CONSCIÊNCIA COLETIVA

Literatura infantil: diversidade de gêneros, sexualidades e configurações familiares

em Leitura/Nacional por

A menina Ceci chega à escola e deixa os meninos intrigados. Nada de desenhar flores, ela gosta mesmo é de jogar futebol e subir em árvores. Seria Ceci uma menina com pipi? Julia não entende sua identidade. Dizem que ela se parece com um menino. Olivia tem dois pais e não sabe quem fará sua maquiagem se não há outra mulher em casa.

Esses questionamentos são levantados em diversos livros destinados ao público infanto-juvenil que tratam de assuntos relacionados a gênero, sexualidade e configurações familiares, apresentando a emergente necessidade de serem, cada vez mais, pensados e debatidos em ambientes familiares e instituições de ensino. As obras oportunizam às crianças uma visão menos estigmatizada das diferenças existentes entre seus colegas. Oportunizam ainda o reconhecimento da existência de famílias além da comumente aceitável “mamãe, papai e filhinho”, assim como o entendimento de que o gênero não é determinado biologicamente, tampouco depende de modos de se portar socialmente determinados para meninas e meninos.

Fazê-los olhar por esse prisma não é tarefa fácil, uma vez que vivemos numa sociedade que reconhece o modelo patriarcal como único aceitável e que determina a que gênero pertencemos para o resto da vida, antes mesmo de nascermos, quando ainda estamos na barriga de nossa mãe e descobrem se temos ou não pipi. A partir daí carregamos diversas características e imposições de como devemos agir em sociedade, o que pode e o que não pode. Aprendemos, então, como “ser menina” e como “ser menino”.

Alguns políticos e setores religiosos se manifestam contrários à divulgação e introdução dessas questões na escola, alegando que está se criando uma ideologia de gênero. Não entendem que o contato com a diversidade já existe na realidade da criança e é confrontado diariamente, o que não existe é uma orientação adequada sobre como lidar com essas questões. As Cecis, Olivias e Julias são reais no cotidiano escolar e não podem ser tratadas como ideologia.

A escola, como uma das instâncias formadoras de relações sociais, deve estar sempre atenta a essa demanda. No entanto, grande parte delas acaba por se omitir diante desse desafio que a educação impõe, permitindo que algumas crianças reproduzam preconceitos e oprimam outras que continuarão à margem, sentindo-se excluídas da “normalidade” de seus colegas por serem filhas de dois pais ou por possuírem características socialmente identificadas como pertencentes ao gênero oposto.

Aproveito para trazer uma lista com 7 livros que abordam a discussão a partir de uma linguagem simples e sensível ao público-leitor, procurando esclarecer e desmistificar os pressupostos de gênero, sexualidade e configurações familiares tão arraigados entre nós desde a tenra infância. São leituras essenciais que visam combater qualquer tipo de preconceito. É indicada para aqueles que se interessam por educação infantil e para todas as crianças que nunca devem estar satisfeitas com as explicações bipartidas em rosa e azul.

Confiram:

Ceci tem pipi? – Thierry Lenain

Ao chegar à escola, Ceci reverte a lógica e mexe com as convicções do menino Max, que antes dividia o mundo entre os com pipi e as sem pipi. Os meninos, que tinham pipi, eram mais fortes, mas Max não entende o porquê da menina Ceci gostar de futebol e subir em árvores e começa a se perguntar se ela teria pipi, assim como ele.

Olivia não quer ser princesa – Ian Falconer

Ser princesa é a fantasia de toda menina, certo? Errado. Olivia é uma porquinha diferente de suas amigas que gostam de vestidos rosa e varinha de condão. Olivia se pergunta: por que temos que ser todos iguais, pensar do mesmo jeito, sonhar os mesmos sonhos? A contestadora porquinha descobre que existem diversas alternativas, e utiliza de muita criatividade pra ser o que é. O livro é repleto de ilustrações bem divertidas.

Menina não entra – Telma Guimarães

Um grupo de amigos, todos meninos, formam um time de futebol, mas falta um jogador. Quem poderia ser? Assim começa o grande dilema desse livro. Poderia ser uma menina? A maioria pensa que não, mas logo todos mudam de opinião assim que veem Fernanda mostrar suas habilidades com a bola.

A história de Julia e sua sombra de menino – Christian Bruel, Anne Galland e Anne Bozellec

Os pais de Julia sempre afirmam que sua filha parece um menino, tem jeito, se veste como tal. Certo dia, a menina percebe que sua sombra adquire o formato de um garoto que repete incessantemente seus gestos, deixando-a triste e em dúvidas sobre sua identidade.

Tenho dois pais – Bela Bordeaux

Os modelos de família são muito diversos. Por que pensar em família como mãe + pai + filhos se ela existe nas mais diferentes configurações? O livro mostra, de maneira bastante educativa, a história comum de uma família com dois pais.

Olivia tem dois pais – Márcia Leite

Na mesma linha da indicação anterior, o livro apresenta as relações de Olivia com seus dois pais. Um gosta de cozinhar enquanto o outro brinca de boneca com ela. Surge então uma preocupação na garota: quem vai lhe ensinar a se maquiar e usar salto alto se não há nenhuma outra mulher em casa?

Do jeito que a gente é – Márcia Leite

Chico está tentando se assumir gay. Beá não aceita sua aparência e vive em crise com isso. A história dos dois personagens é contada com delicadeza e muita emoção. Colocam em pauta assuntos como autoconhecimento e aceitação de si e dos outros.

  • Amanda F

    Que maravilha <3

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