CONSCIÊNCIA COLETIVA

A crescente representatividade LGBT nas HQs da DC Comics – Parte 3

em HQ/LGBTQI/Nerd por

Uma HQ pros gays! Pros gays!

Apesar de possuir mais de 80 anos de história, apenas muito recentemente a DC Entertainment começou a abordar personagens lésbicas, gays, bissexuais e transexuais de forma mais ampla em suas mídias. Já foi falado do tratamento dado às personagens lésbicas, trans e bissexuais nas páginas de suas HQs nos últimos anos. Agora é hora de falar dos gays!

Quando a DC Comics deu início aos Novos 52 em 2011, havia três personagens gays em posições de destaque em diferentes revistas: o novo herói jovem Casamata em Novos Titãs e o casal Apolo e Meia-Noite em StormWatch. Porém, nenhum dos três foram abordados de uma forma muito digna. Casamata teve todo o seu potencial como primeiro super-herói gay e hispânico numa equipe importante da DC desperdiçado por roteiros ruins e a incorporação dos populares personagens do selo WildStorm ao Universo DC principal foi bastante criticada e mal recebida pelos fãs.

Foi no começo de 2012 que a coisa começou a mudar quando a DC revelou que um dos seus personagens mais antigos seria reapresentado como gay: o Lanterna Verde Alan Scott. Criado em 1940, na Era de Ouro das HQs, Alan Scott foi o Lanterna original e sempre havia sido escrito como heterossexual, relacionando-se com mulheres e tendo filhos. Todavia no reboot, o personagem foi reimaginado como homossexual e a ideia de um Lanterna Verde gay chamou tanta atenção que até programas de entretenimento brasileiros cobriram a notícia (com aquele toque bem global™). Obviamente a revelação gerou bastante choque e revolta dos fãs mais conservadores, mas a DC seguiu em frente com o seu plano com o novo Alan Scott sendo o foco das primeiras edições da revista Terra 2, com cena linda de beijo (seguida de tragédia horrível) e tudo mais.

O Lanterna Verde Alan Scott na nova roupagem dos Novos 52

Terra 2 foi bastante elogiada e o novo Alan Scott se tornou querido pelos leitores que abraçaram a nova abordagem (obviamente muita gente não abraçou). Curiosamente, o Alan Scott original tinha um filho gay: Todd Rice, vulgo Manto Negro, criado em 1983, que ao longo dos anos saiu do armário e começou a namorar Damon Matthews, com quem tinha um relacionamento feliz. Com o lançamento dos Novos 52, Todd foi apagado da cronologia, mas espera-se que retorne dentro da nova fase editorial da DC Comics, chamada Renascimento.

Devido às críticas pesadas e baixas vendas de StormWatch e Novos Titãs dos Novos 52, a DC tentou mudanças editorais para reverter a situação. Enquanto os Titãs eventualmente tiveram alguma melhora, os heróis da WildStorm perderam seu espaço. Assim, Meia-Noite e Apolo também sumiram junto de seus colegas. Porém, ambos os personagens guardavam um legado forte demais para serem simplesmente deixados de lado. Quando foram apresentados ao mundo, em 1998, nas páginas de StormWatch antes da aquisição do selo adulto WildStorm pela DC, Apolo e Meia-Noite eram pouco mais que uma versão de subtexto homoerótico do Superman e do Batman.

Apollo e Midnighter.

Já na DC, os dois foram incorporados ao time de protagonistas de Authority (a sequência direta de StormWatch), de Warren Ellis e Bryan Hitch, e de lá para cá o subtexto virou texto e eles fizeram história! Em Authority, o relacionamento dos dois ganhou destaque e eles protagonizaram o primeiro casamento igualitário entre super-heróis das histórias em quadrinhos em 2002. Na mesma edição, Apolo e Meia-Noite se tornaram os pais adotivos de Jenny Quantum. Com toda essa importância, eles simplesmente não podiam ficar na geladeira para sempre!

Meia-Noite retornou inicialmente como personagem coadjuvante em Grayson e, pouco tempo depois, ganhou sua própria HQ solo em 2015 – a primeira HQ estrelada por um super-herói gay! Roteirizada por Steve Orlando, escritor bissexual autor de outros títulos envolvendo personagens LGBT como Virgil, o título focou na vida de Meia-Noite como homem solteiro depois de sua separação de Apolo. A revista chamou atenção pela inserção porque, além da ação típica do personagem, ela também incorporava elementos da vida cotidiana dos gays de hoje, nunca antes representada em HQs de heróis: o uso dos aplicativos de pegação, idas a sauna e bares gays eram parte natural da rotina de Meia-Noite. O título foi aclamado pela crítica, mas infelizmente, a revista durou apenas 12 edições. Para atender ao clamor dos leitores órfãos dessa revista maravilhosa, a DC trouxe Meia-Noite pouco tempo depois, desta vez reunido a Apolo, na minissérie de seis edições Midnighter and Apollo. Focando na vida de casal dos heróis, o título manteve a ousadia de Orlando, incluindo uma cena de sexo gay logo na primeira edição!

