CONSCIÊNCIA COLETIVA

Homossexualidade na vida pública: um papel ainda para poucos fora das telas

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“Ser ou parecer: eis a questão”. A consagrada frase de Shakespeare em A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, parafraseada aqui, parece cair como uma luva no contexto das personalidades midiáticas, mais especificamente no dos ícones do entretenimento (cinema, televisão, jornalismo, etc.), os quais, muitas vezes, são obrigados a viverem como se seguissem roteiros no âmbito de suas próprias vidas pessoais.

Primeiramente não é incomum, mesmo nós enquanto meros ‘mortais’, ostentarmos aquilo que não somos ou o que queremos parecer, em especial quando estamos sob certos holofotes – as redes sociais são provas disso. Com base nisso, quando olhamos para a vida de pessoas públicas, em especial de astros e estrelas do showbiz, é perceptível que a roteirização de suas histórias acontece ou, ao menos, parece acontecer dentro e fora dos palcos e das telas. Não à toa, casamentos, traições e, por que não, ‘saídas de armários’, soam muitas vezes como capítulos de uma sequência narrativa, que, de forma consciente ou não, servem para alimentar a mídia sedenta por informações controversas e acabam por atrair atenção para aqueles ‘deuses de carne e osso’.

O fato é que, no sentido de atender a estruturas pré-moldadas de comportamento, estabelecidas pela indústria do entretenimento, bem como pela sociedade em si –  ainda enraizada, quase sempre, em valores conservadores – , pessoas com uma vida pública acabam por personificar ideais, reforçando estereótipos (muitos com fundo pejorativo) como o de que ‘o galã de novela não pode ser gay’.

Assim, pegando carona na frase acima, cito o recente exemplo do ator Leonardo Vieira. Tido como galã das telenovelas, desde o início de sua carreira da Globo nos anos 1990, o ator (que fez o Faraó de José do Egito e atualmente é o Balaão, na novela Os Dez Mandamentos, ambas da Rede Record), foi flagrado por um fotógrafo recentemente beijando um amigo na boca na saída de uma festa. Alvo de ataques homofóbicos na internet, após a divulgação das ‘imagens comprometedoras’, Vieira escreveu uma carta aberta, afirmando que é gay, mas que não estava se assumindo, já que segundo ele ‘nunca esteve dentro de um armário’. “Leo” comentava ainda que seus amigos e familiares sabiam de sua orientação sexual, que teve apoio de sua família – apesar de ter sido criado sob uma forte influência católica – , e que já tinha tido vários namorados.

Leonardo Vieira

Diante disso, há quem culpabilize a mídia por sua atitude repudiável de pressionar o ator para fora de seu ‘reino encantado de Nárnia’. Pois, aquela instituição deveria empregar ideais que não estivessem a serviço da promoção da intolerância, sofrida pelo o ator e por tantas outras pessoas que, seja por coragem ou por ‘deslize’, acabam por compartilhar aspectos de suas vidas, menos digestos por parte da sociedade mais conservadora.

Apesar da atitude pouco ética e sensacionalista midiática, ela evidencia uma questão ainda mais complexa e que, embora esteja atrelada mais a uma parcela da população (que vive em suas Torres de Marfim baseadas na fama), afeta a todos: a necessidade ou não de pessoas públicas exporem sua vida pessoal, mais especificamente sua orientação sexual.

Sair do armário não é tarefa fácil para ninguém, seja para si mesmo, pais e mesmo para os próprios filhos (como já abordamos aqui em outro texto), e certamente deve proporcionar um medo ainda maior em quem vive seguindo rituais de ‘normalidade’, de certa forma isolado da realidade da maioria das pessoas, as quais vivenciam diariamente situações de preconceito e discriminação. Lembro-me, neste ponto, por sinal, de – num encontro de amigos – um deles erguer as sobrancelhas e afirmar que determinado ator (o qual podia ser visto numa novela reprisada atualmente pela Globo) tinha uma interpretação péssima, um terceiro elemento da mesa concordava conosco sobre o ídolo em questão e pontuava que, por ter uma vivência de dentro dos bastidores da emissora, conhecia o indivíduo e este era gay, ‘de forma velada’, já que cultivava a fama de ‘galã’ e não poderia se expor. Fato, por sinal, nada incomum na Terra do Plim-Plim…

