CONSCIÊNCIA COLETIVA

Maria e o pássaro enjaulado

em Autoral/Contos por

O movimento dos pássaros no interior do bando é livre, quase que se poderia dizer anárquico, se ele não tivesse governado por certas leis biológicas que impedem os animais de se chocarem uns contra os outros, ou de se desgarrarem … dizem também que cada pássaro escolhe por sua própria conta o caminho a seguir, sem perder de vista a perspectiva do bando.  

Trecho do livro
Máquina e imaginário: o desafio das poéticas tecnológicas

Maria, sentada na esquina com as vizinhas, observou o filho mais velho abrir o portão e entrar na pequena casa em que moravam. Espiou o relógio de braço e decidiu que só iria ao encontro do menino quando o relógio contasse mais 15 minutos. Apesar da conversa que rolava solta, ela só pensava na conversa que há muito tempo ensaiava na cabeça. Desde que essa coisa de internet chegou na Vila dos Sem Remédios, a coisa tinha ficado séria. As crianças não brincavam nas ruas, nada de amarelinha ou pega-esconde. Os portões trancados, nem sinal das gargalhadas que um dia, sem pedirem licença, correram soltas por essas bandas. Quando a noite abraçava o céu, um tanto de silêncio tomava conta das casas que, enfileiradas, formavam a rua dos alecrins.  Maria não se conformava, vivia a reclamar pelos cantos.  – Isso não vai acabar bem, Pedro. Dizia entre uma espiada ou outra no computador que comprara há alguns meses.

Mesmo Jussara, a vizinha da frente, queimando o almoço quase todo dia por causa dessa tal de internet, e o senhor Abílio, da casa 26, sendo chamado na escola da filha semana sim, semana não, pra explicar porque ela não largava o celular na sala de aula, ninguém parecia sentir essa aflição fininha que morava no peito de Maria. Pedro, que antes era conhecido por ser o menino mais falante do mundo, agora vivia calado, grudado feito um carrapato na máquina.

– Menino, fala comigo! Gritava Maria quando o silêncio já começava a atormentar o juízo.

Encabulado, o antigo falador respirava, dizia um oi quase mudo e voltava o juízo para a danada da tela. Maria, resmungando, aumentava o volume da tv e deixava que os personagens da novela invadissem as suas orelhas miúdas. Não entendia nada dessa tal de internet. No computador só tocava em dia de faxina, o que sabia mesmo é que ele andava sequestrando as palavras. – Esse danado ainda vai separar a gente da gente, Socorro. Comentava quase todo dia com a vizinha da casa 26.

No ano após a chegada do computador, o separar que Maria tanto temia, veio morar com ela e Pedro, sem pedir licença. O menino, sortudo como era, ganhou um celular novinho, daqueles que também tem internet dentro. Foi uma tristeza. Maria agora não sabia mais o que fazer. No café da manhã, no almoço e no jantar, ela só sentia um vazio consumindo tudo. – Socorro, minha querida Socorro, eu tô quase enfiando aquele celular de Pedro na privada. O menino agora me faz de alma dentro de casa, parece que eu não tenho existência.

Socorro, atarefada, dizia um “se acalme” e logo ia cuidar dos afazeres. Essa transparência de Maria durou bastante, com o tempo ela foi ficando quietinha, sentindo que era melhor deixar o tempo andar. Certo dia estava em casa costurando suas encomendas, quando recebeu a batida na porta. Era Socorro, e ela não parecia nada bem.

– O que aconteceu, criatura?

– Eu vim te contar, porque sei que tu não gosta dessas coisas, mas é melhor você saber com rapidez.

– Fala que tô ficando com tremedeira aqui embaixo do peito.

– Jussara veio me mostrar um tal de insta, insta alguma coisa, que é feito um álbum de fotografia. Tu acredita que eu vi as fotos que teu menino bota na internet e lá tá cheio de fotos suas, Maria?

– Minhas?

– Sim, tem tu passando ferro, tem tu na cozinha, tu assistindo tuas novelas, tem tu de todo jeito. Eu achei as fotos bonitas, mas eu sei que tu não quer nenhuma cópia tua vivendo presa nessa tal de internet.

Maria tentou tranquilizar o juízo, pediu pra Socorro não comentar nada com a vizinhança e, pensativa, voltou para a cadeira de costura. Escolheu com cuidado, como quem cata feijão, as palavras que usaria para falar com Pedro, não era de hoje que eles pareciam não falar a mesma língua. Terminou o bordado das toalhas e foi cuidar da janta. Pra mostrar que estava disposta a conversar sem briga, fez a sopa de legumes que ele mais gostava.

