CONSCIÊNCIA COLETIVA

A Ditadura do espelho e a vida alienante nas redes sociais

em Comportamento/Opinião por

Vem do grego a palavra democracia. Governo exercido pelo povo. Em contrapartida, couberam aos americanos, criar, modernizar e alimentar as redes sociais. No Brasil, esse boom das redes, tão rápido e alienante, como qualquer explosão, parece um verdadeiro espelho da nossa experiência democrática, tão cara quanto jovem.

Engana-se quem acredita estar diante da maior avalanche democrática já vista na História ao criar uma conta no Facebook. Engana-se porque, ao invés da imensidão de variedade humana proposta pela globalização, estamos, mais do que nunca, condenados à trincheira do narcisismo.

No tempo da minha bisavó, por exemplo, vivia-se em uma sociedade rural. As cidadezinhas não passavam de 20.000 habitantes. Isso significava que você cruzaria, em toda a vida, com, no máximo, 200 pessoas da sua mesma faixa etária, que poderiam ter estilos de vida, gostos, predileções e opiniões comuns às suas. De certo modo, assim você faria um esforcinho para dar bom dia àquele seu vizinho mal humorado, trocar palavras com o vendedor ambulante, dialogar com a beata da Igreja a fim de viver em comunidade. Esse “esforço” para a socialização fez, da geração dos nossos antepassados, uma gente mais humilde, tolerante, menos mesquinha e mais democrática.

De tempos para cá, a sociedade passou a experimentar a vida urbana. As cidades tornaram-se metrópoles. 20.000 mil habitantes? Não! 200.000!!! A população da nossa faixa-etária tão numerosa à nossa volta puseram-nos em contato uns com outros. Ou seja: em tempos atuais, por que puxar papo com o vizinho rabugento, quando há milhares de pessoas iguaizinhas a nós, ouvindo, cantando, lendo (lendo?) aquilo que também gostamos de ouvir, cantar e ler? Tornou-se coisa de gente velha fazer amizade com gente velha… Assim como puxar papo com a moça no ônibus ou até mesmo segurar suas sacolas. Tornamo-nos, aos poucos, menos humildes, menos tolerantes, mais intransigentes e distantes da democracia, tão discutida no terreno da política e da Justiça, embora ignorada bem no seio da nossas vidas.

É o Adeus ao Bom dia para o motorista!

Atrelado a isso, em razão do boom digital, o suposto amigo de predileções e pontos de vistas bem parecidos aos nossos merece o bloqueio nas redes após o post em que critica a apresentação da Lady Gaga no Super Bowl. (Sorte a nossa, em meio à multidão de verdadeiros amigos, esse ex-amigo não era tão amigo assim, ufa!).

Tornamo-nos, aos poucos, menos humildes, menos tolerantes, mais intransigentes e distantes da democracia.

Ao perpetramos o seu assassinato simbólico, em nosso feed de notícias, desejamos, mais do que a morte de uma pessoa, o sepultamento de uma ideia, de um posicionamento político ou de um ponto de vista peculiar ao nosso, cuja contribuição valiosa, enquanto peculiar, e somente enquanto peculiar, indispensaria o debate, a coalisão, o pensamento livre, plural e (por que temer a palavra?) democrático.

No entanto ao contrário disso, bloqueando/matando, indistintamente, quaisquer que forem contrários às nossas opiniões, caminhamos mais à direita (ou mais à esquerda), embora sempre mais distante, do que já se ousou chamar democracia.

Nessa ditadura do espelho, espelho do conceito equivocado da democracia, o próprio Tio Marc tem recrutado novos milicos: não à toa, eu sou notificado quando um amigo curte o mesmo videozinho viral da receita da sobremesa.

Talvez estejamos na hora de estendermos nossa mão às sacolas no ônibus, ou quem sabe, mesmo, oferecermos o nosso assento.

Último post de Comportamento

Ir para o Topo
Pular para a barra de ferramentas