CONSCIÊNCIA COLETIVA

Diversidade no mundo nerd: o trabalho da Wizards of the Coast para promover representatividade

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O mundo nerd é um universo tradicionalmente feito para jovens homens héteros cis brancos. Essa realidade é refletida em filmes, jogos de cartas, videogames, HQs, seriados e quaisquer outras mídias feitas pensando nesse mercado. Entretanto, este público está longe de ser o único consumidor desses produtos: mulheres, negros e pessoas LGBT sempre estiveram entre os interessados nesse mundo, inclusive sendo grandes consumidores, ainda que sejam negligenciados pelas próprias empresas de que são clientes.

Com o advento da Internet servindo como espaço de reinvindicação, esses grupos tradicionalmente marginalizados puderem falar e eles queriam ser representados. E bem representados. Dessa forma, certas empresas vêm – ainda que de maneira bastante atrapalhada em alguns casos – tentando mostrar algum serviço para ampliar a representatividade dentro de suas próprias mídias. Este texto é sobre uma dessas empresas: a Wizards of the Coast.

Fundada em 1990, a Wizards of the Coast iniciou seus trabalhos vendendo material para RPGs, como livros e suplementos. Poucos anos depois ela entrou no ramo de jogos de cartas com Magic: The Gathering – a série da Hasbro mais rentável depois de Star Wars – e adquiriu a TSR, a criadora da popular Dungeons & Dragons. Hoje em dia, a empresa pertence a Hasbro e, em adição aos livros de RPG e jogos de carta, é responsável por uma série de produtos diversos ligados ao mundo da fantasia, como jogos de tabuleiro, jogos online e de miniatura. Nos últimos anos, a Wizards of the Coast fez um compromisso com seus fãs de promover diversidade em suas linhas. Veja abaixo um pouco dessa tentativa nas suas séries mais populares:

Os Guardiões de Meletis foram primeiro referenciados nesta carta de Magic: The Gathering ilustrada por Magali Villeneuve, que conta de dois governantes que eram amantes pacíficos em tempos longínquos, mas cuja verdadeira história foi esquecida ao longo dos anos. Hoje, a história trata os dois como governantes em disputa cujas mortes foram celebradas e cujos monumentos erguidos a eles simbolizavam o fim de suas guerras.

Apesar de não citar nomes nem especificar nada sobre os governantes serem necessariamente dois homens, esta carta provou-se altamente popular entre os jogadores que acreditavam no relacionamento gay eventualmente confirmado, o que encorajou a Wizards of the Coast a ir mais além e decidir contar a história dos tais amantes Guardiões de Meletis.

Quinaios e Tiro de Meletis: Ilustrado por Willian Murai, esta carta revelou que os Guardiões de Meletis eram um casal gay inter-racial. Segundo descrição oficial, unidos pelo seu amor mútuo e pela liberdade, Quinaios e Tiro se levantaram contra o reino tirano de Agnômaco. Quando Agnômaco foi derrotado junto de seu império, a pólis de Meletis foi fundada sobre suas ruínas como símbolo de liberdade e esclarecimento. O povo, que apoiava Quinaios e Tiro, elegeram-nos Guardiões de Meletis.

Apesar de o romance ser oficial e ter inclusive virado manchete de muitos sites à época do lançamento, ele foi apagado pela tradução oficial brasileira e transformado num “forte laço de amizade”. Uma vergonha…

Alesha, A Que Sorri Para a Morte é outra que merece destaque no universo de Magic, pois trata-se de sua primeira personagem trans! Sua história foi contada no conto “A Verdade dos Nomes” por James Wyatt, Matt Knicl e Allison Medwin. Alesha é uma Khan dos Mardu, um clã com uma forte cultura de batalhas que dava a seus guerreiros o direito de escolher seus nomes de acordo com suas glórias em combate. Ao ter sua autoridade questionada por um orc ainda sem nome que a acusou de ser um menino que acha que é mulher, Alesha lembra do medo que sentiu de anunciar seu nome, aos 16 anos, um medo maior que o que ela sentira ao enfrentar o dragão que ela tinha matado aquele dia, porque todos a viam como um garoto, exceto ela mesma. Porém, ela foi capaz de mostrar o seu valor e conquistar o respeito de seus colegas.

Ao orc que a desafiou, Alesha respondeu “Eu sei quem eu sou. Eu não sou um menino. Eu sou Alesha, como minha avó antes de mim” e, eventualmente, também o orc passou a respeitá-la como ela merecia. Tanto a carta de Alesha quanto seu conto foram ilustrados pela artista Anastasia Ovchinnikova.

Ashiok, Tecedor de Pesadelos, é um planeswalker, ou seja, possui a capacidade de viajar pelos planos do Multiverso de Magic. Sua especialidade é incutir medo aos seus oponentes, sendo até capaz de moldar e manipular sua força em benefício próprio. De visual andrógino, o gênero de Ashiok nunca foi fácil de distinguir, até que a Magic confirmou que se trata do primeiro personagem não-binário da série.

A Wizards of the Coast tem sido elogiada também pela forma como vem retratando mulheres nos últimos anos: elas têm aparecido mostrando menos pele e exibindo mais armaduras e outras vestimentas realmente apropriadas para batalha, além de diversidade de formas e cores. Numa das mais recentes edições de Dungeons & Dragons, a editora foi elogiada por apresentar uma mulher negra como representante da raça humana. Além disso, o manual do jogador ainda fala sobre gênero binário e fluidez de gênero!

Os universos de fantasia se tornaram tão populares com sua visão eurocêntrica de personagens incrivelmente brancos, masculinos e heteronormativos que deixaram muito ou quase nenhum espaço para diversidade de cor e gênero.

Em uma entrevista dada em março de 2016, Hugh McMullen, diretor de comunicações da Wizards of the Coast, comentou que a missão de Magic é criar personagens tão variados quanto os múltiplos mundos no qual a fantasia acontece. Ele disse “Olhe para o típico set de Magic hoje. Existem personagens negros inspirados na mitologia grega. Passamos um ano em mundos inspirados pela cultura asiática. Existem mulheres guerreiras, magas, sábias e goblins. Quem quer que você seja, você pode se ver refletido no jogo”. O diretor também admitiu que diversidade é uma estratégia de marketing que dá certo, porque atrai mais jogadores. De fato, a própria presença de mulheres nas competições e eventos de Magic só vêm crescendo exponencialmente a cada ano e o ambiente que antes era altamente hostil em relação a elas, vem se tornando cada vez mais amigável. Ainda assim, a Wizards of the Coast é criticada por ainda não possuir um número muito inferior de mulheres trabalhando para ela em comparação com o de homens.

Os universos de fantasia se tornaram tão populares com sua visão eurocêntrica de personagens incrivelmente brancos, masculinos e heteronormativos que deixaram muito ou quase nenhum espaço para diversidade de cor e gênero. É irônico que universos que sempre aceitaram magias, mundos paralelos e criaturas mitológicas numa boa, ainda haja tanta resistência para uma representação mais digna de personagens que fujam a esses padrões. Ver a Wizards of the Coast dando esses pequenos passos com suas duas franquias de maior sucesso é realmente motivo de se animar e esperar que passos maiores sejam dados no futuro.

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Professor de inglês, DCnauta, Nintendista e aspirante a Mestre Pokémon, gosto de usar minhas horas vagas para ver seriados, ler HQs, jogar, escrever e, claro, problematizar.

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