CONSCIÊNCIA COLETIVA

Olinda: Dos Tambores e outros lamentos

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Terra de frevo, maracatus e afoxés, Pernambuco se prepara para mais um carnaval de muita festa e irreverência característica do nosso povo. Hora de vestir a fantasia e viver a personagem durante os quatro dias até chegar a quarta-feira ingrata. Eu sou um daqueles foliões que ajudam a lotar as ladeiras de Olinda e ainda gastam o resto de energia apreciando a noite em um dos palcos do Recife. Não era pra menos, nasci e cresci em meio ao furdunço carnavalesco da cidade alta de Olinda e corria para a calçada de casa sempre que escutava o clarim anunciar mais um bloco que passava. Nos últimos anos o evento tem apresentado aspectos negativos, como a violência desenfreada e a criação de espaços segregadores que desvalidam sobremaneira a multiculturalidade e a diversidade tão exaltadas pelos nossos governantes. Mas não vou me alongar nesse aspecto. Quero falar de percepções. O que vejo, o que sinto, o que penso das noites em que ouvi o silêncio do tambor.

Na segunda-feira pré-carnavalesca acontece na cidade de Olinda a Noite dos Tambores Silenciosos, evento que sempre me chamou atenção pelo significado que tem, principalmente para aqueles que vivem a noite e os tambores o ano inteiro.

O ritual religioso reúne nações de maracatus que seguem enfileiradas pelas ruas estreitas da cidade até o encontro em frente à Igreja do Rosário dos Homens Pretos, momento em que os tambores reproduzem o batuque num mesmo tom, repleto de harmonia e canto, reverenciando o lamento negro. O auge do cortejo sucede à meia noite, quando as luzes do local se escurecem e as nações silenciam seus tambores. O toque uníssono e o silêncio que a ele segue vêm carregados de histórias e memórias de seus ancestrais africanos que sofreram nos tempos de escravidão com a perseguição aos cultos religiosos, além de outras formas de preconceito.

A verdade é que, mais de um século depois, quase nada mudou. Ainda que a liberdade de culto e crença esteja assegurada pela nossa Constituição e pelo Estatuto da Igualdade Racial (Lei nº 12.288/2010), os integrantes de religiões de matriz africana são hostilizados ao saírem do terreiro, sujeitos a receber a primeira pedra, atirada por aqueles que se intitulam salvos por Cristo. A pedra, neste caso, não é só metafórica, é literal. E hoje, àquelas outras formas de preconceito de que falei, unem-se outras tantas travestidas nos salários – inferiores aos de pessoas brancas – nos olhares tortos para aqueles que entram na universidade pelo sistema de cotas e nos estarrecedores insultos em redes sociais.

Há quem diga que tudo isso é invencionice, que hoje vivemos a democracia racial e que ações afirmativas como as cotas são privilégios (ditadura racizista? negrista? que nome darão?). Diz-se que o problema que enfrentamos é social, e não racial. Esses que procuram deslegitimar a questão racial e os movimentos negros provavelmente nunca viram a cara da favela. Então pasmem: ela ainda é eminentemente negra e periférica. Outra, um jovem negro, com mesma escolaridade e faixa etária de um jovem branco, carrega maior vulnerabilidade. Porque a cor ainda serve de parâmetro para a diferenciação.


Confira também: Apertem os cintos, algumas palavras sobre o carnaval de Pernambuco

Na primeira noite em que ouvi o silêncio do tambor, cheguei à conclusão de que o tal silêncio, os tais tambores vão além do culto aos orixás. São também mo[vi]mento de luta. Refletem o negro de ontem e de hoje e devem ser observados pelo prisma do combate à intolerância e ao racismo, atitudes que beiram o desvario e ofendem a diversidade étnica e religiosa.

Para quem perder a celebração em Olinda, o Recife recebe o cortejo na segunda-feira de carnaval, no Pátio do Terço, em frente à casa de Badia, local onde tradicionalmente ocorriam as festividades da cultura afro.

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