Pedro entrou em casa e, quando viu a sopa quente na mesa, suspeitou que a noite traria surpresas. Tomou banho, jogou a bolsa no canto do quarto e deitou na cama com o celular a postos. Foi surpreendido pela voz da mãe chamando para jantar. Engoliu a sopa com pressa, escutou o aparelho notificando novas mensagens no quarto e saiu correndo. Não disse uma palavra sobre a sopa, não escutou quando Maria perguntou sobre as fotos que ele andava espalhando, também não escutou a batida que ela deu na mesa, já com os olhos lacrimejando, apenas desejou fechar a porta e entrar no mundo do qual ele se sentia parte.

Maria com o tempo foi desistindo de competir com a máquina. Preferiu apostar na felicidade do filho. As vizinhas também foram sumindo com o tempo, até mesmo a atarantada da Socorro agora tinha outra vida dentro da internet. Nem para pedir os conselhos, o contar as fofocas de sempre, ela aparecia. Os anos foram passando bem devagarzinho, mesmo Pedro repetindo todo dia – nossa como o tempo anda passando rápido. Quando entrou na faculdade, Maria recebeu apenas um abraço rápido, mas ficou feliz quando soube por uma amiga que tinha sido citada em um grande agradecimento que Pedro colocou nessa tal de rede social.

Quando completou 58 anos, ela descobriu que tinha um caroço no seio esquerdo, o doutor, sem arrodeios, começou um tratamento bem arrastado. As idas e vindas para o hospital, sozinha, eram constantes, perdeu o cabelo, foi ficando fraquinha. Sua irmã, Beta, veio do interior ajudar com as coisas de casa. Pedro estava quase formado, faltava um tiquinho. Maria pedia que a doença ficasse quieta por um tempo, seu sonho era ver aquele menino com o diploma na mão e a vida feita.

Todo mundo precisa de teto e comida quentinha no bucho pra voar alto.

Foi no dia 9 de dezembro, quando estava no seu sexto internamento, que ela, sozinha, sentiu o peito ficar fraquinho. Ela não lembra bem, mas dizem que ela chamou por Pedro alguns minutos antes. A verdade é que Maria imaginou como a vida teria sido se ela tivesse deixado de teimosia, se tivesse entrado nessa tal de internet. Quem sabe não teria levado uma vida mais esticadinha ao lado de Pedro. Quem sabe não teria conhecido outros Pedros. Afastou esse pensamento rapidinho, não queria partir sentindo arrependimento, afinal, sempre esteve aqui, vivinha, era só esticar o braço e lá estaria ela, um colo bem fofinho para encostar a cabeça. Preferiu desejar que Pedro fosse muito feliz, que ele tivesse mais abraços nessa vida e que alguém o ajudasse a seguir em frente, alguém aqui, de carne e osso, porque todo mundo precisa de teto e comida quentinha no bucho pra voar alto. Maria virou os olhinhos já abatidos para a esquerda, a última coisa que viu antes de seguir para a próxima aventura, foi a enfermeira mirando o celular nas mãos, dando uma gargalhada gostosa.

No dia seguinte, algumas horas antes do caixão ser coberto por terra e da alma de Maria ir para outro mundo, Pedro resolveu homenagear a mãe, escreveu um texto curtinho e postou na sua rede social preferida, para ficar mais bonito, usou uma foto dela franzina, sentada na mesa de costura.

Oi mãe, aqui é o Pedro, o menino que a senhora pegou para criar e que tentou te fazer muito feliz. Foram 22 anos ao teu lado, dividindo a casa e os problemas, intensamente. Não estava sendo fácil te ver sofrer tanto, as vezes partir é um alívio, mesmo que a saudade fique. Você foi uma grande mulher, admirada por todos que te conheceram. Fiquei sabendo que você disse o meu nome antes de dar o último suspiro e isso me deixa muito feliz. Infelizmente você não me verá com o diploma que tanto sonhou, mas eu prometo honrar cada gota de suor que você enxugou da testa por mim.

Com amor, Pedro.  #luto #empaz #agradecido #filho #mãe #companheiro #saudade #focoefé #naluta #mariaguerreira #mulherinesquecivel 

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

  • Kelly S.

    Que texto sensível, muito bom para trabalhar com adolescentes.

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