CONSCIÊNCIA COLETIVA

Caio Fernando Abreu: meus 6 contos preferidos

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O nome do autor Caio Fernando Abreu se tornou muito conhecido entre os usuários de redes sociais aqui no Brasil nos últimos anos, devido a uma imensidão de frases que, teoricamente, foram cunhadas por ele. Bem, (in)felizmente, essas pessoas estavam erradas: frases como “podem jogar pedras, pois com elas construirei o meu castelo” NÃO são de Caio. Isso não significa dizer, no entanto, que ele não tenha frases que impactam de forma avassaladora as nossas vidas; elas existem sim, mas todas elas possuem contextos em seus variados contos, suas histórias e suas novelas, o que deixa seu trabalho ainda mais rico.

E que volume de trabalho ele tem! Caio publicou cerca de 20 livros, entre contos, novelas e dramaturgia, mas temos uma infinidade de produtos com o seu nome nas prateleiras de livrarias físicas e virtuais: antologias, melhores contos, Caio de A a Z. Devo confessar que descobri Caio há muito pouco tempo, mas me tornei um fã de carteirinha: é muito raro que eu tenha uma afinidade tão grande com um autor, mesmo quando não exatamente gosto do texto que escreveu. É possível perceber a verdade e as técnicas usadas pelo autor para realizar suas obras, e fico maravilhado ao pensar como ele o fez.

O autor morreu em meados da década de 90, devido a complicações relacionadas à AIDS, exatamente no dia 25 de fevereiro. No dia 12 de setembro comemora-se o seu aniversário de nascimento (ele estaria fazendo 69 anos caso estivesse vivo), e para simbolizar a importância desse grande escritor, resolvi numerar os que eu acredito serem os melhores contos dele. Foi muito difícil reunir apenas 6, porque me identifico com muitos, mas aqui vai o consenso ao qual cheguei, SEM QUALQUER ORDEM: 

Sargento Garcia: o conto revela a descoberta da homossexualidade por um adolescente que não consegue se encaixar na sociedade que o cerca, com certeza algo com que muitos de nós podemos nos identificar, e uma temática muito presente nos contos de Caio. É interessante observar que o texto, publicado no livro Morangos Mofados (1982), traz como objeto de desejo um militar, o que veio a ser um fetiche para o público homossexual durante alguns anos (e ainda é até hoje), mas o foco está justamente na revelação que o personagem principal tem de si mesmo, e do quão livre ele se propõe a ser a partir desta.

Morangos Mofados: conto que deu o nome ao livro de 1982, ele exemplifica toda a carga existencialista da obra de Caio, trazendo à tona nuances de um personagem que se encontra em conflito consigo mesmo e com a vida que decidiu levar. É um conto muito bem escrito, que traz uma mensagem bastante positiva para aqueles (na minha opinião, todos nós) que passam por crises existenciais durante sua vida.

Uma história de borboletas: publicado no livro Pedras de Calcutá (1977), o texto é de uma beleza estética incrível, além de uma carga emocional bastante pesada. A história fala sobre a visão da homossexualidade perante a sociedade, e principalmente como o homossexual se enxergava naquela época, quando o politicamente correto era ditado por um estado militarista e ditatorial. Tudo isso através de belíssimas metáforas, entre elas a presença de borboletas.

Sob o céu de Saigon: texto publicado no livro Ovelhas Negras (1995), e citado pelo autor como “o texto mais paulistano que escreveu”, se passa na rua Augusta, na cidade de São Paulo, e fala sobre encontros e desencontros. A partir destes, as pessoas fazem escolhas que podem ou não mudar suas vidas. É interessante perceber como o autor consegue construir os personagens, através de um estilo de fluxo de pensamento que leva o leitor a pensar exatamente como ele, pois não há paradas. Depois disso, as conversas, que parecem ser tão simples, acabam trazendo uma infinidade de significados diferentes para tão poucas palavras.

Linda, uma história horrível: publicado em Os Dragões Não Conhecem o Paraíso (1988), o conto fala sobre a problemática que era (e ainda é) a relação mãe-filho dentro do contexto da homossexualidade. Caio ainda traz o peso político da AIDS, um grande medo da população LGBT da época (sendo taxada como câncer gay), que é uma temática muito presente nos contos e histórias do autor. No texto, Caio tece uma narrativa de prosa poética que traz imagens belíssimas à mente do leitor, misturando realidade e imaginação.

Os Sapatinhos Vermelhos: também de Dragões (1988), é um conto riquíssimo em detalhes e imagens. Imaginei a história inteira em preto e branco, exceto pelos sapatos, que são a peça principal do texto. Ele fala, basicamente, sobre a liberdade sexual que a mulher da época não tinha (mas começava a ter), e juntamente ao conto “Dama da noite”, tece críticas a esta sociedade que não deixava (e ainda não deixa) que a mulher goze da forma que merece gozar. Belissimamente escrito, o texto revela o feminismo que Caio colocou como tema principal em vários dos seus textos.

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Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears – hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

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