CONSCIÊNCIA COLETIVA

Apertem os cintos, algumas palavras sobre o carnaval de Pernambuco

em Opinião/Pernambuco por

Que tristeza os vídeos e as matérias sobre a violência nas prévias carnavalescas. Recife e Olinda vão enfrentar – ainda mais – muitos problemas nesse sentido. É claro que somos capazes de perceber que existem inúmeras causas para o crescimento dessa onda de arrastões e acho importante que sejamos capazes de olhar para algumas delas. Ficar apenas cobrando policiamento e repressão, quando as discussões sobre a desigualdade são negligenciadas o ano inteiro, é bem complicado né não?

O nosso governador e o nosso prefeito não parecem muito interessados em diagnosticar  a espinha dorsal do problema. É importante, fundamental mesmo, colocar em pauta,  questões que possam ir além da atuação da PM.  A classe média, inclusive a que se diz de esquerda, sabe tanto que PM e Governo estão atrelados, que no primeiro sinal de confronto, clama pelo cassetete.

Pensar em todo percurso histórico e em todas as ausências do setor público que nos levaram ao momento atual, fará com que as outras nuances desse problema sejam trazidas para o centro do debate. Exigir estratégias que diminuam a atuação dos bandidos é fundamental, mas precisamos urgentemente tratar, com mais profundidade, das questões que envolvem a violência e suas mais diversas manifestações. E quando falo isso, não falo das inúmeras leituras acadêmicas que inundam as redes sociais, falo das questões que dizem respeito a nossa atuação política diante dos problemas sociais, das nossas contradições e da nossa incapacidade de dialogar, perceber e compreender outras realidades.

Essa postura não significa, como muitas pessoas adoram equivocadamente afirmar, que estamos protegendo bandido. Pelo contrário, estamos querendo que a questão da violência seja tratada em sua origem, que ela não seja vista e analisada apenas a partir de um único olhar. Diversos fatores colaboram para que a violência se faça presente dessa forma, aqui estão alguns deles:

  1. Urbanização acelerada e sem planejamento (eita Recife)
  2. Aspirações de consumo dentro de uma sociedade onde os bens materiais são exibidos como sinônimo de felicidade.
  3.  Dificuldades de inserção no mercado de trabalho (eita Brasil)
  4. Um Estado ineficiente, precário, com programas de políticas públicas voltados apenas para a repressão e nunca para prevenção.
  5. Uma sociedade que não percebe como alguns problemas são extensões daquilo que ela mesma reproduz.


Com a iminência do carnaval, sabemos que essas questões tão importantes como essas não poderão ser trabalhadas, que colocar em prática uma postura preventiva, como a que defendo nesse texto, exige tempo e disposição.  Está muito claro também que o sistema de atuação policial enfrenta problemas, e não é de hoje. Em dias de concentração, todo mundo sabe no que se transformam as ruas do Recife. É pensando em propor algum caminho pra que a gente possa debater essa questão com mais amplitude, que  listei algumas perguntas que podem nos ajudar a entender melhor as dimensões bem complexas dessa problemática:

  • A violência nas ruas da cidade do Recife e de Olinda é um fenômeno recente?
  • Quem é a população vitimada por ela?
  • Quem são os agressores ? Que realidade está sendo ofertada para eles?
  • Quantos arrastões em dias de jogos de futebol já foram filmados nos últimos anos?
  • Quantos assaltos são registrados por dia nas delegacias dessas cidades?
  • O que até agora foi feito? Que ações efetivas estão sendo pensadas?
  • Dobrar o número de policiais nos polos vai resolver?
  • A equipe do governo de Pernambuco e as prefeituras de Recife e Olinda procuram exercer abertamente o diálogo com a população?
  • Como nos posicionamos e nos mobilizamos diante dessa realidade?

As questões acima vão continuar sendo respondidas nos vídeos e relatos publicados diariamente pela população.  É por isso que é preciso repetir, reforçar mesmo, que só com a ampliação e melhoria do sistema educacional, de saúde, habitação e com mais oportunidades de emprego, dentre outros fatores, esse tipo de violência poderá ser minimizado?  Até porque, sabemos que existem outros tipos de violência, oriundos de matrizes bem diferentes e especificas, mas essa violência urbana, de rua, percebida nas grandes metrópoles, pode sim ser melhor trabalhada pelo governo, com a participação permanente da sociedade civil.

E não adianta dizer em tom de felicidade que esse ano vai preferir ficar trancado em casa, como se quem estivesse disposto a curtir o carnaval, tivesse que arcar sozinho(a) com as consequências desse sistema perverso. Prevenção é sempre importante, mas ela não pode ser a linha de chegada. A violência não acabará no carnaval e nem é fruto dele, como bem sabemos. Por fim, é pedir, torcer, para que fevereiro nos traga alguma esperança;  a indignação e o coração apertado, certamente serão as fantasias que vestiremos nos dias de folia.

Facebook Comments

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

2 Comments

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Último post de Opinião

Ir para o Topo
Pular para a barra de ferramentas