CONSCIÊNCIA COLETIVA

Crash – No limite dos nossos Preconceitos

em Comportamento/Opinião/Pernambuco por

Dia desses, estive em um dos maiores shoppings aqui do Recife, daqueles que tem de quase tudo dentro: academia , agências de viagem, lojas de automóveis, joalheria, teatro, cinema e afins. Um lugar em que ser mega é sinônimo de status, gigante também foi a falta de respeito e discriminação que presenciei.

Estava saindo de uma livraria e seguindo para a escada rolante no piso inferior quando percebi que um dos seguranças do shopping estava seguindo, insistentemente, três garotos que circulavam pela alameda. Os três adolescentes, obviamente, não se enquadravam no arquétipo de consumidor idealizado pelo esquadrão da burguesia. Eles eram negros, estavam de bermuda e chinelo, provavelmente moradores da Brasília Teimosa ou Pina.

Em cima de um biciclo, a segurança informava pelo rádio cada passo dado pelos garotos. Era quase uma caçada policial constrangedora. O ápice foi quando os jovens desceram a escada rolante e foram abordados por outro profissional que questionou: “vocês tão indo pra onde?” (sic). Fui embora e não vi o desenrolar dos fatos, poderia ter questionado a conduta do segurança na hora, mas me acovardei. Não consegui digerir, fiquei horrorizado com aquilo tudo.

Saí de lá pensando: se os garotos fossem brancos, o tratamento seria esse? Como devem se sentir esses adolescentes ao irem para shopping do bairro onde moram tendo cada passo monitorado, como se estivessem em um Big Brother Brasil? Ao chegar em casa, extravasei minha indignação nas redes sociais. Enviei uma mensagem para o centro de compras e mencionei o ocorrido.


Confira também o artigo: Consciência negra e os desafios da efetivação da Igualdade Racial, de Ítalo Lopes.


Como sou meio introspetivo, os acontecimentos levam um tempão rondando na minha mente, indo e vindo várias vezes. Nessa minha loucura fiquei questionando, por que aquele fato não havia chamado atenção de outras pessoas que também transitavam no shopping? Por que elas, assim como eu, observaram tudo de longe e nada fizeram?
Prontamente me recordei de alguns textos da faculdade que citavam Félix Guattari e seus posicionamentos sobre os grandes blocos subjetivos criados pelo capitalismo. Somos treinados a pensar e agir de forma igual pra não confrontar nem ameaçar o sistema. A lógica é: estamos ali pra consumir, pronto. Terrível essa constatação de se perceber dentro desse simulacro e de se observar como parte de uma engrenagem medíocre e excludente. Me senti pequeno e impotente.

Dias depois, nessa vibe de se analisar e repensar posturas, me lembrei de um filme que gosto muito: Crash – No Limite (2005) de Paul Haggis. O slogan do cartaz na época de lançamento já havia me intrigado e hoje, mais uma vez, fica a pergunta no ar: até que ponto você se conhece?

Em tempo:

1) Eu também estava de bermuda e chinelo no shopping, mas não fui seguido por ninguém.
2) O shopping me respondeu no face, pediram meu telefone para me contatar, mas até agora ninguém me ligou.
3) Assistam Crash e depois me contem suas impressões.

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