CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que achamos: Lego Batman – O Filme

em Cinema/O que achamos por

Review

Nota de Louri
8/10
Média
8.0/10

Há cerca de dez anos, algumas franquias do cinema, como Indiana Jones, Harry Potter e Star Wars, ganharam versões adaptadas para os games, na forma inusitada dos joguinhos de montar Lego. Após mais duas continuações nos consoles (Lego Batman 2: Dc Super Heroes, de 2012, e Lego Batman 3: Beyond Gotham, de 2014) finalmente chega às telas mais um filme da franquia LEGO tendo Batman como protagonista. Concentrando-se em Gothan City, como não poderia deixar de ser, e reunindo uma grande parte do universo do herói, a animação traz o mesmo humor sarcástico, com piadas autocríticas e referências à cultura pop, especialmente à cinematográfica (hollywoodiana, claro). É também mais uma prova de como a Warner é bem sucedida em usar seus personagens da DC comics em animações, ao contrário do que ocorre nas versões em live action.


A história se baseia na tentativa do Coringa em conquistar o posto de arqui-inimigo do Batman, através de uma declaração de ódio do mesmo, que por sua vez se recusa a fazer isso. Para deter seu inimigo o herói tentará enviá-lo para a zona fantasma (um prisão para supervilões, fora de nossa dimensão e que só pode ser acessada através de um dispositivo em poder do Superman) provando que pode acabar de vez com o crime e salvar sua reputação na cidade que já duvida da efetividade de sua atuação. Para enfrentar o Batman, o Coringa contará com o apoio da enorme galeria de vilões do Arkhan, contando até com personagens obscuros do último escalão da DC, como o Rei dos Condimentos.

O Batman, assim como no Uma Aventura Lego, é um egocêntrico arrogante, totalmente oposto ao mítico herói moldado nos quadrinhos ao longo das últimas décadas, e reforçado nas franquias do cinema. Ele se aproxima mais do Batman de Adan West da série de tv dos anos 60, com um toque de acidez mais concentrada e atitudes bem questionáveis para um super-herói (basta observar as suas motivações para levar o Robin em sua primeira missão). Sua relação com o Alfred deixa claro seu papel de menino mimado, que cresceu e fez do combate ao crime um cano de escape que alimenta seu ego, e não uma forma de honrar a promessa feita à memória de seu pai.


Além do Batman e Alfred, temos outros personagens queridos em destaque. Robin/Dick Grayson, um órfão fofinho, que nos conquista já no poster da bilheteria, é um garoto sonhador e carente que procura por uma família. Bárbara Gordon, a nova comissária de polícia de Gotham, tem mais destaque que seu pai, James Gordon, representado aqui como um bobo que não faz nada além de ligar o bat-sinal. Para quem não a conhece, Bárbara Gordon é a Batgirl dos quadrinhos, uma personagem que passou por uma excelente reformulação em 2014, se tornando uma personagem com uma representação mais forte para o público feminino. Na animação, Bárbara demonstra uma personalidade mais independente, decidida e confiante, fugindo do estereótipo machista das adaptações de personagens femininas no cinema. É digna de destaque a fala dela ao ser chamada de Batgirl pelo Batman: “se eu for a Batgirl, você será o Batboy?”


O antagonismo entre o Batman e o Coringa é a motivação do vilão que vai passar a maior parte do tempo tentando arrancar uma declaração de ódio herói. Parodiando cenas de romance, essa busca obsessiva pelo ódio de seu antagonista é a representação mais curiosa e sarcástica da relação dos dois ao longo de suas oito décadas de existência. E a solução para isso passa por uma alfinetada criativa contra o Esquadrão Suicida, com uma reunião de vilões mais motivados e eficientes.


O roteiro apresenta algumas sacadas divertidas que alfinetam a própria trajetória do herói nos cinema e tv, indo desde a famosa série dos anos 60 até Batman Vs. Superman. Brinca com outros sucessos como Tubarão, Harry Potter, King Kong, Godzila, Gremlins e outros. Embora cheia de referências e piadas, que exigem uma certa atenção do espectador, e que provavelmente as crianças de menor idade não vão entender, a animação é mais fácil de acompanhar nesse quesito do que Uma Aventura Lego, que em alguns momentos nos enche de informação, tornando-se mais difícil de ser apreciada.

Mesmo com piadas voltadas para um público mais maduro, e referências difíceis de apanhar, as sequências de ação são um prato cheio para o público infantil (e não menos para os adultos). O grande trunfo de se utilizarem as pecinhas de lego para construir todo o cenário e personagens, é a alusão que se consegue fazer a uma grande brincadeira, rica em cores, e cheias de pedacinhos de plástico voando o tempo todo pela tela. Ao mesmo tempo, essas sequências criam um visual, divertido, empolgante, e não remete à nenhuma forma explícita de violência por se parecer com um brinquedo sendo desmontado. Visualmente ainda, é empolgante acompanhar toda a correria dos personagens e a destruição dos cenários por que isso cria a sensação de que assistimos nossa própria imaginação enquanto brincamos.


O filme tenta reforçar a importância da família, especialmente quando temos a oportunidade de construí-la ao longo da vida, acrescentando aqueles que nos amam. Utiliza para isso, o perfil solitário do Batman, e seu sofrimento e medo diante das perdas que sofreu. O Batman aqui é desconstruído, tendo seu lado mais sombrio exposto, e não digo isso em referência à seu hábito de andar nas sombras, por que no filme ele ama os holofotes. Ele é divertido, bobo e mau caráter algumas vezes. É um Batman que pode incomodar alguns fãs, ou agradar outros.

Batman Lego O Filme é inteligente e sarcástico. Alfineta a si mesmo, como representação do personagem mais importante, sem dúvida, da DC comics (em termos financeiros pelo menos). Na abertura, inclusive, ele se refere à DC comics como “a casa que ajudei a levantar”. Ícones como Voldemort e Sauron são bem utilizados para fazer reverência aos fãs de outras franquias. A senha da Batcaverna é uma mais uma alfinatada contra a Marvel, claro que nem todos concordarão, mas o importante é capacidade do Morcegão de nos fazer rir de nossas paixões, e acrescentar um pouco de críticas a elas. De quebra ele consegue prender a atenção de crianças e adultos. No final, o herói estará lá presente, nos ajudando apenas a tirar armadura séria demais na qual vestiram o Batman. Ele é para adultos, e para crianças, ele pode rir e nos fazer rir. Batman Lego O Filme humanizou esse herói, e mostrou que não precisa ser carregado de uma aura tão densa e pesada para ser admirado. A Warner assim tornou o Batman ainda mais acessível.


Professor, editor e fundador do Nerd Subversivo. Escreve sobre quadrinhos. É apaixonado por leitura, animações, design gráfico e hqs. Publica mensalmente no dia 15, save the date| Para segui-lo no Twitter: @lourinaldojr

2 Comments

  1. Obrigado pelo post o filme é muito bom. Faz muito tempo que não vi Lego Batman filme e ancho que tem uma animação tão boa quanto. Se ainda não a viram, eu recomendo amplamente, vocês vão gostar com certeza.

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