CONSCIÊNCIA COLETIVA

Katy Perry – Chained To The Rhythm (feat. Skip Marley)

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Vocês estão mesmo problematizando o single novo de Katy Perry? Se sim, vamos aos fatos: a música é muito boa e o lyric video é ainda melhor.  Essa sonoridade não é inédita!, grita alguém – sim, ela é propositalmente retrô, parece que saiu daquele episódio lindo de Black Mirror, San Jupinero, e isso nem de longe é um problema.

Não é a primeira vez que uma música tenta refletir as piores amarras do nosso tempo. Vocês lembram que em 1985, Grace Jones lançou a sua sensacional Slave to The Rhythm (uma das minhas preferidas da música pop), onde cantava:

Never stop the action,
(Nunca pare a ação)
Keep it up, keep it up,
(Continue, continue)

Work to the rhythm, Live to the rhythm,
(Trabalhe para o ritmo, Viva no ritmo)
Love to the rhythm, Slave to the rhythm
(Ame no ritmo, Escravo do ritmo)

Enquanto Grace usava a sua música para falar dessa humanidade, que também é máquina; para falar da escravidão de ontem (Axe to wood, In ancient time) e de hoje, e para também protestar contra uma indústria musical que escraviza as(os) suas(seus) artistas; Katy retorna aos anos 80, para nos falar sobre outros aprisionamentos, principalmente aqueles causados por essa surdez coletiva que se traduz em muita solidão. Se para Grace o ritmo é uma punição inevitável; para Katy, ele é uma armadilha, que nos contamina com essa falsa ideia de que está tudo bem.

Sei que já arrumaram uma lista grande com outras cantoras que já flertaram com essa sonoridade, sim, existem muitas, mas vamos deixar essa competição cansativa de lado e focar no bom material que temos em mãos. Essa é a primeira vez que uma letra da Katy me deixa realmente feliz. O lyric video, já lançado, é uma prova que a música pop comercial ainda é capaz de fazer boas críticas.

Confira o lyric video super criativo que essa mulher lançou!

Verdade que falar sobre zona de conforto, principalmente em se tratando de uma artista pop, rica e poderosa como ela, pode parecer paradoxal, mas um olhar um pouco mais atento, nos mostra que a própria Katy não fica de fora, We’re all chained to the rhythm (Estamos todos acorrentados ao ritmo), diz o refrão. Não existe uma indignação declarada nos versos dela, a pequena dose de revolta fica a cargo do ótimo Skip Marley, o que existe mesmo é um retrato pessimista.  Se a moda agora é essa: reviver o passado, porque o presente não anda nada bem (insira aqui os Stranger Thinguianos e os La La Landers), que a trilha sonora, pelo menos, tenha essa qualidade e nos traga alguma dose de contestação.

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

  • Cibele R

    Excelente comparação.

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