CONSCIÊNCIA COLETIVA

A uma mulher

em Autoral/Devaneios por

Estava subindo no ônibus quando ouvi uma senhora falando em bom tom com um senhor que estava ao seu lado. Ele não estava muito interessado em ouvi-la, e como ela notou que eu estava a observando, dirigiu-se a mim e continuou sua queixa:

– A vendedora da loja disse que eu era doida! eu não sou doida! o vendedor brigou com ela e disse que eu era especial!

Essa senhora nitidamente possuia algum deficit cognitivo. Tinha o cabelo solto, bagunçado e segurava com as duas mãos miúdas uma enorme sacola preta.

– Se eu fosse doida, senhor, eu rasgava dinheiro! Eu não rasgo dinheiro! Eu não rasgo uma nota de 10 ou de 15 reais. Eu não tô mentindo.

Eu sorria, assentindo o que ela dizia.

-Essas pulseira aqui – e ela apontou para o braço em que havia umas bijuterias grandes e coloridas, continuando – quem me deu foi o moço da loja. Ele disse que não era pra eu vender nem trocar por nada. É melhor ganhar do que roubar.

– Elas são bonitas, eu disse depois.

– Eu ia perguntar ao senhor se o senhor tinha uns trocado pra me dar. é melhor pedir do que ficar calado com vergonha.

– Tenho sim!

(Eu, cá comigo, com minha timidez côncava, bem sei o que é ficar calado com vergonha e depois sofrer por isso.) Depois de tirar da carteira algumas moedas e colocá-las em suas mãos, ela agradeceu e seguiu a viagem calada.

Tempos depois, gritou: MOTORISTA, EU DESÇO NO SHOPPING. Ajudei-a com a sacola pesada, que devia ser de roupas usadas que ela havia ganho, e quando ia descer, devolvi àquela senhora o seu peso. E ela se foi. Com sua sacola, suas bijuterias, meus trocados, sua inocência e sanidade.

E minha vergonha me impediu de dizê-la que ela é realmente especial.

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