Capa do primeiro número de Midnighter e Apollo.

Este ano, dois novos personagens gays estão para ser apresentados em papéis de destaque em diferentes títulos da DC. O primeiro deles é Jackson Hyde. Baseado no Aqualad do desenho Justiça Jovem, Jackson foi inserido nas HQs em 2010, mas não teve chance de fazer muita coisa já que logo depois Os Novos 52 se iniciou e ele não se encaixava no reboot. Porém, em julho de 2016, o personagem reapareceu revelando para sua mãe que era gay (e encarando uma reação negativa dela). Agora, ele está para encabeçar um arco de histórias na revista dos Novos Titãs em breve.

O segundo personagem gay a ser apresentado é o Combatente da Liberdade Raymond Terrill, vulgo Ray. Criado em 1992, Ray foi escrito como um personagem gay pela primeira vez em 2014 na minissérie The Multiversity (Multiversidade, ao pé da letra) de Grant Morrison. Apesar de não ser dito explicitamente na história, Morrison alegou em entrevista que a ideia para sua equipe de Combatentes da Liberdade era que fosse formada apenas por pessoas pertencentes a grupos perseguidos pelos nazistas e Ray era o membro gay. Ele será parte da nova Liga da Justiça da América, também escrita por Steve Orlando. O roteirista já havia dito meses antes sobre seu desejo de ver um personagem gay integrar a Liga da Justiça e agora ele pode tornar esse sonho uma realidade.

Capa de Ray Rebirth, que introduz o personagem na nova fase da DC.

Para além das páginas das HQs

Além da participação na Liga da Justiça da América, Ray também será a estrela da primeira série animada protagonizada por um super-herói abertamente gay na CW Seed (canal do YouTube que exibe websséries da CW). Freedom Fighters: The Ray introduzirá o personagem dentro do Universo DC na TV e atualmente procura-se um ator que possa tanto dublá-lo na animação quanto interpretá-lo em eventuais aparições nas séries live action da emissora, tal qual foi feito a Víxen.

Tal ação só vem para fortalecer a presença cada vez mais acentuada de personagens LGBT nas séries da chamada “DC TV”. Apesar de não possuírem um primor de qualidade, é memorável o trabalho que elas vêm realizando para promover diversidade. No quesito de sexualidade, todas as produções DC atualmente em exibição (Arrow, The Flash, Gotham, DC’s Legends of Tomorrow e Supergirl) apresentaram personagens LGBT nos últimos anos, seja no seu elenco de protagonistas ou coadjuvantes, sejam eles heróis ou vilões.

Em Arrow, fomos apresentados a Canário Negro Sara Lance, mulher bissexual que foi vista se envolvendo tanto com homens quanto com outras mulheres na série, incluindo Nyssa al Ghul, a filha do icônico vilão Ra’s al Ghul. Mais recentemente, a série apresentou Curtis Holt, um homem gay e negro, que veio a se tornar o herói Senhor Incrível. O marido de Curtis, Paul, também já apareceu. Todos os quatro são personagens originais da série, inspirados em personas dos quadrinhos, que não eram originalmente LGBT.

Sara Lance eventualmente se tornou Canário Branco, uma das protagonistas de DC’s Legends of Tomorrow que recentemente mostrou também um idoso Manto Negro. Em The Flash, conhecemos David Singh, chefe de polícia de Central City, homossexual e casado com Rob. Nas HQs, David tem um relacionamento com Hartley Rathaway, que é o vilão Flautista, que também já apareceu na série, tão gay quanto sua contraparte dos quadrinhos. Em Supergirl, descobrimos recentemente que a irmã de Kara, Alex, é lésbica e está atualmente desenvolvendo um relacionamento com a policial Maggie Sawyer.


Apesar de não ter ligação muito direta com as demais séries da DC, Gotham também tem seu número de representatividade LGBT: na primeira temporada, a série apresentou sua versão de Renée Montoya. Ela era ex-namorada da bissexual Barbara Kean, a esposa de Jim Gordon na época. Recentemente, a série também andou explorando o relacionamento entre dois dos mais populares vilões do Batman: o Pinguim e o Charada, no que tem sido considerada uma reviravolta interessante. Não é difícil atrelar essa presença LGBT a Greg Berlanti, produtor e roteirista abertamente gay envolvido em Arrow, The Flash, Supergirl e DC’s Legends of Tomorrow. Isso sem contar a animação Batman: Sangue Ruim, lançada ano passado que tratou de forma franca a sexualidade de Kate Kane e Renee Montoya.


