CONSCIÊNCIA COLETIVA

Prelúdios (de) Insônia

em Autoral/Devaneios por

Prelúdios

Sorrateiramente você entrou no quarto mais cedo e dormiu antes de e sem mim. Deixou-me na sala sozinho assistindo àquele filme de terror de péssimo gosto que escolhemos aleatoriamente no Netflix; parecia ser bom pela sinopse. A hora do lanche da noite chegou e eu separei numa vasilha verde uns biscoitos de coco para comer enquanto tomava leite quente. Comi e bebi vendo cenas mais entediantes que a minha própria vida; pensei em abandonar o filme, mas não o fiz porque queria encorpar a crítica negativa que mentalmente estava sendo formulada na minha cabeça. Uma hora e trinta minutos passaram e os créditos estavam na televisão. Não sei se cochilei durante o filme, mas o braço direito do sofá estava levemente úmido. Eis um mistério que não me interessa resolver. Caminhei em direção ao quarto e quando abri a porta dei de cara com a sua cara amassada entre os travesseiros. O lençol te cobria apenas os pés e o ventilador ainda não tinha sido ligado. Presumi que você tentou me esperar mas o sono foi mais forte. Aí, a raiva prematura passou, te balancei com a delicadeza que não tenho e logo te dei na boca cinco biscoitos de coco e, aos poucos, aquele leite quente de que você tanto gosta.

(de)

Insônia

Fiz de tudo para não ser pego. Passei praticamente o dia todo lendo e escrevendo e ainda cansei um pouco mais a vista assistindo com legenda um filme que poderia ser visto dublado. Na hora do sexo, o tudo que dei de mim foi mais do que o habitual, e o suor que geralmente só umedece a cama encharcou-a. Até dispensei o banho. Depois de tudo isso, meu corpo deveria desligar-se sem muito esforço ou planejamento. Mas não foi bem assim o final dessa história. Tentei convencer a mim mesmo de que não estava mais uma vez agrilhoado nos braços da insônia. As músicas do “Blue”, da iamamiwhoami, foram entrando com calma nos meus ouvidos à procura de um rastro de sono, mas houve falha nessa missão. Insônia me bateu na cara, deitou-se comigo e mais uma vez fez da vida um assunto a ser debatido; teve até o disparate de me oferecer um copo d’água que se metamorfoseou em café assim que tocou minha língua… Chegou a abusar sexualmente de mim, e eu não tive forças para lutar contra ela. Antes de ir-se embora à procura de outra vítima, fez-me escrever sobre nosso encontro no bloco de notas do celular, e ainda me intimou a publicar o texto no dia seguinte.

Henrique é graduado em Letras, professor de Português e futuro jornalista que faz pesquisa sobre metáfora. Escreve sobre e é apaixonado por cinema, literatura, música e afins. Publica reviews de filme mensalmente | Para segui-lo no Instagram: @henrickcarlos

  • Danusia

    Quero uma insônia como essa pra mim kkkk

  • Fabricio Android

    gostei desse texto.

  • Vinicius

    Intimou e o texto foi publicado.

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