De volta à questão da famigerada carta, a verdade é que Leonardo Vieira não é o primeiro, nem será o último artista a se revelar gay à humanidade. Seu posicionamento é reconhecível, principalmente no que tange a desmistificar padrões e gerar, de certo modo, uma aproximação com um público, que ele talvez nem soubesse que tinha, naturalizando assim o ‘ser’ (verbo) homossexual em sociedade. No entanto, seu discurso traz o ranço do conservadorismo, possivelmente oriundo de sua criação familiar e do mercado no qual está inserido, comprovado pelo trecho a seguir de sua carta, por exemplo: “se pudesse escolher, escolheria ser heterossexual com certeza (…) Não teria que ter enfrentado as dificuldades que enfrentei com meus pais, não seria discriminado em certos círculos sociais, teria uma família com filhos”.



As frases do ator, sob certa perspectiva, funcionam como desserviço, já que podem induzir ao recolhimento de quem busca, por meio do apoio de parentes ou mais frequentemente de amigos, ‘chutar a porta do armário’ e viver suas vidas de forma plena, apesar de terem de lidar com o preconceito diário e as alternativas às necessidades de exercerem seus papeis de pais e mães homoafetivos.

Pertencentes ao, agora, universo de Leonardo, atores, cantores, atrizes e cantoras famosos gays, inclusive ícones de Hollywood, já se assumiram anteriormente – ao que parece por não quererem viver suas vidas de forma de ‘camuflada’ nesse sentido. São os casos, por exemplo, de Jodie Foster, Ellen Page (que tem um engajamento particular na causa LGBT), Ian McKellen (a nossa eterna Gandalf), Marco Nanini, Luiz Fernando Guimarães (mais tardiamente), Ricky Martin, Rupert Everett (o boy magia de Madonna em ‘Sobrou para você’ e o Encantado de ‘Shrek’), Daniela Mercury, Sam Smith, e mais recentemente a apresentadora e jornalista Fernanda Gentil, a qual no alto dos seus 37 anos, com filhos e tendo sido casada, assumiu seu relacionamento com a também jornalista Priscila Montandon; sofreu preconceito especialmente na internet, mas não abdicou de sua liberdade, mesmo atuando num segmento de certa forma super machista como o esportivo.

Ainda que tenham passado ou passem por situações de isolamento e rechaço, especialmente no âmbito profissional, como foi o caso de Everett, que ostentava o status de galã hollywoodiano, quando ‘saiu do armário’, as atitudes de Rupert, Fernanda e dos demais são louváveis. Elas normalizam, geram uma aproximação com as pessoas em geral (sufocadas muitas vezes em seus próprios armários) – tendo em vista também o alcance da cultura de massa – , mostram, diante daqueles mesmos holofotes prestes a condenarem deslizes de comportamentos, que ser gay não determina caráter, nem muito menos profissionalismo.

Apesar de importantes e capazes de também promover certa identificação com o público, ajudando a desmistificar certos preconceitos, atitudes como a de Leonardo, por outro lado, soam dúbias, imprecisas, moldadas por uma perda de controle pouco aceitável – imposta pela mídia sedenta por ‘polêmicas’ como hienas frente à caça a ser devorada. Iniciativas como a de Vieira buscam, conscientemente ou não, identificar-se com quem é do meio comum, compartilhando aparentemente dos seus mesmos preconceitos deste, abraçando seu ‘DNA gay’, sem necessariamente abrir mão de conceitos que podem e devem ser problematizadas como os expressos em ‘se eu pudesse escolher, seria hétero’, ‘sempre quis ter uma família com filhos’. Alegações estas que contribuem, na melhor das hipóteses, indiretamente para a perpetuação de uma visão negativista, cultivada infelizmente ainda por muitos homossexuais, ainda que sejam – em alguns casos – dignas de aplausos e devam ser feitas com mais frequência, para promovermos uma efetiva desconstrução desses engessamentos culturais discriminatórios que adoecem a sociedade à luz ou na penumbra dos holofotes.

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Um aspirante à família Martell, que enlouqueceu o Chapéu Seletor com sua determinação de ir pra Sonserina. Adora uma problematização, afinal raiva leva ao lado sombrio! Integrante do Conselho Anallógicxs, faz jus ao seu meistrado na Cidadela com suas divagações de Bergman à performance Madonnística.

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