O legado e o que ainda pode melhorar

Com a intenção de atrair cada vez mais leitores, as editoras de quadrinhos têm buscado diversificar cada vez mais as pessoas nas páginas de suas HQs. Para a DC, infelizmente, tem sido uma jornada inconstante, cheia de altos e baixos. Tivemos conquistas como a criação da transexual Alysia Yeoh e do Alan Scott gay, as revistas solos de Batwoman e Meia-Noite, o foco na bissexualidade de personagens como Mulher-Gato e Constantine e a abertura para se discutir os relacionamentos bissexuais de Arlequina e Mulher-Maravilha. Apesar disso, acompanhamos com pesar o ruir da revista da Batwoman até seu cancelamento depois que a DC proibiu o casamento entre Kate Kane e Maggie Sawyer de acontecer (Nota do editor: A revista da Batwoman está confirmada para voltar em março de 2017), sentimentos falta de Alysia Yeoh em Renascimento (mesmo a Batgirl encabeçando DOIS títulos), a exploração da bissexualidade de Constatine caiu consideravelmente nesses últimos meses, a Mulher-Gato também perdeu sua revista solo e não seremos apresentados a uma namorada (ou ex) da Mulher-Maravilha tão cedo.

Capa da primeira edição da nova série Batwoman a ser lançada em março.

É também triste notar que o número de personagens LGBT em atividade não parece crescer, mas apenas permanecer, o que acaba impedindo progressos. Alan Scott gay surgiu, mas à custa do fim de Manto Negro. Agora é o Lanterna Verde quem desapareceu no Renascimento, com Ray surgindo no horizonte para talvez ocupar a vaga de herói gay adulto deixada por ele. Da mesma forma, Aqualad está a caminho dos Titãs, mas Casamata desapareceu. Será que precisamos ter mesmo só um representante de cada? Por que não podemos ter Casamata e Aqualad na equipe dos Titãs? Há alguma razão para não termos um gay e uma lésbica na mesma equipe?* E os personagens bissexuais serão vistos se envolvendo com mais pessoas do mesmo sexo ou os eventos que os determinaram como tais se tornarão casos isolados apenas para marcar a história?


Veja também: A crescente representatividade LGBT nas HQs da DC Comics


Mais importante: cadê personagens trans? Alysia Yeoh foi ótima, mas precisamos de mais personagens trans! DE HERÓIS E HEROÍNAS TRANS! O máximo de trans que passou pelo Universo DC em 2016 foi no crossover de Academia Gotham com Lumberjanes, da editora Boom! Box, com a personagem transgênero sendo justamente a protagonista de Lumberjanes! A DC precisa fazer suas próprias “Lumberjanes”, apresentar novos heróis e heroínas trans ou colocar em evidência personagens já apresentados, mas que não conseguiram destaque o suficiente no passado, como Kate Godwin, vulgo Coagula, uma das poucas heroínas transgênero da editora, criada por Rachel Pollack em 1993 para integrar a Patrulha do Destino. Ou até mesmo Kani, a Porcelana, criada recentemente por Gail Simone.

Lumberjanes/Gotham Academy #1

Ainda assim, o esforço da DC Entertainment em se comunicar com os leitores LGBT, ainda que num nível mínimo, seja povoando suas diferentes mídias com personagens sexualmente diversos, seja fazendo parcerias como a realizada com a Boom! Box para Lumberjanes/Gotham Academy e a mais recente, com a IDW, para lançar a antologia Love is Love (que reuniu vários artistas para homenagear as vítimas, sobreviventes e famílias da tragédia ocorrida ano passado na boate Pulse em Orlando). Além do mais, é bom ver esses esforços inspirando outras editoras.


Veja também: Batwoman e a crescente representatividade LGBT nas QHs


A Marvel – que já teve seus momentos como o famoso casamento igualitário do Estrela Polar e os adolescentes LGBT de Young Avengers – já tem duas revistas solo protagonizadas por personagens sexualmente diversos para lançar: além de Miss America, a editora anunciou a solo do Homem de Gelo. Um dos x-men originais, o personagem foi tirado do armário em 2015 e agora finalmente vai ter a chance de ter sua sexualidade trabalhada com mais destaque. Ainda pode não ser perfeito ou ideal, mas é ótimo ver progressos sendo feitos, barreiras sendo quebradas e as cores das histórias em quadrinhos americanas finalmente sendo usadas para contar as histórias que representam aqueles que encontram sua força e orgulho no arco-íris.

*Uma exceção gloriosa à regra de um LGBT por equipe foi Secret Six, escrita pela maravilhosa Gail Simone. Verdade seja dita, Simone tem um histórico com o Sexteto Secreto. Responsável por todas as versões da equipe desde meados de 2005, a escritora conseguiu inserir o relacionamento lésbico entre as personagens Escândalo e Nocaute, mas acabou não tendo oportunidade de revelar que Homem-Gato era bissexual devido ao cancelamento da revista devido à chegada dos Novos 52. Em 2014, a DC deu uma nova chance a Simone e ela não só aproveitou pra explorar a bissexualidade de Homem-Gato e trazer Escândalo de volta, como ainda apresentou Porcelana, uma personagem gênero fluido criada por Simone para o Universo DC! O título durou 14 edições, antes de ser cancelado.

Professor de inglês, DCnauta, Nintendista e aspirante a Mestre Pokémon, gosto de usar minhas horas vagas para ver seriados, ler HQs, jogar, escrever e, claro, problematizar.

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