CONSCIÊNCIA COLETIVA

Conheça The Fosters, uma série sobre a esperança.

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A casa dos Fosters não é como seu típico lar americano: sua bela estrutura de madeira abriga duas mulheres que se amam muito, Lena e Stef, e seus filhos Brandon, Jesus e Mariana. Brandon, o mais velho, é fruto do primeiro casamento de Stef, enquanto Jesus e Mariana são gêmeos que foram adotados pelo casal quando ainda eram crianças. A família cresce ainda mais quando Lena e Stef recebem um pedido para abrigarem temporariamente Callie, recém-liberada de um centro de detenção juvenil, e seu irmão Jude. Pode parecer inesperado, mas trata-se de uma produção Freeform (antiga ABC Family, pertencente a The Walt Disney Company): The Fosters.

Criada por Peter Paige (Queer as Folk) e Bradley Bredeweg (The Child), que conta com Jennifer Lopez entre seu time de produtores executivos, The Fosters é uma série que esteticamente lembra muito qualquer outra série jovem e família do estúdio: casas impecavelmente limpas (mesmo quando abandonadas) banhadas por cálidos raios de sol, gramado sempre muito bem aparado, transições de cenas marcadas por pop rock, jovens fofos e adoráveis com incríveis aptidões musicais (MAS CALMA! Não tem cantoria até onde eu vi) e os leves dramas adolescentes aos quais estamos tão acostumados a ver.


Já leu o nosso texto sobre The Crown? 


Porém, The Fosters tem muito a mais a oferecer do que inicialmente pode parecer a olhos nus. Trata-se de uma série familiar sim, com todos os méritos e defeitos de uma, mas que busca lidar com temas que não são tão comuns em produções do gênero, graças justamente à composição ainda pouco comum na tevê dos membros da família.

O fato de Stef e Lena serem um casal lésbico abre espaço para discussões sobre sexualidade, aceitação na família, luta por direitos, tolerância e conflitos com tradições estabelecidas. Por ser um casal inter-racial com filhos adotivos latinos, The Fosters também lida com questões étnicas, identidade cultural e racismo; e isso só em seus primeiros episódios. Seu número grande de personagens femininas também faz com que a série lide com temas pertinentes às mulheres, como seu eterno confronto com a sociedade machista. E tal diversidade não se restringe aos protagonistas: ela também está presente em seus diversos coadjuvantes que aparecem para engrossar o caldo de temas e discussões, além de representar a sociedade de uma forma mais honesta do que a maioria dos programas americanos voltados para a família.

É justamente essa combinação da estética jovem, familiar e otimista típica da Freeform com seus temas mais profundos que torna The Fosters tão subversiva e triunfante de sua própria maneira. Se por um lado, ela subverte o gênero de série familiar com seu casal inter-racial de lésbicas e sua família composta, em sua maioria, de filhos adotivos, ela também traz algo novo em termos de produções LGBT. Enquanto há uma variedade imensa de dramas focados na comunidade, há muito pouco em termos de produções otimistas ou leves, com finais felizes, que não foquem pesadamente no humor. A série até mesmo mostra um casal de lésbicas vivendo na mesma casa e sobrevivendo (você já contou quantas personagens lésbicas foram mortas em seriados nos últimos dois anos?).

The Fosters é leve e sutil, mesmo quando aborda assuntos sérios e pesados. Também é uma série sobre resistência, sobre uma minoria que enfrenta seus opressores, sejam eles os coleguinhas da escola, igrejas, pais homofóbicos ou agressores. Também não é uma série que empurra os problemas ou os podres da sociedade para debaixo dos seus tapetes muitíssimo bem varridos. The Fosters mostra que nem todo mundo tem um final feliz, que nem todo mundo muda e passa a te respeitar e que, às vezes, se sentir confortável consigo mesmo, se desconstruir pode ser um processo muito mais longo do que pensa.

Mas acima de tudo, The Fosters é sobre esperança. Apesar de ter pouco alcance mesmo nos EUA, o fato de possuir algo para todos os públicos também a torna capaz de educar e mostra o tipo de família que queremos para o futuro: uma que seja pautada puramente no amor mútuo, no desejo de estar junto, que se respeita, se ama e se ajuda. O fato de já estar em sua quarta temporada com uma audiência estável e já ter ganhado prêmios (inclusive o de Melhor Drama do GLAAD Media Awards e o Melhor Série Revelação no Teen Choice Awards, mostrando sua força não só com a comunidade LGBT, mas também com o público jovem americano) revela a força que a série possui e vale a pena ser conferida. Mesmo se não gostar, ao menos indique para alguém que você acredita que possa gostar (ou deva assistir). Nesses tempos de aumento de violência e intolerância, em que ódio e preconceito parecem levar a melhor, The Fosters se prova muito mais necessária do que aparenta e que mais séries como ela – ou melhores do que ela – possam surgir e nos agraciar com um pouco mais de esperança.

As duas primeiras temporadas de The Fosters encontram-se disponíveis na Netflix. A série também é exibida por aqui no Canal Sony.

Professor de inglês, DCnauta, Nintendista e aspirante a Mestre Pokémon, gosto de usar minhas horas vagas para ver seriados, ler HQs, jogar, escrever e, claro, problematizar.

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