CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que achamos: A Vigilante do Amanhã-Ghost In The Shell (Sem Spoilers)

em Cinema/O que achamos por

Review

Nota de Louri
7/10
Média
7.0/10

Os avanços tecnológicos e sua influência no comportamento social são temas abordados há muitas décadas em romances, filmes e séries de tv, os produtos dessa nova cultura cibernética podem não só evoluir, como adquirir uma identidade própria. Distopias como o livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? de Philip K. Dick, o filme baseado nesta mesma obra, Blade Runner de Ridley Scott e até mais recentemente a série The Westworld, nos levaram a realidades onde os limites entre o humano e a máquina são apresentados de forma tênue e quase indistinguíveis.

Em Ghost in The Shell, mangá lançado em 1989, do autor Masamune Shirou, o mesmo tema foi abordado através da personagem Major, uma androide que trabalha para uma agência anti-terrorismo, e que de humana só possui o cérebro que foi implantando no corpo cibernético. Agora essa obra cult dos quadrinhos orientais chega ao cinema em versão live action dirigida por Rupert Sanders com o título de A Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell. Estrelada por Scarlett Johansson, no papel principal, Major é apresentada como uma andróide que busca resgatar seu passado e preservar sua humanidade. O filme apresenta grande potencial pelo tema abordado, mas infelizmente perde sua força com um roteiro previsível e um tanto maçante.

Ponto forte do filme, a direção de arte cria um visual marcante.

O processo de criação da andróide mostrado nos créditos iniciais é uma sequência muito interessante com efeitos digitais caprichados. Um futuro onde seres humanos podem aperfeiçoar seus corpos através de implantes de diversos tipo, como órgãos sintéticos e plugues cerebrais que permitem o compartilhamento de memórias e comunicação telepática, é apresentado de forma competente através da excelente direção de arte. Sendo o maior ponto forte do filme, os efeitos visuais conseguem, com muita originalidade, criar uma cidade claustrofóbica onde enormes hologramas fazem anúncios de produtos diversos, os arranha céus gigantescos e decadentes compõem um cenário de encher os olhos. Nesse aspecto, Vigilante do Amanhã consegue entregar um resultado marcante, deixando um legado visual impactante, que dificilmente será esquecido.

Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell, coloca na tela um universo rico, com uma temática necessária, cheia de relações com o nosso presente, onde a tecnologia cada vez mais se confunde com nosso modo de viver a realidade.

Com hologramas engolindo a cidade, o consumismo se impõe sobre a cidade, num cenário assustador

Um dos aspectos negativos é o roteiro, que não explorou de forma competente os dilemas da protagonista e a investigação sobre o seu verdadeiro passado. O questionamento de sua humanidade, tema que se torna essencial para o desenvolvimento dela, não consegue criar o envolvimento necessário. A atuação de Scarlett Johansson deixa um pouco a desejar, apresentando um misto de heroína durona com uma mulher frágil e confusa, a atriz não define o verdadeiro perfil de Major e não consegue unir essas duas faces com coesão. Obras anteriores, como as citadas no início, colocavam as máquinas em busca de uma possível humanidade, trazendo as questões existenciais que compões este dilema, Vigilante do Amanhã propõe um caminho diferente, explorando os aspectos humanos que vão aos poucos desaparecendo enquanto nasce uma consciência do que é ser máquina. Este é o passo evolutivo que a protagonista simboliza, um estágio à frente para a humanidade, onde a sociedade através de elementos artificiais que garantem sua continuidade no mundo passa a questionar o quanto de sua humanidade ainda lhe resta. Não pretendo dizer com isso, que a atuação de Johansson e sua personagem, bem como o roteiro não são exatamente bons, mas ficou a sensação que poderia ter sido feito algo melhor para conferir ao filme um tom mais profundo, distanciando-o do modismo nerd, que tem produzido filmes tão esquecíveis quanto superficiais.

Na história os seres humanos se aproximam mais das máquinas gerando uma discussão atual

Juliete Binoche tem um papel importante como a Dra. Ouelet, mas suas falas não fazem jus à personagem, tão pouco à atriz, reduzindo bastante o valor da mesma no filme. Como consolo, ela tem um dos takes mais bonitos do longa, numa cena envolvendo estilhaços de vidro que merecem atenção pela delicadeza do simbolismo. O verdadeiro destaque fica por conta do personagem Aramaki, interpretado por Takesho Kitano (Zatoichi) que consegue conquistar no momento adequado a empatia que os demais personagens falham em obter. O restante do elenco faz bem seu papel sem grandes destaques, incluindo o vilão Kuze (Michael Pitt), que mesmo com uma motivação tão rica, acaba sendo raso e até caricato.

A Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell, coloca na tela um universo rico, com uma temática necessária, cheia de relações com o nosso presente, onde a tecnologia cada vez mais se confunde com nosso modo de viver a realidade. Pena que o roteiro não consegue ampliar algumas discussões. Com uma protagonista mal construída e bem distante do mangá, o filme acaba se tornando uma adaptação razoável. Ironicamente a única coisa que sobressai é a própria tecnologia, através dos efeitos visuais que merecem ser apreciados e que acabam sendo os verdadeiros protagonistas.

Professor, editor e fundador do Nerd Subversivo. Escreve sobre quadrinhos. É apaixonado por leitura, animações, design gráfico e hqs. Publica mensalmente no dia 15, save the date| Para segui-lo no Twitter: @lourinaldojr

Último post de Cinema

Ir para o Topo
Pular para a barra de ferramentas