CONSCIÊNCIA COLETIVA

Quando aquela conversa sobre a orientação homossexual do pai não pode mais ser adiada.

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As palavras têm poder e muitas vezes a ausência delas nos torna prisioneiros por anos, o que sem dúvida significa tempo demais para quem deseja seguir uma vida livre e sem receios de assumir as suas verdadeiras identidades.

Certamente já lemos, ouvimos e discutimos sobre as dificuldades de muitos filhos assumirem para seus pais, principalmente para o pai, que são homossexuais. O medo da rejeição certamente é um dos motivos que aparece nesse cenário. A figura paterna é sem dúvida uma figura importante na construção de nossa formação. Quando a relação pai e filho não é construída de forma segura, isso trará consequências que, no mínimo, afetará o campo da afetividade.

Tenho 32 anos e dois filhos lindos, um casal. A menina tem doze anos e o menino, oito. Após a separação vem aquela fase em que a namorada do pai aparece como uma bruxa que veio para leva-lo para bem longe deles. Sempre fui atento a essas questões e tentava construir as relações da forma mais leve possível. Tudo era novo e era preciso ir com calma. Depois veio o namorado.  Apresentei-o aos meus filhos como um amigo. Estávamos sempre juntos. Fazíamos muitos programas juntos. Minha filha, muito esperta, começou a perguntar para mãe sobre nossa relação… foi juntando os pontos e descobriu que na verdade, éramos namorados. Procurou-me e pediu explicações. Dei-lhe o que queria e precisava. Foi uma conversa bem franca e cheia de amor e afeto, como precisam ser as conversas entre pai e filhos. Sempre tive uma relação com base na verdade com eles. Fui pai com consciência. Meus filhos foram muito desejados.

Depois disso fiquei mais livre, mas não totalmente, ainda havia o silêncio presente no que diz respeito ao meu filho. No início, por achar que ele era ainda muito novo e depois por medo. Sim, por medo da rejeição. Aquele mesmo medo que os filhos sofrem. Pensei muito sobre como seria se ele não aceitasse de bom grado, se me rejeitasse. Como educamos nossos filhos para o respeito à diversidade, essa temática sempre aparecia em algumas discussões vindas da escola ou do coleguinha da rua, e meu filho sempre se posicionava condenando injustiças e afirmando que não havia nada demais num namoro entre pessoas do mesmo sexo. Isso me deixava confiante, mas não a ponto de sentar, olhar no olho dele e dizer que eu namorava um homem e não uma mulher.

Havia um misto de sentimentos em mim. Medo, raiva, culpa… eles brigavam com a minha racionalidade o tempo todo. Minha relação com meu pai não foi nada saudável. Mas de alguma forma essa relação ajudou e fez com que eu me libertasse por completo. Recentemente papai surtou e precisou ser internado num hospital psiquiátrico. Enquanto cuidava dele naquele lugar ouvi ele me chamar com ódio e lucidez de “viado”. Naquele momento eu decidi que precisa ser livre. Livre do que papai pensava, livre do que as outras pessoas, as que amo e as que nem conheço pensam, mas sobretudo do que o meu filho pensaria. Afinal ele ainda é uma criança e ainda teria tempo de desconstruir qualquer sentimento que o deixasse com alguma dúvida ou conflito. Penso ser esse o papel dos pais.

Bem, a conversa com meu filho foi super tranquila. Escolhi o mar como cenário, porque se ele me negasse o seu colo, eu teria o abraço das ondas como acolhida, para me ajudar a seguir firme no propósito de ser um pai amável e uma pessoa livre e feliz. Meu menino me colocou no colo de uma forma tão terna que foi capaz de estancar o sangramento de algumas feridas lá da minha infância. Daquele dia em diante me tornei mais forte, mais corajoso e disse ao meu filho que por mais medo que ele tenha de minha reação, caso tenha algo que ele queira e/ou precise me contar, eu estarei a postos com os braços de pai abertos para abraça-lo e compreendê-lo. Certamente naquele momento dei uma aula prática da disciplina “para que servem os pais”.

Escrever esse texto é uma forma de abraçar a todos os pais que convivem com esses conflitos e essas angústias e dizer que o tempo certo não está presente em uma receita e que o amor de vocês reinará sempre; por mais que possa doer a possibilidade da rejeição, é certo que as possibilidades da acolhida e do abraço estarão sempre ali, presentes.

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