CONSCIÊNCIA COLETIVA

Universidade e exclusão : um voo panorâmico e alguns problemas​

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O espaço acadêmico é extremamente rico, repleto de descobertas e capaz de promover novas e importantes experiências. Quando entramos pela primeira vez nas suas instalações, estamos cheios de dúvidas, tateando os corredores, descobrindo gradativamente novas formas de pensar.

Como aluno vindo de escola particular, tive contato muito cedo com os mecanismos que facilitariam o meu ingresso nesse espaço. Aprendi noções de cálculos, boas estratégias para escrever uma redação, decorei elementos e fórmulas prontas, tive contato com esquemas e dicas que me mostravam claramente como eu teria que agir no momento em que o exame de ingresso estivesse diante dos meus olhos. Quando ingressei em um curso de licenciatura, a minha turma foi a primeira vinda do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Quarenta alunos tomavam conta da sala, um conjunto bastante diverso. As conversas iniciais, recheadas de curiosidade, giravam sempre em torno da escolha do curso. Letras? Você queria isso mesmo? Parecia que só o fato de estar ali significava que algo tinha dado errado e que aquela sala representava o atalho possível (provisório) e ainda sim indesejado.

Vi advogados, engenheiros e jornalistas sentados ao meu redor, afivelando os cintos como se esperassem um voo raso, pouco instigante. Não demorou para que os quarenta se tornassem vinte. Corpos eram atirados em direção aos seus verdadeiros sonhos, alguns assistiam, como eu, pensando naqueles que dariam tudo por uma poltrona naquela aeronave.

Para os que permaneceram, a jornada teve momentos inspiradores. Paisagens deslumbrantes eram vistas pela janela. Foi possível ampliar alguns conceitos e repensar práticas que estavam na espinha dorsal do nosso ofício. De vez em quando, escutávamos, ao longe, um corpo se jogar silenciosamente. Não demorou para que algumas situações desagradáveis fossem aos poucos se revelando, entre estas, uma chamava bastante atenção: o tratamento excludente dado aos alunos que apresentavam, de forma mais evidente, problemas para lidar com fluxo dos conteúdos ou com questões de ordem estrutural e gramatical, oriundas, sem dúvida, de uma formação básica deficiente.


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Por se tratar de um curso voltado para a formação de professores, pensei, inocentemente, que teríamos um terreno mais preparado para lidar com essas questões. Imaginei que o sistema estivesse (também) preocupado em criar canais concretos e possíveis, onde os alunos revisitassem, compreendessem e diminuíssem os problemas vindos daquele passado inevitável. Estava muito claro, para mim e muitos dos meus colegas, que essas barreiras vinham dos vícios e das ausências ainda presentes no nosso sistema de ensino e que transferir essa responsabilidade apenas para o aluno, que estava ali, recém-chegado, era no mínimo perverso.

Percebi rapidamente como aquele treinamento, falho (mas eficiente), que tive na escola, de certa forma ainda estava me beneficiando, e consequentemente excluindo outros colegas. Como eu, alguns alunos seguiam sem amarras, amplamente elogiados e amparados pelos professores. Outros, permaneciam reclamando nos cantos, “correndo atrás”, isolados, solitários e contando poucas vezes com o nosso apoio. Silenciosamente, as linhas da segregação iam se tornando mais profundas, nos colocando a beira de um precipício que fingíamos (de forma bem egoísta) não existir.

O Sisu, sempre apontado como grande vilão e causador daqueles problemas, sofria críticas pontuais e contundentes, principalmente porque permitia que grande parte dos alunos, quando não obtivessem nota suficiente para entrar no curso que desejavam, escolhessem qualquer opção que garantisse a entrada no sistema público, sem nenhum compromisso com a permanência. Claro que esse é um tópico de grande valor e que precisa ser discutido, principalmente porque ela reflete diretamente na qualidade do grupo, da aula e consequentemente no tipo de formação ofertada, mas não acredito que ele seja o embrião da problemática, principalmente porque é perceptível como o processo de democratização do ensino superior vem provocando reações preconceituosas das mais diversas.

Para agravar o cenário, as questões pedagógicas, tão fundamentais, eram sempre deixadas em terceiro plano. As disciplinas preocupadas com a escola, com o desempenho do professor e com a realidade dos alunos, rapidamente taxadas de desnecessárias. Quando uma cadeira da área de educação era ministrada por um professor que apresentava problemas metodológicos, pediam a retirada imediata da disciplina do currículo obrigatório; quando o problema estava presente em outras disciplinas, pensavam (quando pensavam) apenas na substituição do professor.

Penso que a preocupação com o aprender, com o outro, deveria ser a principal motivação de qualquer curso superior. A razão da sua existência. Quando procurei dialogar com colegas que cursavam outras licenciaturas, me dei conta que o que eu vivia não era uma exclusividade. Todos os cursos reproduziam aquela dinâmica excludente, o que mostra a gravidade do problema e as suas raízes antigas e profundas. As pessoas com que falei a respeito afirmavam que tinham professores excelentes em sala de aula, mas poucos preocupados diretamente com essas questões e que grande parte tinha dificuldade em se perceber como reprodutor dessas mazelas, preferindo confortavelmente continuar beneficiando aquele pequeno grupo de alunos que demonstra melhor desempenho bibliográfico.

Evidente que nenhum desses problemas pode ser visto de forma isolada e que temos inúmeros desafios pela frente, mas é preciso pensar e acreditar em uma Universidade que não permita que práticas danosas como essa continuem sendo amplamente reproduzidas e aceitas. Todo professor, principalmente aqueles em processo de formação, deve ser um defensor da escola e deve combater essa arquitetura simbólica que maltrata e cria abismos sociais gigantescos.

Precisamos conversar sobre o sistema de acesso, sobre as cobranças sociais que fazem os jovens decidirem objetivando uma vaga e não uma formação. Precisamos (paralelamente) de um ensino superior que nos ajude a pensar sobre o mundo, que nos permita enxergar as raízes dos problemas sociais. Necessitamos de uma Universidade que traga para dentro dos seus muros (prioritariamente) aqueles que foram castigados por essa dinâmica injusta e que não seja excludente por natureza. Os professores, principalmente aqueles que ficam sentados confortavelmente em seus títulos, devem usar boa parte do seu tempo pensando em “como” ensinar, devem mostrar, por exemplo, aos alunos como eu, que os nossos privilégios não podem continuar servindo como arma ou como garantia de direitos exclusivos e que o mundo não gira em torno de nós.

É preciso passar muitas aulas ensinando a ensinar e se aquele avião (já quase vazio) precisar fazer uma curva inteira, se ele tiver que voltar para aquela dúvida não contemplada na 5ª série, todos nós, como bons passageiros, devemos estar cientes que aquela mudança de rota pode significar, para o colega ao lado, o verdadeiro início da viagem.

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Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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