CONSCIÊNCIA COLETIVA

Azealia Banks e lugar do racismo na cultura do entretenimento.

em Comportamento/Música/Opinião por

Um cantora negra, rapper, é constantemente vítima de racismo na vida e  nas suas redes sociais  = ninguém fala nada.

A mesma cantora, chamada Azealia Banks, publica posts contra seus agressores, utilizando frases transfóbicas, gordofóbicas, homofóbicas… = a imprensa toda noticia o que a cantora escreveu, nenhuma linha sobre o racismo é escrita.

A carreira da cantora, que estava no começo, não decola.

A cantora, ainda vítima do racismo nunca midiatizado, começa a usar as suas redes sociais em tom de revolta e continua fazendo uso de um discurso xenofóbico, elitista, transfóbico e homofóbico = a imprensa toda noticia o que a cantora escreve, recortando suas falas, não situando os leitores(as) no contexto, e claro, nenhuma linha sobre o racismo por ela sofrido, mais uma vez, é escrita.

Acreditem, essa situação não é nova, esse ciclo vem ocorrendo faz um bom tempo. Não tivemos nunca, enquanto público, a capacidade de aprofundar a discussão. Foram inúmeros casos, inúmeras ofensas e milhares de postagens desconexas. Entender hoje esse caso é um desafio, apesar da eficiência e da capacidade de resumo dos portais de notícias. A manipulação foi tamanha, que há até quem diga que Azealia escreve ofensas sem nenhum motivo, que ela acorda e simplesmente decide reproduzir esses discursos.

Essa semana,  a cantora, que dessa vez tava lá sem ofender ninguém, publica um vídeo onde dizia que matava galinhas para fazer rituais, chegou até  a mostrar o espaço que usa para isso – resultado – milhares de pessoas no mundo todo começaram a criar posts preconceituosos, criticando a religião da cantora. Os termos eram os piores possíveis.

Uma outra cantora, branca, chamada Sia Furler, faz post falando que matar animais para beneficio próprio é um horror – resultado – chove gente apoiando o que essa cantora disse. Aqui ninguém fala sobre o quanto essa crítica é preconceituosa. Afinal o genocídio de galinhas no Natal pode e é bonito, os rituais da cultura africana é que são sempre criticados.

Azealia rebate,  faz uso de um discurso machista,  dessa vez, direcionado à própria Sia – resultado – a imprensa toda cria manchetes sobre isso.  Na internet, jovens do mundo inteiro entram em defesa de Furler.

Brasileiros e brasileiras decidem ir  em caravana nas redes sociais da rapper,  postam ofensas, chamam a cantora de macaca, dizem que ela vai pra o inferno, que ela merece morrer, que a religião dela é do demônio, que ela é uma preta imunda…

Nenhuma linha sobre isso é escrita, a imprensa continua sem falar de racismo, ninguém nas redes sociais faz textão.



Azealia responde aos brasileiros(as) brancos e brancas que invadiram as suas contas. Ela usa mais termos ofensivos, elitistas e xenofóbicos, dessa vez contra o Brasil = todos os portais de notícia printam esses posts e apontam o preconceito reproduzido pela cantora = ninguém, pela milésima vez, cita o racismo.

Mais brasileiros(as) passam a invadir a página da cantora, dessa vez sem medo de reproduzir racismo, já que ele parece não existir = o silencio da mídia continua.

Resumo: Vocês perceberam como somos eficientes na hora de deixar o debate sobre o racismo em último plano? Do começo ao fim, nenhuma linha. E para não falar do racismo, geral escolheu ficar nessa de : esse racismo por ela sofrido não pode justificar o preconceito que ela mesma reproduz. Será que esse é um debate justo? Será que em algum momento, lá no começo, fomos capazes de dialogar, de gritar: olha lá o racismo mostrando os dentes. E eu não falo de mim ou de você, muita gente apontou esse racismo, mas estruturalmente, nenhum jornal ou veículo midiático tratou – NA MESMA PROPORÇÃO –  do tema e promoveu uma discussão rica. Era Azealia, por Azealia.

Claro que ninguém concorda ou deve concordar com o discurso reproduzido (muitas vezes) por ela, só queremos e devemos, dessa vez, deixar claro que existe racismo e que ele é um fator importante, que precisa ser discutido. Artistas brancos já reproduziram tanto preconceito, ninguém comprou guerra. Vocês já perdoaram todos esses cantores das bandas de rock? ou não perceberam que muitos deles eram e ainda são racistas, machistas e homofóbicos?

Não é certo achar que a violência deve ser combatida também com violência, nos ensinam isso, e é certo em algum nível de realidade, mas será que vivemos em um mundo que permite essa dinâmica? Será que é certo quando silenciamos diante de um racismo tão violento e permitido?

Se o debate não for rico e se ficarmos presos(as) nessa armadilha, repetindo o tempo inteiro : olha lá, ela não pode dizer isso, mesmo que sofra racismo, a coisa não vai pra frente, ninguém vai se entender e a discussão fica só no plano vazio do certo e do errado. Lamentável.

IMPORTANTE: Azealia Banks, na minha opinião, tem o melhor disco feminino dos últimos anos.


Escute no Spotify o Broke With Expensive Taste


PS: Inúmeros sites já notificaram o caso, com prints e tudo, vocês acham isso fácil, o que faltou mesmo foi a presença do tema racismo.

PS: Acreditem, transformaram toda essa situação em publicidade  para uma marca de sandália, olha só do que somos capazes

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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