CONSCIÊNCIA COLETIVA

Homenagem: Caetano, nossas viagens

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Caetano Veloso é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores artistas brasileiros. Dono de uma personalidade por vezes “controversa” (o que, aliás, apenas reforça a grandeza da sua genialidade), sua obra, no entanto, permanece uníssona, de composições estéticas sofisticadas de rara beleza, sob boas doses de engajo político (“Podres poderes”, “Haiti”), comicidade e irreverência (“Não enche”, “Chuva, suor e cerveja”), alta voltagem lírica (“Alegria, alegria”, “Baby”) e, por vezes, um tanto melodramática (“O quereres”, “Esse cara”). Caetano é, num só tempo, moderno, avant garde, clássico e popular: grande.

Sem dar-se conta, Caetano apresentou-me ao seu universo – de altas e baixas paragens – e acrescentou ao meu vocabulário e ao meu repertório de mundo figurões da cena internacional, como esportistas e artistas plásticos, me levou a lugares que jamais poderia imaginar… Me apresentou a movimentos, manifestações, curiosidades da cultura regional, nacional e ocidental.

Foi através dele que pude sentir o paladar saudosista da cajuína, bebida tipicamente maranhense que viria a provar só tempos depois de ter ouvido o seu cancioneiro e cujo nome titula a canção presente no álbum “Cinema transcendental”, lançado no final dos anos 80 e composta em homenagem póstuma ao companheiro tropicalista Torquatto Neto, que havia se matado em meados daquela década.

Caetano conta que, alguns anos após o suicídio, foi a Teresina visitar a família do amigo. O pai o recebeu e durante a visita só houveram os dois na casa. Na sala, só se ouvia o soluçar do choro convulsivo de Caetano. O pai o serviu um copo de cajuína, a bebida cristalina, e uma rosa menina de um dos pés do jardim. Tempos depois, ainda sob as impressões da morte do amigo, escreveu a canção de versos existencialistas (“Existirmos: a que será que se destina?) e arranjos nordestinos.

Caetano levou-me também à Bahia de Santo Amaro da Purificação, mais precisamente ao Subaé, presente na canção “Purificar o Subaé” (na voz de Bethânia, em “Alteza”, 1981) rio que corta todo o Recôncavo Baiano, poluídas pelo progresso vazio as riquezas daquela gente de pele morena. Em seguida, paramos noutro Rio: o de Janeiro, eram os meados de 70, a boate mais badalada e frequentada pelos moderninhos da burguesia intelectual, O Frenetic Dacin Days, fundado pelo jornalista Nelsinho Motta, palco de atrações como As Frenéticas. Haviam não só elas, como a Tigresa, do álbum “Bicho” (1977), inspirada em musas como Zezé Motta e Sônia Braga, ela era a expressão máxima da mulher carioca livre e inventiva do período de regime militar tardio.

Em seguida passeamos pelos versos de “Sampa” (“Muito – Dentro da estrela azulada”, 1978): a poética concreta da terra garoa. Neles, vi bem mais do que uma cidade destruída pela força da grana, bem mais do que a feia fumaça apagando estrelas, vi a São Paulo traduzida por Rita Lee: deselegância e discrição das suas meninas. A São Paulo dos deuses da chuva, a das encruzilhadas que tocaram o nosso coração.

Em Um Índio (“Bicho”, 1977) fui apresentado à impavidez de Muhammad Ali, o memorável e invencível pugilista, embora – anteriormente em “Reconvexo” (Gravado pela sua irmã no álbum “Memória de pele”, 1989) –, confesso, tenha mais me encantado pela sutil elegância de Raimundo Nonato Tavares da Silva, o Bobô, futebolista baiano que tornou-se um dos grandes artilheiros do esporte moderno. Ainda na América, vi a risada de Andy Warhol e a beleza estonteante de Brigitte Bardot ao som do bluzão de Thelonious Monk.


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Rumo à Europa, passeamos sob os versos de “Vaca profana” (na voz de Gal Costa, albúm “Profana”, 1984) pela Espanha do movimento da contracultura mais rebelde e engajada da Movida Madrileña, nos plenos anos 70. Revisitamos a Barcelona cosmopolita de Antoní Gaudi e seus castelos erigidos sob as formas pitorescas da arte moderna e sofisticada, embora eternamente atemporal e inesgotável.

Aquele mundo de Caetano, de rotas de dificílimas aspirais, parecia cada vez mais meu, meu, meu, de fácil mapeamento.

Na lúcida e louca “Língua” (“Velô”, 1984) me deparei com a overdose sonora e linguística de Arrigo Barbané, pós-tropicalista, que propunha uma espécie de revisitação estética erudita sob a psicodelia de composições inusitadas e antipoéticas. Havia também um pouco de Glauco Mattoso, Scarlet Moon, Chico, Carmem Miranda, o lobo de Hobbes, tudo isso na Língua do latim em pó: oh flor do lácio!

De volta ao Recôncavo baiano, aliás, ah, me dei conta de que nunca havíamos saído dele, (como bom leitor de Guimarães, Caetano jamais esqueceu-se de que “O sertão é todo mundo”), Bahia onipresentemente, rezamos a novena da centenária Dona Canô, mãe de Caetano, salvaguardados pelo Céu estrelado de Santo Amaro.

No mundo de Caetano nem tudo é alegre ou pueril e nem o é de todo grave e politizado. E nada é mais contemporâneo do que rotas que se percorrem por entre o falso limiar excludente do clássico e moderno, do erudito e popular, do canônico e marginal, que rompem os limites fronteiriços do territorialismo cartesiano. Tudo parece convergir no seu mundo. Seus relevos acidentados de fiordes e vales confundem-se em longos terraços maciços, cujos passeios, ao longo desta trajetória, foram tornando-se bússola à autodescoberta das minhas geografias interiores. Caetano, nossas viagens.

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