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The Leftovers – O fim está próximo

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A ficção tem o poder incrível de revelar algo de muito real em nós. Se parte do grande motivo que nos leva a buscar narrativas fictícias é a vontade de se entreter, se divertir, há também aquela parte de nós que é atraído pela forma tão bela como a ficção utiliza de seus artifícios de manipulação de imagem, composição de diálogo, o poder da atuação para refletir na tela a nossa tão frágil e ainda bonita humanidade. Porém, são poucas as produções que conseguem realmente penetrar a nossa casca com tanta sutileza e força como a série criada por Tom Perrotta e Damon Lindelof para a HBO.

O texto a seguir contém spoilers das duas primeiras temporadas de The Leftovers

Quando The Leftovers foi inicialmente divulgado e o nome de Damon Lindelof (cocriador e showrunner de Lost) foi atrelado ao projeto, houve bastante temor de que a série fosse se tornar outra busca frustrante por respostas, cheias de expectativas que não seriam atendidas. De fato, o romance que inspirara a série – The Leftovers (Os Deixados Para Trás), escrito pelo próprio Tom Perrotta – já era uma obra que não respondia às perguntas sobre os porquês e causas do misterioso desaparecimento (arrebatamento?) de 2% da população mundial. The Leftovers nunca foi sobre o 14 de Outubro em si, mas sobre aqueles que se consideram as sobras, os que foram deixados para trás para lidar com suas consequências.

Como um homem religioso, temente a Deus, lida com o fato de que o arrebatamento pode ter acontecido e ele não ter sido escolhido? O que se passa na cabeça de uma mulher que perdeu seu marido e seus filhos no mesmo evento? No que passam a acreditar as pessoas quando não parece haver mais uma esperança ou promessa de Céu? Como os cientistas e líderes mundiais tentam lidar com um evento que está tão fora do seu controle? Como a sociedade, enquanto coletivo, convive com a iminente possibilidade de outro evento similar acontecer e lhe tirar aqueles que ela ama? O que mais a Partida Repentina tirou daqueles que ficaram além de pessoas? E essas são as perguntas que realmente valem e Lindelof e Perrotta estão dispostos a responder.

Dessa forma, The Leftovers passa a ser uma grande narrativa sobre perda, medo e esperança. A grande ironia da série é ter escolhido como seu protagonista um homem que não perdeu ninguém para a Partida Repentina, mas viu sua família se dissolver depois que ela ocorreu. Ninguém sumiu, mas todos o deixaram de alguma forma. Sua busca desesperada para recuperar algum senso de normalidade é constantemente confrontada por personagens que vêm tentar colocá-lo no centro da parte mística da coisa, enquanto suas próprias percepções sobre o que é real ou não se confundem. Ele é realmente importante ou só um homem descobrindo algum tipo de esquizofrenia?

Do lado oposto temos Nora Durst. Tendo perdido seus filhos e marido, Nora é uma que busca por respostas. Seu trabalho com o Departamento da Partida Repentina busca um padrão, uma explicação palpável que justifique os desaparecimentos. Não tendo corpos para enterrar, ela sofre na angústia de viver à espera de que um dia eles retornem ao mesmo tempo que sabe que eles talvez nunca voltem, sendo incapaz de superar sua partida. E mesmo quando ela decide seguir em frente, não encontra paz. Nora vive com o medo de que a tentativa de construir uma família possa resultar em outro sofrimento caso uma nova Partida Repentina se abate sobre os que ficaram. Não é à toa que Kevin e Nora encontram um no outro uma saída desesperada para seu sofrimento individual, mais do que amor propriamente dito.

Imagem oficial da nova temporada

A Partida Repentina está longe de ser uma realidade tão próxima de qualquer um de nós (será?), mas vivenciar perdas e sofrer com seus traumas é uma experiência naturalmente humana. A luta para se reerguer depois da morte de alguém ou até mesmo após o término trágico de uma relação tão significativa é um doloroso processo que muitos nós já vivenciamos ou ainda podemos vivenciar, junto com toda a carga de medos e inseguranças que ele traz.

Todavia, o poder de The Leftovers não está apenas em sua temática forte. Está no roteiro tão maravilhosamente bem escrito (a grande maioria por Damon Lindelof), tão cheio de detalhes e minúcias que contribuem para uma narrativa riquíssima em simbologias. Está na direção cuidadosa, em que cada elemento dramatúrgico mínimo tem seu lugar e importância, em que cada silêncio consegue comunicar mais que qualquer quantidade de palavras. Está na atuação tão maravilhosa de seus atores, tão capazes de nos fazer acreditar piamente nas dores e nos dilemas que sofrem, no quanto este mundo pós-Partida Repentina os afeta e mudou suas vidas. Está na trilha sonora magnífica do piano de Max Richter, enchendo cada cena de forma poderosa.

A Partida Repentina está longe de ser uma realidade, mas vivenciar perdas e sofrer com seus traumas é uma experiência naturalmente humana.

Apesar de tudo isso, The Leftovers não conseguiu conquistar o público como pretendia. Nem mesmo uma segunda temporada impecável, aclamada pela crítica, conseguiu atrair a metade da audiência perdida após a primeira temporada. Encarando o risco de um cancelamento, a série conseguiu retornar para um ato final. Após uma renovação tardia para uma temporada que só viria dois anos após a segunda, The Leftovers ganhou um terceiro ano para encerrar sua história. Com um retorno marcado para – não por acaso – 16 de abril, domingo de Páscoa, a jornada final de Kevin Garvey, Nora Durst, Matt Jamison, John e Erika Murphy, Meg Abbott e todo o resto promete nos tirar o fôlego e inundar em sentimentos e nos dar uma finalização.

Pôster Oficial da última temporada

Mesmo com as prévias lançadas, é impossível saber o que vai acontecer com esses personagens daqui pra frente, para onde Lidelof e Perrotta vão levá-los, se teremos um final feliz, se teremos respostas. Há promessas de coisas épicas, apocalípticas e tão dramáticas e melancólicas quanto as temporadas anteriores. Fomos convidados a deixar o mistério ser e agora tudo o que me resta é o coração aberta para o que vier. Eu jamais ousaria dizer que estou pronto, mas eu preciso mergulhar mais uma vez, ao menos uma última vez, nessa jornada emocional antes que ela também se parta e me deixe na angústia do não ter mais.

 

Professor de inglês, DCnauta, Nintendista e aspirante a Mestre Pokémon, gosto de usar minhas horas vagas para ver seriados, ler HQs, jogar, escrever e, claro, problematizar.

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