Cartas de amor: ultrapassando as barreiras do ultrarromântico

em Estrangeira/Leitura/Nacional por

Cartas de amor são textos geralmente escritos e pensados como o lugar de um discurso amoroso específico, aquele que se dirige à pessoa amada com uma carga de sentimentalidades e palavras de amor que declaram a perfeição no relacionamento. Dá até pra imaginar o suspiro de quem, ao colocar o último ponto final, muitas vezes substituído por três exclamações, beija o papel devotamente.

Fernando Pessoa parece concordar com essa ideia. Segundo ele, todas as cartas de amor são ridículas e assim têm de ser, do contrário não são cartas de amor. Ridícula é uma expressão utilizada pelo autor para adjetivar as palavras fofas, carinhosas, esdrúxulas, assim como os sentimentos esdrúxulos que são declarados, quase que sussurrados em cada linha. Mas nem sempre é preciso desprover-se de toda racionalidade e adentrar no universo ultrarromântico pra falar de amor, concordam?

Dias desses, lendo Mario Benedetti, escritor uruguaio que conheci ainda em minhas aulas de literatura espanhola e que passou a ser uma de minhas melhores companhias no caminho até a faculdade, saltou-me aos olhos uma de suas crônicas, a que intitulou como Carta de amor. Lembrei-me de Pessoa e logo fiquei curioso pra descobrir como seria escrita uma carta de amor na visão literária de Benedetti.

No que se refere à intenção, a carta de amor de Benedetti não foge do convencional. É, como tantas outras, um convite ao amor. É ridícula. Nela, um senhor já de meia idade escreve para uma mulher que encontra todos os dias no bonde, com intuito de expressar os sentimentos que dia a dia vem nutrindo por ela e então pedi-la em casamento. O que a torna uma carta peculiar são os motivos pelos quais ele acredita que um pode ser a metade da laranja do outro e as sinceras observações que faz de si mesmo, um tipo um tanto relaxado e feio, e de sua pretendente, fora do padrão de beleza e já se despedindo da fase da juventude. Antes mesmo de se declarar, já a adverte que será bastante franco e a pede que não se ofenda.

Obviamente estamos diante de um texto que se pretende cômico, exagerado, mas que pretende também, a partir do exagero, trazer uma reflexão mais realista sobre relacionamentos. Preocupa-se com questões importantes como a solidão que pode existir na velhice e a necessidade de cuidados mútuos e companheirismo. Ainda que sem adentrar no universo ultrarromântico das cartas de amor, a história contada por Benedetti faz jus ao título dado.

Carta de amor também foi o nome dado ao poema-canção escrito, cantado e declamado por Maria Bethânia em suas apresentações. As palavras ridículas aqui novamente não têm vez. Versos ameaçadores, palavras de raiva e com endereço difuso. Não mexe comigo, eu não ando só!

O que a torna uma carta peculiar são os motivos pelos quais ele acredita que um pode ser a metade da laranja do outro.

Muitos entendem o texto como uma resposta depois de ter sofrido críticas por ter recebido incentivos financeiros do governo para tocar um projeto literário. Não importa muito, prefiro interpretá-los como versos que traduzem amor-próprio, um canto de liberdade, uma haste fina, que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta.

Toda essa conversa me fez lembrar ainda de uma outra carta que me alimenta a alma sempre que leio. No livro Morangos Mofados, após a leitura de excelentes contos escritos por Caio Fernando Abreu, nos deparamos com uma belíssima carta escrita por ele e endereçada a um grande amigo, a quem carinhosamente se refere por Zezim. Caio conta para seu amigo o processo de criação dos contos e estimula seu amigo a escrever, referindo-se, sempre de maneira muito poética, à entrega que a escrita exige. Expressa ainda amor e admiração pelos escritos de Clarice Lispecto, por quem muito foi influenciado.

Trata-se de carta longa, como ele mesmo diz, dando conselhos, demonstrando o cuidado e o amor que é a base da relação de amizade entre eles. “Esses dias que tô aqui (isolado numa casa de praia para escrever o livro), dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. To preocupado, Zezim, e quero te falar disso. Fica quieto e ouve, ou lê”.

A relação abre o importante espaço da sinceridade. As verdades são ditas ao amigo com a delicadeza necessária: “Zezim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. A você eu amo. Não leve a mal alguma dureza dita. É porque te quero claro”.

É uma carta cheia de amor, amor-amigo, amor ao trabalho com a escrita, amor à solidão, amor à Clarice, amor ao seu leitor. AMOR! Não tem como não interpretá-la como uma carta de amor. É simplesmente uma leitura apaixonante. Sempre imagino que foi destinada a mim também, por que não?

Não estou, com isso, afirmando que Benedetti, Bethânia e Caio discordem em absoluto de Pessoa. Suas cartas também se revestem de um ridículo que vem na essência do texto, tendo em vista que relacionam esdrúxulos sentimentos, estados de alma. Mas eles dizem também que uma carta de amor sempre pode ser escrita a partir de prismas diversos, amores diversos e alguma dose de sinceridade.

Facebook Comments

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*