CONSCIÊNCIA COLETIVA

Por que o Cristianismo precisa se posicionar contra a LGBTfobia

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Qual é a função de uma igreja cristã que se diz em defesa da vida? Quando falamos em aborto, cristãos são geralmente os primeiros a se manifestar contra, lembrando seu compromisso de defender a vida. Em 2007, o arcebispo metropolitano Dom Moacyr José Vitti escreveu em carta ao então presidente Lula que “a Igreja Católica, consciente de sua missão evangelizadora, jamais poderá abrir mão do empenho de valorizar, promover e defender a vida humana”. O sacerdote se referia ao aborto, obviamente, mas será que esse empenho em defender a vida humana se referia só a fetos ou se estende verdadeiramente a toda vida humana?

Este mês, a descoberta do assassinato brutal de Itaberlly Lozano, jovem de 17 anos morto pela própria mãe, com a ajuda do padrasto, causou bastante comoção. Além do choque da notícia em si, os comentários postados em resposta à notícia nos diferentes portais da Internet também serviram para nos lembrar o quanto nosso país ainda é preconceituoso no que toca à população LGBT.

Como se fosse possível esquecer! Em 2014, a Associação Internacional de Gays e Lésbicas já afirmava que o Brasil é a nação que mais mata pessoas LGBT no mundo, com 325 assassinatos registrados de 2008 a 2011. Antes de Itaberlly, somente nesses primeiros 13 dias de 2017, tivemos os seguintes casos reportados:

  • Em Pernambuco, o aluno Fabrício Henrique da Silva, 18, atacou seu professor, Jhonatan Domingos da Silva, 34, após ter sido supostamente cantado por ele;
  • Luiz Patrício de Oliveira Júnior, 33 anos, foi morto com 23 facadas no Rio Grande do Norte;
  • Na zona sul de Teresina, uma travesti de 16 anos foi assassinada a tiros por três menores que queriam se vingar da família dela;
  • Em Curitiba, o homossexual Ricardo Benetti, 34 anos, foi encontrado morto num cenário de suicídio suspeito;
  • Um casal foi atacado por três homens que alegavam “não gostar de homossexuais” e um dos bandidos acabou morto no processo em Belo Horizonte;

Não é difícil supor que o número de casos seja realmente maior, mas fica mais do que claro que LGBTfobia mata! E quando não mata as pessoas que são gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais, mata aqueles que a elas são relacionadas. O final de 2016 foi marcado pela extensa cobertura da mídia sobre a morte do vendedor de doces Luiz Carlos Ruas, violentamente espancado até a morte depois de defender um grupo de travestis de agressores transfóbicos. Mas o que isso tem a ver com o cristianismo? Eu digo TUDO.

Se o Brasil é o país que mais mata a população LGBT, também é o segundo país com o maior número de cristãos no mundo: quase 90% da população brasileira se declara cristã! Nós também ainda somos a maior nação católica do mundo (64,6% da população brasileira), frente a um estupendo crescimento no número de evangélicos (22,21%) pentecostais e neopentecostais no país nos últimos anos. São essas igrejas cristãs que também consideram algo anormal uma mulher se apaixonar ou se envolver com outra e que também condenam uma pessoa que não se identifica com seu sexo de nascimento.

A verdade é que por trás de cada assassinato ou ataque motivado por LGBTfobia, há uma pregação condenando LGBTfobia por trás, um pastor propondo “cura gay”, um testemunho de “ex-gay” falando sobre como as pessoas devem “enfrentar sua homossexualidade”…

..alguém ensinando aos pais que eles devem educar bem os filhos para que eles não “virem gays ou lésbicas”, um sacerdote fazendo citações bíblicas preconceituosas. Por trás de cada travesti assassinada e violentada, há o repúdio de católicos e evangélicos por verem a transexual Viviany Beleboni fazendo uma performance que evoca Jesus Cristo.

É verdade que as grandes igrejas cristãs não são as únicas culpadas pela LGBTfobia. Preconceito contra práticas homossexuais existiam mesmo em culturas onde práticas homossexuais eram aceitas (na Grécia Antiga, por exemplo, a relação entre ativo e passivo era uma relação de poder social, não ligada ao prazer e às vontades reais dos indivíduos e sexo anal era altamente condenado). O grande problema é que as igrejas cristãs continuam a ser as que mais contribuem para a manutenção desses preconceitos, mesmo quando tentam aparentar tolerância.

Neste texto do site da Canção Nova (clique aqui) por exemplo, fala-se em “pseudo-homossexualidade”, encorajando os pais a suspeitarem que a orientação sexual de seus filhos seja apenas “uma fase”, apaga-se a existência de pessoas trans ao afirmar que “muitos homossexuais […] começam a tomar hormônios” como se fosse uma mera questão de escolha, e ainda pede que os pais convençam seus filhos a serem discretos! No meio evangélico, a situação não é muito diferente: neste texto do portal Gospel Mais, a forma como as igrejas evangélicas lidam com LGBT é duramente criticada, porém, o próprio texto propõe aos pais enxergarem a homossexualidade de um filho como uma provação de Deus (veja aqui).  Além disso, vale sempre lembrar que foi a própria bancada evangélica que derrubou a PL-122, que propunha uma série de medidas para justamente combater a LGBTfobia.



Não é de surpreender, portanto, que grande parte dos comentários LGBTfóbicos a qual as pessoas LGBT do Brasil são vítimas carregue uma cruel e condenadora moral cristã. Frases afirmando que “Deus criou homem e mulher” lotam sessões de comentários, ao lado de frases de ódio e violência, mesmo em perfis sociais de pessoas que apenas querem expressar livremente seu amor, como aconteceu recentemente com a apresentadora Fernanda Gentil e o ator Leonardo Vieira. No caso das notícias de assassinato, a situação chega ao absurdo com pessoas que têm a audácia de dizer que “homossexualismo destrói famílias”, mesmo diante do assassinato de um jovem por sua própria mãe. Quem é que está realmente destruindo famílias aqui?

Numa nação em que mesmo o maior dos ateus é submetido a constantes ensinamentos, reflexões e simbologias cristãs em seu ambiente de trabalho, escola e entre sua família, não dá para negarmos o peso do cristianismo nesses juízes de valor. É preciso que líderes religiosos e instituições cristãs percebam que cada pregação que fazem contra a homossexualidade está na realidade matando: crianças, jovens, adultos, idosos, gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e até heterossexuais. Por mais que a moral cristã não admita ou oficialize relações homossexuais e pessoas transexuais (e elas estão no seu direito), cabe aos religiosos determinarem qual sua prioridade: advogar em defesa da vida de uma população que está sendo cada vez mais vitimada pelo preconceito ou insistir na condenação de um “pecado” seletivo (a Bíblia também condena sexo antes do casamento e divórcio e ainda assim as igrejas hoje realizam divórcios e casam pessoas não-virgens sem problemas).

Se católicos e evangélicos, as duas frentes religiosas mais fortes e dominantes do país, se declaram comprometidos com a vida, então eles precisam parar de olhar somente para os fetos nas barrigas de suas mães e sim para as crianças que já estão sendo criadas, para os adultos que estão sendo condenados, pelas vidas que estão sendo tiradas de pessoas cujo único “pecado” é ser quem elas são.

Professor de inglês, DCnauta, Nintendista e aspirante a Mestre Pokémon, gosto de usar minhas horas vagas para ver seriados, ler HQs, jogar, escrever e, claro, problematizar.

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