecado máximo -, e assim as escolas obedecem, por razões que vão além da pedagogia. É sempre importante lembrar que o gênero e a sexualidade perpassam cada uma das instâncias da vida de um indivíduo, e que, apesar de tentar bastante com determinadas regras e organizações físicas, a escola não consegue deixar ambos de fora; alunos não são robôs, são indivíduos com gostos, vontades, sexualidades e performances, e estas merecem, mais do que tudo, ser extremamente respeitadas.

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Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears – hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

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