CONSCIÊNCIA COLETIVA

Escola em Recife defende atitude fashionista do século 18

em Educação/Opinião por

Um colégio tradicional do Recife emitiu recentemente uma nota onde falava sobre o tipo e o tamanho das roupas usadas pelas pessoas que vão buscar os(as) estudantes no espaço escolar. Com unidades fixas em bairros tradicionais e frequentadas exclusivamente pela classe média alta que reside na cidade, a escola afirma na mesma nota que “desde cedo reforça os valores éticos, morais e religiosos”, além de preparar gerações para que “se destacam no mundo do trabalho”.

O que a instituição certamente não esperava era que o preconceito e os tantos equívocos presentes no texto fossem causar uma indignação geral dos (as) internautas. A repercussão negativa foi tanta que a direção precisou emitir uma nota na sua página do Facebook, tentando minimizar o impacto.  O texto original diz para os pais e mães que é preciso adequar o tipo de roupa ao contexto, solicitando em seguida que “o responsável por deixar e por busca os alunos use roupas menos curtas, menos decotadas e menos extravagantes”.  Finaliza afirmando que a maneira “como nos apresentamos diz muito sobre quem somos” e que “bom senso e descrição são marcas de uma sociedade educada e moderna”.

Carta encaminhada a prezada família

A equipe (ou a pessoa) responsável pela emissão do material parece ter esquecido algumas questões importantes sobre a educação escolar atual. Primeiro que os contextos hoje continuam existindo, mas a leitura sobre eles vem sendo cada vez mais discutida. Colocar roupa como sinônimo de educação e modernidade é, no mínimo, uma atitude constrangedora, pra não dizer provinciana. Quando propaga posicionamentos como esse é quase impossível não questionar que tipo de juventude é percebida nesse tipo de discurso, uma juventude que é apenas reprodutora do que é realizado pelos adultos.  A referência ao tamanho e ao tipo das roupas não permitidas é misógina e machista.

Publicação na página da escola

A nota de “lamentação” postada no Facebook dia 28 não ajuda, não é nem um pedido de desculpas, já que a direção reforça que o comunicado inicial tem apoio da maioria dos pais e fala em uma interpretação equivocada por parte de quem se sentiu constrangido.  Não tem nada pior do que uma escola que não questiona a realidade em que está inserida, que reproduz valores tão ultrapassados em nome da ordem e da boa conduta. Sabemos que na maioria dos casos não são os pais dos jovens que pegam e deixam os seus filhos na escola, essa função geralmente é ocupada pelas empregadas domésticas;  o que reforça um forte preconceito de classe comum nesses contextos. 

Por sorte, nem todos (as) concordaram com o que foi solicitado pela instituição. Na internet as reações foram bem contrárias ao posicionamento da direção, com direito a vomitaço e a críticas bem importantes. Apesar desses posicionamentos contrários, algumas pessoas (como não poderia deixar de ser) demonstraram apoio ao que foi defendido pelo colégio. 

Confira algumas das reações no post da escola. 

Comentários no post do colégio
Vomitaço e mais críticas
Um ótimo comentário de uma internauta
mais uma colocação importante
Internauta chama de remendo a nota de “lamentação” e ironiza a postura de alguns pais.

Como tudo está interligado, é importante lembrar que nessa mesma escola aconteceu em 2016 um protesto (não sabemos se é o melhor nome) a favor da saída da presidenta Dilma. Estudantes se vestiram de preto e  ficaram de cabeças abaixadas nas bancas – a escola informa que o “protesto” aconteceu no horário do intervalo, claro.

Foto do protesto (rs): Divulgação JC
  • Os dados da Escola e os nomes das pessoas que comentaram no post foram preservados.
  • A foto de capa do post é uma cena do filme Mudança de Hábito, muito indicado para quem deseja quebrar paradigmas em espaços mais tradicionais.
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Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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